Para quem convive com dores incapacitantes todos os meses, o período menstrual é sinônimo de isolamento, incompreensão e uma busca exaustiva por respostas. Rompendo com anos de invisibilidade, o Ministério da Saúde e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) anunciaram o maior investimento da história do país voltado à saúde menstrual, dor pélvica e endometriose no Sistema Único de Saúde (SUS). O aporte de R$ 60 milhões será destinado a colocar a ciência a serviço do cuidado, financiando pesquisas e criando uma rede nacional para transformar o acolhimento a meninas e mulheres na rede pública.
Do montante total divulgado, R$ 50 milhões serão viabilizados pelo governo federal por meio de uma chamada pública do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Para garantir que o conhecimento saia dos laboratórios e mude a realidade dos consultórios, o Instituto Alana aplicará mais R$ 10 milhões na estruturação dessa rede, oferecendo infraestrutura compartilhada e estimulando a participação ativa das próprias pacientes e da sociedade civil no processo científico.
O anúncio oficial foi realizado nesta terça-feira (9), em Brasília (DF), com a participação da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e da primeira-dama, Janja Lula da Silva. Segundo o ministro Padilha, os novos estudos vão fortalecer as ações do programa Agora Tem Especialistas, que no ano passado estabeleceu o primeiro protocolo clínico da história do SUS para a doença.
Temos o compromisso de construir uma política pública robusta no SUS para enfrentar essa questão da forma como ela precisa ser enfrentada”, afirmou o ministro, destacando que estados que já adotaram o protocolo integrado conseguiram dobrar o número de atendimentos e diagnósticos.
Ciência a favor do acolhimento e do diagnóstico rápido
A chamada pública promovida pelo conselho nacional de pesquisa será dividida em cinco eixos estratégicos para desatar os nós que hoje atrasam o tratamento:
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Causa e prevenção;
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Diagnóstico;
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Tratamento;
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Biorrepositório (reservatório de materiais biológicos para estudos específicos);
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Impacto social.
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A endometriose é uma doença crônica e silenciosa que afeta cerca de uma em cada dez brasileiras em idade reprodutiva — um universo que já soma 8 milhões de mulheres, incluindo 2 milhões de adolescentes. O maior obstáculo para essas pacientes é o tempo: em média, leva-se sete longos anos entre os primeiros sintomas e a confirmação do diagnóstico, um período marcado por sofrimento físico e desgaste emocional.
Grande parte desse atraso vem da naturalização de que “sentir dor é normal”. Dados inéditos do Instituto Alana e do Instituto Equidade.info revelam as marcas profundas dessa negligência desde os primeiros anos de vida:
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Nas escolas: Seis em cada dez estudantes dos ensinos fundamental e médio que menstruam relatam sofrer com cólicas fortes ou moderadas. O impacto vai muito além do mal-estar físico: quatro em cada dez alunas faltam às aulas todos os meses por causa dessas dores, prejudicando o desempenho escolar.
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No trabalho: Na vida adulta, a falta de suporte e o diagnóstico tardio fazem com que mulheres percam, em média, até 10,8 horas de trabalho por semana devido às crises, afetando diretamente a carreira, a renda e a saúde mental.
A dor invisível nos prontuários médicos
O desafio de humanizar o atendimento também passa por mudar a forma como o sistema de saúde escuta as mulheres. Uma pesquisa realizada pela Vital Strategies Brasil em parceria com o Laboratório FrameNet Brasil da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) analisou 469 mil prontuários de atendimento no Recife (PE).
Os dados mostraram que apenas 0,5% das pacientes tinham o registro formal de dor pélvica ou menstrual nos sistemas de dados. Porém, ao ler os relatos escritos à mão pelos profissionais de saúde sobre o que as pacientes de fato sentiam, os pesquisadores descobriram que mais de 41 mil mulheres haviam se queixado dessas dores — o que representa 9% de toda a base analisada.
Essa disparidade prova que a dor das mulheres tem sido desvalorizada até mesmo nos registros oficiais. Com o novo investimento e a criação da rede nacional de pesquisa, o objetivo é garantir que cada relato seja ouvido com empatia e que o SUS esteja pronto para oferecer um diagnóstico ágil, tratamento humanizado e qualidade de vida desde as primeiras gerações.
Agenda Positiva
“Você sente essa dor?”: Campanha quebra o silêncio sobre a endometriose
Junto ao anúncio do aporte histórico no SUS, a mobilização para tirar a endometriose da invisibilidade ganha as telas e as ruas de todo o país. O Instituto Alana lançou a campanha nacional “Você sente essa dor?”. Apresentada oficialmente em Brasília durante o Alana Ideia Fest (AIF), a iniciativa multiplataforma une a força da poesia urbana, ativismo digital e grandes veículos de comunicação para transformar o sofrimento silencioso de 8 milhões de brasileiras em um clamor por respeito e diagnóstico rápido.
Assinada pela agência Propeg, a campanha adota a estética do slam (batalha de poesia falada) para dialogar diretamente com o público jovem, o mais afetado pelas barreiras da desinformação. O objetivo principal é combater o preconceito histórico que cerca a saúde menstrual e os direitos reprodutivos das mulheres.
Como elemento central de mobilização nas redes sociais, a campanha criou um gesto proprietário: uma das mãos fechada na altura do útero e a outra sobre o coração. A ideia é que o símbolo seja uma marca visual de identificação e apoio mútuo, permitindo que meninas e mulheres sinalizem que compartilham ou apoiam a dor e a luta contra a doença.
Para dar suporte e acolhimento contínuo às pacientes, a campanha estruturou o canal digital endometricas.com, onde mulheres e pessoas que menstruam podem compartilhar relatos reais e anônimos sobre como a endometriose impacta suas trajetórias escolares, profissionais e afetivas. A proposta é transformar esses depoimentos em uma base colaborativa de dados vivos, evidenciando as lacunas do sistema de saúde sob a ótica de quem vivencia o problema na pele.
Assista ao vídeo da campanha no YouTube:
O filme oficial que abre a mobilização e traz a potência do slam nacional já está disponível. Clique aqui para assistir ao manifesto em vídeo no YouTube.
Dor crônica terá tratamento integral pelo SUS
De acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor, dor crônica é aquela com duração maior que 30 dias. Estima-se que a dor crônica afete cerca de 60 milhões de brasileiros. Agora no Brasil essa condição – que pode mascarar doenças graves – recebe um tratamento mais especial na rede pública de saúde.
Uma lei publicada nesta segunda-feira (8) define diretrizes básicas para a melhoria do atendimento de saúde a pessoas que convivem com a dor, assegurando atendimento integral no Sistema Único de Saúde (SUS) e prevê orientações prévias sobre riscos e possíveis efeitos adversos dos tratamentos.
Ao reconhecer a dimensão do problema, a lei pretende fortalecer políticas públicas voltadas ao diagnóstico, tratamento e acompanhamento desses pacientes.A iniciativa busca ampliar o acesso a informações qualificadas sobre opções terapêuticas disponíveis no SUS, combater o preconceito e estimular gestores de saúde a adotarem abordagens multiprofissionais humanizadas e eficazes.
O texto também institui 5 de julho como o Dia Nacional de Conscientização e Enfrentamento da Dor Crônica.
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Com informações do Ministério da Saúde, Agência Brasil e Alana







