O consumo de cannabis está cada vez mais presente na realidade brasileira. De acordo com o estudo “O Mercado de Cannabis no Brasil”, realizado pela consultoria Hibou no primeiro trimestre de 2025, cerca de 26,4% dos brasileiros — o equivalente a um em cada quatro — já utilizou a substância em algum momento da vida.

O dado reflete uma mudança gradual no comportamento da população, que começa a tratar o tema sob a ótica da saúde e do interesse público, embora o país ainda se mostre dividido entre o acesso à informação e o estigma em relação ao uso da substância.

O mês de abril carrega uma simbologia global para o movimento antiproibicionista, tendo o dia 20 (4/20) como o Dia da Maconha. No Brasil, a data serve como um importante gancho para a análise de dados que ajudam a desmistificar o consumo e o mercado da planta.

Preconceito é fruto do desconhecimento

O dado mais alarmante não é o consumo em si, mas o abismo de informação: 53,2% dos entrevistados admitem que o preconceito é fruto direto da falta de conhecimento sobre seus benefícios e riscos.

De acordo com os dados, a percepção sobre a cannabis no Brasil está a aproximar-se de substâncias culturalmente aceites: 85,6% dos entrevistados consideram-na uma droga, um índice estatisticamente próximo ao do álcool (85,2%) e do tabaco (82,4%).

No entanto, a forma como a sociedade lida com o utilizador está a evoluir. Para 59,2% da população, a imagem de quem consome cannabis depende inteiramente do contexto, afastando-se de estereótipos fixos do passado.

Para o médico e pesquisador Wellington Briques, um dos especialistas ouvidos sobre o tema, a barreira cultural impede avanços na saúde. “Ainda tratamos como ‘droga’ o que a ciência já comprovou ser uma ferramenta terapêutica de alta performance para patologias onde a medicina convencional falha”, pontua.

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As barreiras do preconceito e o papel da educação

A pesquisa identifica que a desinformação é o maior obstáculo para um debate racional. Mais de metade dos brasileiros (53,2%) acredita que o estigma contra a planta deriva da falta de conhecimento sobre os seus efeitos e utilizações terapêuticas. Outros fatores apontados como pilares do preconceito incluem:

  • Proibição legal: 36,5%

  • Abordagem mediática: 33,6%

  • Influência familiar: 31,8%

Apesar das reservas, existe um consenso crescente sobre a regulação. Cerca de 64,7% dos entrevistados defendem que o consumo deve ser tratado como uma questão de saúde e segurança pública, e não apenas como um caso de polícia.

No campo medicinal, o apoio é ainda mais expressivo, alinhando-se com tendências de outros estudos, como os do DataSenado, que mostram que a vasta maioria dos brasileiros é favorável ao uso da cannabis para fins terapêuticos.

Perfil de consumo e saúde pública

Entre os brasileiros que já experimentaram a cannabis, a curiosidade (63%) e a influência de amigos (37,5%) surgem como as principais motivações iniciais. No entanto, o uso para relaxamento (24,3%) e para lidar com quadros de ansiedade ou depressão (7,4%) destaca a intersecção entre o uso recreativo e a busca por bem-estar.

Este cenário reforça a necessidade de políticas públicas baseadas em evidências. A transição de um modelo meramente proibicionista para um focado na redução de danos e na educação é vista por especialistas como o caminho para mitigar os medos da sociedade — como o acesso de menores (temido por 64,7%) e falhas na fiscalização (43,7%).

Ao analisar a relação entre o ser humano e as substâncias naturais, torna-se essencial considerar como o equilíbrio ambiental e a saúde animal também podem ser impactados pela regulamentação do cultivo e pela pesquisa científica, integrando soluções que beneficiem o coletivo de forma sistémica.

Uso medicinal da cannabis no Brasil

Este vídeo apresenta um panorama detalhado sobre a regulação e os desafios da cannabis medicinal no contexto das políticas públicas de saúde no Brasil.

A economia e o potencial de mercado segundo a Kaya Mind

A análise da Kaya Mind, consultoria especializada em dados do setor, complementa o cenário ao mostrar o potencial econômico e social da regulação. De acordo com a empresa, a regulamentação do uso adulto e medicinal poderia injetar bilhões na economia brasileira, além de gerar milhares de empregos formais.

O levantamento da Kaya Mind destaca que o interesse por produtos à base de CBD (canabidiol) cresceu exponencialmente, mas o preço elevado — decorrente da dependência de importações e da complexidade regulatória — ainda restringe o acesso às classes mais altas, criando um hiato de saúde pública.

Desmistificando o perfil do consumidor

Ao contrário do estereótipo comum, os dados da Hibou revelam que o brasileiro está mudando sua percepção:

  • Equivalência cultural: Para 85,6% dos brasileiros, a cannabis é vista como droga de forma similar ao álcool (85,2%), indicando que o foco da discussão está migrando para a redução de danos.

  • Saúde em primeiro lugar: 64,7% da população acredita que o tema deve ser tratado sob a ótica da saúde pública e segurança, e não como repressão policial.

  • Motivações reais: Embora a curiosidade (63%) seja a porta de entrada, o uso contínuo é motivado por relaxamento (24,3%) e alívio de sintomas de ansiedade e depressão.

Próximos passos e regulação

Apesar do apoio de 64,7% à regulação medicinal, medos como o uso por menores e a falta de fiscalização estatal ainda travam o avanço legislativo. O caminho aponta para a necessidade de mais pesquisas científicas nacionais e uma comunicação clara que desfaça mitos históricos.

A discussão sobre a cannabis não se limita ao consultório médico. Ela se encaixa perfeitamente no conceito de Saúde Única (One Health), pilar editorial do VIDA E AÇÃO. A produção sustentável da planta, o impacto ambiental do cultivo orgânico versus o mercado ilegal e a segurança do uso veterinário de canabinoides demonstram como a saúde humana, animal e ambiental estão intrinsecamente conectadas neste debate.

Não podemos falar em saúde humana sem considerar o impacto da proibição nas comunidades e no meio ambiente, alinhado à necessidade de políticas que integrem essas frentes.

Para saber mais sobre as normas atuais, você pode consultar as atualizações da Anvisa sobre produtos de Cannabis.

Referências:

  1. Pesquisa Hibou 2025 – Percepção do Mercado de Cannabis

  2. Relatórios de Mercado Kaya Mind

  3. Guia da Anvisa para uso de Canabinoides

 

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