Alívio à vista para quem sofre de dor de cabeça crônica. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou esta semana o registro do Aquipta (atogepanto), novo medicamento indicado para a prevenção da enxaqueca em adultos que apresentam pelo menos quatro dias de crises por mês.

A decisão foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) por meio da Resolução RE nº 3.458/2026.  Desenvolvido pelo laboratório AbbVie, o fármaco é um antagonista oral seletivo do receptor do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), proteína diretamente envolvida na transmissão da dor e nos processos fisiopatológicos da doença.

A aprovação do novo fármaco ganha relevância diante do impacto global e nacional do distúrbio neurológico. Um relatório da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) revelou que quase metade da população das Américas — cerca de 470 milhões de pessoas — convive com pelo menos uma doença neurológica. O levantamento destaca a enxaqueca como uma das principais causas de incapacidade entre adolescentes e jovens adultos.

No Brasil, dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que cerca de 31 milhões de pessoas têm enxaqueca. Além disso, estima-se que outros 27 milhões convivam com a condição sem diagnóstico formal, segundo estudo realizado com o apoio da Associação Brasileira de Cefaleia em Salvas e Enxaqueca (Abraces).

Além do impacto na saúde mental e nas relações interpessoais, a perda de produtividade decorrente das crises gera um custo econômico equivalente a 1,6% do PIB nacional (aproximadamente R$ 168 bilhões).. A chegada do tratamento oral expande as opções para o manejo individualizado de uma das doenças neurológicas mais incapacitantes da atualidade.

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Enxaqueca pode aumentar em até 15 vezes o risco de AVC

Entre as pessoas diagnosticadas no país, as mulheres representam cerca de 75% dos casos. Essa maior vulnerabilidade está diretamente associada às oscilações do estrogênio, hormônio que influencia a percepção e a modulação da dor no cérebro. As variações hormonais ao longo do ciclo menstrual atuam como gatilhos frequentes, tornando as crises mais intensas e duradouras da adolescência até por volta dos 50 anos.

O cenário requer atenção especial no uso de métodos contraceptivos. De acordo com a neurologista Thais Villa, fundadora do Headache Center Brasil, a combinação de anticoncepcionais hormonais combinados (estrogênio e progesterona) com o quadro de enxaqueca pode aumentar em até 15 vezes o risco de Acidente Vascular Cerebral (AVC). Quando associada à enxaqueca com aura (alterações visuais prévias à dor) e ao tabagismo, essa combinação pode elevar o risco de AVC em até 30 vezes.

Abordagem integrada e cuidados com a automedicação

Embora a predisposição para a enxaqueca seja hereditária, marcada por um estado de hiperexcitabilidade cerebral, especialistas ressaltam que as crises podem ser controladas. O manejo moderno combina terapias farmacológicas de última geração — como o atogepanto — a um cuidado multidisciplinar (Tratamento 360º), envolvendo neurologistas, psicólogos e nutricionistas para atuar sobre fatores emocionais, alimentares e comportamentais.

Por outro lado, o uso frequente de analgésicos sem orientação médica e o consumo excessivo de cafeína são alertados pelos médicos como condutas prejudiciais. Embora ofereçam alívio temporário, essas práticas não tratam a causa subjacente e podem favorecer o agravamento e a cronificação do ciclo da dor.

Como age o novo medicamento

O perfil de segurança observado nos ensaios mostrou eventos adversos predominantemente leves a moderados, sendo náusea, constipação e fadiga os mais frequentes. O atogepanto já possui aprovação de outras agências regulatórias internacionais, como a Food and Drug Administration (FDA) e a European Medicines Agency (EMA).

Diferente de terapias preventivas convencionais que não atuam diretamente nos mecanismos específicos da condição, o atogepanto impede a ligação do CGRP ao seu receptor, oferecendo uma alternativa terapêutica direcionada para quem não obtém resposta suficiente com os tratamentos disponíveis.

A aprovação no Brasil teve como base os estudos clínicos internacionais de Fase 3 ADVANCE (enxaqueca episódica) e PROGRESS (enxaqueca crônica), que demonstraram redução significativa dos dias mensais de dor e ganho na capacidade funcional dos pacientes.

  • Estudo ADVANCE (Enxaqueca Episódica): Avaliou 910 participantes. O uso diário de 60 mg do medicamento reduziu, em média, 4,1 dias mensais de enxaqueca (contra 2,5 dias no grupo placebo). Cerca de 59% dos pacientes tiveram redução de pelo menos 50% na frequência das crises.

  • Estudo PROGRESS (Enxaqueca Crônica): Acompanhou 778 adultos por 12 semanas. A dosagem diária de 60 mg promoveu uma redução média de 6,9 dias mensais de enxaqueca (frente a 5,1 dias no placebo), com ganho na capacidade funcional e qualidade de vida.

Outros medicamentos e vacinas aprovados esta semana

A Anvisa aprovou um conjunto de medidas regulatórias de alto impacto para a saúde pública no Brasil. Além do registro do novo medicamento para enxaqueca em adultos, a agência autorizou dois novos genéricos inéditos para medicamentos injetáveis contra a obesidade e diabetes, ampliou o público-alvo de uma vacina essencial na infância e novos recursos terapêuticos voltados à oncologia.

Novas frentes no tratamento e suporte oncológico

As resoluções mais recentes da agência também trouxeram avanços expressivos para o cuidado de pacientes oncológicos:

  • Câncer de mama triplo-negativo (CMTN): O medicamento Trodelvy (sacituzumabe govitecana) recebeu novas indicações para o tratamento de primeira linha em quadros avançados ou metastáticos. As diretrizes contemplam o uso associado ao imunoterápico pembrolizumabe (para tumores com expressão de PD-L1) e o uso em monoterapia (para pacientes que não podem receber inibidores de PD-1 ou PD-L1). O fármaco é um conjugado anticorpo-medicamento (ADC) direcionado à proteína Trop-2 nas células tumorais.

  • Redução de toxicidade em quimioterapia: Foi registrado o Voraxaze (glucarpidase), voltado a adultos e crianças com mais de 28 dias de vida. A enzima clava o metotrexato no sangue por uma via alternativa aos rins, reduzindo rapidamente as concentrações tóxicas do quimioterápico em casos de insuficiência renal ou eliminação retardada.

Vacina contra a meningite protege bebês a partir de 6 semanas

Em decisão voltada à imunização, a Anvisa ampliou a indicação da vacina conjugada MenQuadfi para bebês a partir de seis semanas de vida. O imunizante oferece proteção contra os sorogrupos A, C, W e Y da bactéria Neisseria meningitidis, causadora da doença meningocócica invasiva.

A medida garante proteção precoce em uma das faixas etárias mais suscetíveis às complicações severas da infecção, que apresenta rápida evolução e risco de sequelas permanentes. Os dados clínicos analisados pela agência comprovaram um perfil de segurança consistente em milhares de lactentes.

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Com informações da Agência Brasil e Assessorias

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