O sofrimento psíquico na infância e na adolescência deixou de ser um sintoma invisível para se tornar uma emergência de saúde pública. Dados recentes desenham um cenário preocupante: no Brasil, registram-se em média 137 atendimentos diários de adolescentes de 10 a 19 anos por violência autoprovocada, autolesão e tentativas de suicídio — uma ocorrência a cada 10 minutos, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) com base no Sinan.

Anualmente, cerca de mil jovens perdem a vida por suicídio no país. Esse panorama é respaldado pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgada pelo IBGE: 18,5% dos estudantes de 13 a 17 anos relataram ter pensado que a vida não valia a pena ser vivida nos 30 dias anteriores à pesquisa, e 32% afirmaram ter sentido vontade de se machucar de forma proposital nos 12 meses antecedentes.

Em nível regional, dados publicados na The Lancet Regional Health – Americas apontam que o suicídio entre adolescentes e jovens de 10 a 24 anos cresceu 38% nas Américas entre 2000 e 2021, com aceleração expressiva na faixa de 10 a 14 anos. Os dados acendem um alerta neste Dia Nacional de Prevenção à Automutilação (17 de setembro), em pleno Setembro Amarelo.

O sofrimento sem palavras: mudança de padrão e sinais de alerta

Muitas vezes, a dor emocional em crianças e jovens não é expressa verbalmente. O sofrimento costuma se traduzir em alterações comportamentais que funcionam como pedidos velados de ajuda. Especialistas destacam que o aumento de autolesões, bullying e ideação suicida entre crianças e adolescentes exige escuta atenta, diagnóstico precoce e rede de proteção integrada.

Karina Mayumi Kawakami, psiquiatra infantil e chefe da Interconsulta do Sabará Hospital Infantil, e Mariana Ruske, pedagoga e especialista em Neurociência da Senses Montessori School, reforçam que o principal indicador é a ruptura de padrão — quando o jovem muda drasticamente seu modo habitual de agir.

  • Sinais comportamentais: Isolamento social, abandono de atividades prazerosas, queda repentina no rendimento escolar, esconder-se em locais isolados no intervalo (como banheiros ou bibliotecas) e dores físicas recorrentes sem causa clínica.

  • Sinais emocionais: Irritabilidade, reatividade e mau humor frequentes (que na adolescência muitas vezes mascaram a tristeza), além de sentimentos de desesperança e baixa autoimagem corporal.

  • Sinais diretos: Marcas de autolesão/automutilação, desinteresse pelo futuro e falas explícitas ou sutis sobre morte, desaparecimento ou falta de sentido para viver.

Ainda existe muito preconceito em torno da saúde mental. Muitas famílias acreditam que seja apenas uma ‘fase da adolescência’, quando na verdade podem representar sinais importantes de risco. Quanto mais cedo identificamos e iniciamos o cuidado, maiores são as chances de recuperação”, diz a Dra. Karina Mayumi Kawakami.

Leia mais

Automutilação não suicida é prática entre 18% dos universitários
Tragédia no Discord expõe vício digital e suicídio juvenil
Conectados e vulneráveis: vício em telas aumenta risco de suicídio

Bullying e violência escolar: fatores de pressão

O ambiente escolar desempenha papel central tanto no surgimento de vulnerabilidades quanto na identificação precoce. Segundo a PeNSE 2024, 27,2% dos estudantes relataram ter sofrido provocações ou humilhações frequentes de colegas (chegando a 30,1% entre as meninas).

Especialistas alertam que o bullying possui três fatores estruturantes: intencionalidade, repetição e desequilíbrio de poder. Por isso, a prática não deve ser tratada como um conflito pontual. Tentar mediar o conflito colocando vítima e agressor frente a frente pode agravar a situação. A abordagem correta envolve:

  1. Acolher a vítima: Ouvir sem julgamentos, não exigir desculpas públicas forçadas e não alterar a rotina da vítima como se ela fosse o problema.

  2. Responsabilizar e acompanhar quem agride: Investigar a origem do comportamento agressivo, que frequentemente também decorre de situações de sofrimento ou violência familiar.

  3. Mapear e registrar: Manter registros de datas e relatos para identificar a repetição da intimidação sistemática.

O que fazer diante do sofrimento emocional

A psicóloga Cristina Borsari, coordenadora do departamento de Psicologia do Sabará Hospital Infantil, e a especialista Mariana Ruske orientam como adultos devem agir ao se depararem com sinais de dor psíquica ou falas sobre morte:

  • Escute sem julgar: Evite frases como “isso é bobagem”, “é para chamar atenção” ou “vai passar”. Elas aumentam o sentimento de isolamento.

  • Permaneça presente: Ao ouvir um relato de sofrimento ou ideação suicida, não deixe o jovem sozinho, não mude de assunto e não prometa segredo sobre a situação.

  • Articule a rede de proteção: Acolha a criança ou adolescente, avise os responsáveis e encaminhe o caso para profissionais de saúde mental.

Onde buscar ajuda

Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil ou apresentando sinais de sofrimento emocional, procure ajuda imediatamente:

  • Atendimento médico de urgência: Procure o Pronto-Socorro mais próximo ou ligue para o SAMU (192).

  • Centro de Valorização da Vida (CVV): Apoio emocional e prevenção do suicídio gratuito, confidencial e disponível 24 horas por dia pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br.

  • Rede pública de saúde: Procure as Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou os Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) da sua região.

Com Assessorias

📲 Quer receber notícias atualizadas sobre segurança digital, saúde e bem-estar diretamente no seu celular? Entre no canal oficial do Portal Vida e Ação no WhatsApp e acompanhe todas as novidades
Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *