Após quase duas décadas de declínio contínuo, a proporção de fumantes adultos no Brasil subiu de 9,2% em 2023 para 11,7% em 2024. O dado reacende o sinal vermelho e impulsiona a busca por livrar-se do vício. Em 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) realizou 2,1 milhões de atendimentos em todo o Brasil para cessação do tabagismo, mais do que o dobro dos pouco mais de 1 milhão registrados em 2022. Em 2015, apenas 351 mil buscaram ajuda no SUS.
No Rio de Janeiro, somente nas 76 unidades de Atenção Primária geridas pela organização social Viva Rio — englobando Clínicas da Família e Centros Municipais de Saúde (CMS) —, a procura por ajuda para interromper o hábito de fumar cresceu 58% quando comparados os 7 primeiros meses de cada ano. Foram 1.062 pessoas atendidas entre janeiro e julho de 2026, superando o total de 460 pacientes registrados ao longo de todo o ano de 2025.
Para além das estatísticas, o impacto real da rede de apoio do SUS ganha contornos humanos nos relatos de quem vivencia diariamente os desafios da superação do tabagismo. Por trás desses números há histórias reais e emocionantes. Conheça algumas delas;
“Como se eu estivesse aprendendo a respirar agora”

Aos 51 anos, Martha de Almeida conta que o primeiro contato com o cigarro ocorreu aos 13, em matinês de boates, em uma época em que o hábito era glamourizado e permitido em locais fechados, como restaurantes e salas de aula.
Como sou bipolar, mais tarde também tive algumas internações psiquiátricas, o que fez com que o vício ficasse mais forte. Sempre tentei parar, conseguia por pouco tempo, mas sempre voltava e rapidamente”, relembra.
Depois de enfrentar uma recaída, a paciente decidiu que era hora de virar a página e reescrever sua história. Em julho deste ano, ela procurou a Unidade de Atenção Primária na Tijuca para ingressar no grupo de controle do tabagismo.
Com o suporte de uma equipe multidisciplinar, estabeleceu uma data de corte. Apoiada por adesivos de nicotina no início e, acima de tudo, pelas estratégias de mudança comportamental, ela conquistou a tão sonhada liberdade de deixar o cigarro após quase quatro décadas e hoje integra o grupo de manutenção.
Está sendo uma luta, mas uma luta que está dando para enfrentar. Com apoio, se tornou algo possível. É muito necessário ter um grupo de amplo espectro de profissionais e respeitar o próprio tempo, porque é muito difícil parar imediatamente”, relata.
“O convívio com outras pessoas dá mais força”

A história de Fabio Teixeira, de 43 anos, reforça como o tabagismo costuma atravessar gerações. Ele começou a fumar aos 15 anos motivado pelo exemplo familiar, onde mãe, avó, tios e amigos eram dependentes da substância — e muitos acabaram falecendo em decorrência de complicações do vício.
Já tinha tentado parar outras vezes, mas sozinho, sem nenhuma ajuda. Agora estou há três semanas sem fumar. Está sendo muito difícil, mas a minha vontade de parar é maior, então tenho me mantido firme”, relata Fabio, que faz uso dos adesivos de nicotina fornecidos na unidade.
As orientações compartilhadas no grupo têm sido fundamentais na batalha diária de Martha e Fábio para enfrentar os momentos de abstinência, destacando as conversas sobre mudança de comportamento e, principalmente, o acolhimento e o apoio psicológico. O esforço tem valido a pena e aos poucos Martha tem conseguido se manter firme no propósito de deixar o velho hábito.
Na última semana, comecei a fumar só um cigarro por dia pela manhã e passei a utilizar a goma de mascar de nicotina apenas para tirar a vontade desse cigarro matinal. Deixar de fumar é como se libertar de uma escravidão, é como se eu estivesse aprendendo a respirar agora”.
Há quase dois meses no processo de cessação, Martha destaca que o acompanhamento profissional transformou a percepção sobre a própria capacidade de superação. “Me sinto vitoriosa por ter conseguido parar de fumar e, mais do que deixar o cigarro, descobri que é possível atravessar as dificuldades, acreditar em mim mesma e construir uma nova rotina com mais liberdade e qualidade de vida.”
Fábio faz coro com Martha ao enaltecer o trabalho coletivo. “Estar no grupo faz toda a diferença, porque o convívio com outras pessoas que estão passando pelo mesmo processo dá mais força. Ao deixar o cigarro, me sinto aliviado.”
Como funciona o acompanhamento na rede pública

O tratamento vai muito além do uso de insumos farmacológicos. O objetivo do grupo é oferecer meios para que as pessoas fumantes superem os três aspectos da dependência do cigarro ou de outros dispositivos para fumar: química, comportamental e psicológica, como explica a farmacêutica do CMS Hélio Pellegrino, localizado na Tijuca, Jane Maria de Carvalho.
Para a primeira, são oferecidos medicamentos à base de nicotina e outros componentes; já para as duas outras, são oferecidos exercícios com ajuda de um time multidisciplinar com psicólogo, educador físico, médico, enfermeiro, dentista, farmacêutico e agente comunitário de saúde. A pessoa vai reaprender a viver sem o cigarro e ter um acompanhamento de perto por um ano para não ter recaída.”

O cronograma do programa é estruturado para dar suporte nos momentos mais críticos da abstinência e garantir a manutenção do hábito saudável no longo prazo:
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1º mês: Encontros semanais de orientação, apoio e avaliação.
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2º mês: Reuniões de acompanhamento realizadas quinzenalmente.
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3º ao 12º mês: Encontros mensais focados na manutenção do tratamento e prevenção de recaídas. Ao completar um ano, o paciente recebe alta como ex-fumante.
Serviço: Onde buscar ajuda na Tijuca

No Centro Municipal de Saúde Hélio Pellegrino, na Tijuca, zona norte do Rio, novas turmas com cerca de 10 participantes começam toda primeira segunda-feira do mês. Os moradores da região interessados em ingressar no grupo de tabagismo precisam passar por uma consulta prévia de avaliação clínica.
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Endereço: Rua do Matoso 96 – Tijuca, Rio de Janeiro (RJ)
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Horário de atendimento: Segunda a sexta-feira, das 7h às 20h; sábados, das 7h às 12h.
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Como agendar: Basta comparecer diretamente à unidade com documento de identificação.
Com informações do Ministério da Saúde e da ong Viva Rio




