A paixão pelo futebol mobiliza milhões de brasileiros todos os finais de semana, mas o acesso aos estádios ainda é marcado por barreiras invisíveis — e muitas vezes explícitas — para o público feminino. Neste domingo (16), quando o Campeonato Brasileiro movimenta multidões com grandes clássicos regionais pelo país, o debate sobre a presença e a segurança das mulheres nas arenas esportivas volta ao centro das atenções.

Apesar de representarem cerca de metade da torcida dos grandes clubes nacionais nas redes sociais e em pesquisas de preferência, a presença feminina nas arquibancadas ainda fica distante da paridade. Um estudo inédito acende o alerta para um fator de risco ainda pouco debatido, mas grave: o impacto do calendário esportivo na segurança das mulheres.

Dados do levantamento realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em parceria com o Instituto Livre de Escolhar (ILE), mostram que mais de 60% das torcedoras já sofreram algum tipo de assédio ou importunação sexual em estádios no Brasil.

Divulgado no Agosto Lilás e no marco dos 20 anos da Lei Maria da Penha, o levantamento mostra que lesões corporais e ameaças aumentam significativamente em dias de jogos das principais competições do país. A segunda edição da pesquisa Futebol e violência contra a mulher  revela que os registros de agressão — lesão corporal dolosa — decorrentes de violência doméstica crescem 28,9% em dias de jogos de futebol.

Além das agressões físicas, o levantamento aponta um aumento de 27,4% nos casos de ameaça nos dias em que há partidas. As mulheres jovens, na faixa etária entre 15 e 29 anos, são as mais atingidas, registrando um salto de 44,4% tanto nas ameaças quanto nas lesões corporais dolosas durante as rodadas.

Além disso, pesquisas da Consultoria Pluri/Outfield apontam que as mulheres costumam representar apenas cerca de 20% a 25% do público pagante médio nos jogos do Campeonato Brasileiro. A principal razão apontada pelas entrevistadas para a ausência nos jogos presenciais é a sensação de insegurança: 78% das brasileiras afirmam sentir medo de sofrer violência verbal, física ou assédio no trajeto ou nas dependências das arenas.

Mapeamento das capitais e agravamento dos dados

Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram a relação entre os boletins de ocorrência e os resultados de partidas da Série A do Campeonato Brasileiro, da Copa Libertadores da América e da Copa Sul-Americana entre 2023 e 2025. O estudo cobriu cinco capitais brasileiras: Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre.

O cenário atual indica uma piora em relação ao primeiro estudo do FBSP sobre o tema, publicado em 2022 com dados de 2015 a 2018. Naquela ocasião, as ameaças subiam 23,7% e as lesões corporais 20,8% em dias de jogo. No levantamento atual, esses índices subiram para 27,4% e 28,9%, representando uma elevação de 3,7 pontos percentuais nas ameaças e de 8,1 pontos percentuais nas agressões físicas.

Fator de risco e o engajamento dos clubes

Segundo os especialistas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o calendário de futebol precisa ser encarado pelas autoridades de segurança como um marcador temporal de risco para a integridade das mulheres.

Os dias de jogo são, hoje, fatores de risco comprovados para a violência doméstica contra mulheres. Mais do que um diagnóstico, esse conhecimento deve guiar o planejamento das forças de segurança — reforçando unidades especializadas como as Delegacias da Mulher e as patrulhas de fiscalização das Medidas Protetivas de Urgência — e engajar os clubes como aliados no enfrentamento ao problema”, avalia Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do FBSP.

O cenário ganha destaque especial em dias de alta rivalidade. A realização de grandes clássicos estaduais gera um apelo massivo de público e mobiliza esquemas reforçados de segurança pública, mas escancara a necessidade de políticas permanentes de acolhimento e proteção às torcedoras. A coordenadora ressalta ainda a responsabilidade social das agremiações esportivas e de suas torcidas para transformar essa realidade:

Em partidas de alta rivalidade, por exemplo, os times têm a oportunidade e a responsabilidade de se converterem em agentes de mudança, mobilizando seus atletas, suas torcidas e o poder de suas marcas para desvincular a paixão pelo futebol da violência contra a mulher“, conclui Juliana.

Medidas integradas para a segurança de mulheres nos estádios

Para especialistas em gestão esportiva e direitos das mulheres, Garantir que os clássicos do futebol brasileiro sejam um espaço democrático, inclusivo e seguro é fundamental para que o direito de torcer seja verdadeiramente de todos. Isso passa por medidas integradas, como:

  • Criação e divulgação de canais de denúncia em tempo real acoplados aos aplicativos dos clubes e arenas;

  • Capacitação de brigadistas e forças de segurança para o acolhimento imediato de vítimas de importunação sexual;

  • Campanha contínua de conscientização e combate ao machismo nas redes oficiais e nos telões durante os jogos;

  • Melhoria da infraestrutura dos estádios, incluindo iluminação no entorno e sanitários adequados.

O levantamento reforça que o combate à violência familiar exige vigilância constante e a atuação articulada do Poder Público, das instituições esportivas e de toda a sociedade.

Canais de Denúncia e Ajuda: Se você ou alguém que você conhece está em situação de violência doméstica, acione os canais de proteção:

  • Central de Atendimento à Mulher: Ligue 180 (serviço gratuito, confidencial e disponível 24 horas).

  • Emergência da Polícia Militar: Ligue 190 em caso de perigo imediato ou flagrante.

 

Canal Exclusivo do Portal Vida e Ação: Acompanhe nossas matérias e receba informações pelo nosso canal no WhatsApp.
Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *