Seja ao tomar o café da manhã em um copo descartável, aquecer o almoço em um pote plástico no micro-ondas ou simplesmente ao respirar, você provavelmente já entrou em contato com microplásticos hoje. Definidos como partículas menores que 5 mm oriundas da fragmentação de resíduos maiores, esses poluentes deixaram de ser apenas um drama ecológico dos oceanos para se transformarem em uma crise urgente de saúde pública.
Celebrado em 4 de junho — em plena Semana Mundial do Meio Ambiente —, o Dia Mundial da Fertilidade acende um alerta inédito: cientistas do mundo todo começam a ligar a poluição invisível à queda global nas taxas de reprodução humana. O tema ganhou os holofotes culturais recentemente com o documentário The Plastic Detox (Netflix), no qual a epidemiologista Shanna Swan acompanha seis casais inféreis que, ao reduzirem drasticamente o uso de plásticos por três meses, conseguem alcançar três gestações bem-sucedidas.
O caminho do plástico: do ambiente ao sêmen e óvulos
O Brasil descarta anualmente cerca de 1,3 milhão de toneladas de plástico no mar, segundo dados da Oceana Brasil. “No mar, as correntes marítimas e os giros oceânicos redistribuem essas partículas globalmente, atingindo até as fossas abissais”, explica Anderson Benedetti, biólogo e professor da Uninter.
Além da contaminação da água e da cadeia alimentar, microfibras sintéticas de roupas e fragmentos de pneus são suspensos pelo vento, misturando-se ao ar das grandes cidades e sendo facilmente inalados.
Uma vez dentro do organismo por ingestão ou inalação, essas partículas migram para o sangue e se alojam em órgãos vitais como pulmões e cérebro. Contudo, as descobertas mais recentes e assustadoras apontam que o plástico violou a barreira do sistema reprodutor:
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Placentas colonizadas: Um estudo liderada pela Universidade do Novo México (EUA) encontrou fragmentos de microplásticos em todas as placentas analisadas, sugerindo que o útero materno está exposto de forma crônica a esses poluentes.
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Invasão dos gametas: Em um avanço científico publicado pela Universidade de Utrecht (Holanda), pesquisadores identificaram microplásticos — especificamente polietileno (PE), polipropileno (PP) e poliuretano (PU), matérias-primas de embalagens do dia a dia — diretamente dentro de óvulos e espermatozoides humanos.
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Contaminação seminal e urinária: Pesquisas lideradas pela Universidade de Nanjing (China) detectaram a presença de múltiplos tipos de plásticos no sêmen e na urina de voluntários.
O perigo por trás da queda da fertilidade masculina
A infertilidade é uma realidade para 10% a 15% dos casais em idade reprodutiva no Brasil. Segundo a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), cerca de 8 milhões de brasileiros enfrentam dificuldades para conceber. Globalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que 1 em cada 6 pessoas é afetada pelo problema.
Historicamente, as causas são divididas igualmente: 40% de origem feminina, 40% masculina e 20% de ambos os parceiros. No entanto, o declínio severo na qualidade do sêmen nas últimas décadas intriga a medicina. O Dr. João Guilherme Grassi, especialista em reprodução humana, aponta que a contagem média de espermatozoides despencou de 335,7 milhões em 1973 para 126,6 milhões em 2018.
Os microplásticos aparecem como fortes suspeitos desse cenário. “Já conseguimos identificar microplásticos em fluidos corporais como o sêmen, e isso levanta preocupações legítimas. Estudos sugerem que eles podem atuar como desreguladores endócrinos, interferindo na produção hormonal, na formação dos espermatozoides e até na integridade do DNA”, detalha o urologista João Paladino, da Nilo Frantz Medicina Reprodutiva.
A relação dose-resposta
A pesquisa realizada na China com 113 voluntários revelou que quanto maior a variedade de plásticos encontrados no sêmen, piores os parâmetros de análise. Participantes expostos a seis ou mais tipos de polímeros (como PET, PVC e Poliestireno) apresentaram uma redução drástica na contagem total e na motilidade progressiva dos espermatozoides.
Uma baixa concentração de espermatozoides no sêmen, condição conhecida como oligospermia, impacta severamente nas chances de gravidez, uma vez que dificulta a fertilização natural do óvulo”, complementa Fernando Prado, especialista em Reprodução Humana e diretor clínico da Neo Vita. Como o polietileno (PE) é o plástico mais produzido do mundo, ele acabou se tornando o mais prevalente nos tecidos testiculares.
O que acontece dentro das células?
A ginecologista Graziela Canheo, especialista em Reprodução Humana da La Vita Clinic, explica como partículas tão minúsculas conseguem driblar as defesas biológicas:
Os microplásticos são capazes de entrar nas nossas células através do transporte de nutrientes e água. Uma vez lá dentro, a célula reconhece a partícula como um agressor e gera um processo inflamatório significativo. Ela tenta digerir o plástico ou, em último caso, entra em morte programada (apoptose). Esse mecanismo de defesa compromete a função celular e impacta diretamente a fertilidade.”
Apesar do forte sinal de alerta emitido por estudos em animais — como uma pesquisa publicada no American Journal of Men’s Health e outra na Toxicological Sciences que confirmaram a redução de espermatozoides em ratos e cães expostos aos poluentes —, a comunidade médica pondera que ainda são necessários mais estudos epidemiológicos em larga escala para quantificar o real impacto direto em humanos vivos.
Ainda não é possível afirmar de forma definitiva que os microplásticos sejam uma causa direta e isolada de infertilidade”, ressalta a nutricionista e professora da Uninter, Cássia Bertocco. Ela lembra que o problema é multifatorial, frequentemente associado ao estresse, obesidade, tabagismo e dietas ricas em ultraprocessados, que naturalmente aumentam a exposição a embalagens químicas.
Guia prático: como reduzir a exposição no cotidiano
Embora seja impossível viver em um mundo “zero plástico” na atualidade, pequenos hábitos cotidianos diminuem significativamente a carga de poluentes que entra no corpo. Com base nas recomendações do químico Marco Aurélio (Uninter) e dos médicos especialistas, a regra de ouro consiste em evitar três situações: plástico em contato com calor, plástico sofrendo atrito e descartáveis de uso único.
| Área do cotidiano | O que evitar | O que preferir |
| Alimentação | Aquecer potes plásticos no micro-ondas e usar copos descartáveis para bebidas quentes. | Recipientes e utensílios de vidro, aço inox ou cerâmica. |
| Consumo de água | Beber água armazenada em garrafas PET expostas ao sol ou calor. | Uso de filtros domésticos de carvão ativado de alta densidade ou purificadores por osmose reversa. |
| Vestuário | Roupas feitas de tecidos sintéticos como nylon, poliéster e acrílico (que soltam microfibras na lavagem). | Peças feitas de fibras naturais como algodão, linho, lã ou viscose de boa qualidade. |
Evitar completamente é impossível, mas reduzir a exposição já traz benefícios reais, especialmente para quem planeja engravidar ou está em tratamento de reprodução assistida”, conclui a Dra. Graziela Canheo.
Saúde Única: protegendo as futuras gerações
À medida que a ciência avança, o conceito de One Health (Saúde Única) se mostra mais vital do que nunca: a saúde dos seres humanos está intrinsecamente conectada à saúde dos animais e ao equilíbrio do meio ambiente. O descarte irresponsável que polui os ecossistemas retorna diretamente para os nossos organismos.
Diante de um cenário onde a saúde humana, animal e ambiental se mostram indissociáveis, mitigar a poluição por microplásticos deixa de ser apenas uma meta de conservação da natureza e passa a ser uma estratégia de sobrevivência e perpetuação da nossa própria espécie.
Mais do que mudanças individuais, os especialistas são unânimes: a proteção da fertilidade humana e do ecossistema global exigirá políticas públicas severas de descarte, reciclagem e redução na produção industrial de compostos sintéticos.
Com Assessorias




