Introduzido no Brasil por Charles Miller em 1894, o futebol rapidamente conquistou os brasileiros e se consolidou como uma das maiores paixões nacionais. Neste domingo (19 de julho) o Brasil celebra o Dia Nacional do Futebol, que homenageia o Sport Club Rio Grande, fundado em 19 de julho de 1900 e reconhecido como o clube em atividade mais antigo do país. Este ano, a data coincide com a final da Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos.
Durante competições de grande magnitude, como a Copa do Mundo, o impacto no cérebro dos torcedores vai muito além do entretenimento passageiro ou da simples recordação de resultados. De acordo com Wyllians Borelli, neurologista e pesquisador do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS), eventos esportivos globais atuam como poderosos catalisadores neurocognitivos.
O futebol ativa vias emocionais, de recompensa e de identidade social que beneficiam desde a formação de memórias permanentes até o apoio no tratamento de pacientes com quadros neurodegenerativos, como a doença de Alzheimer. Com base em evidências recentes de neuroimagem e psicologia cognitiva, a literatura científica demonstra que a alta intensidade emocional e o senso de antecipação gerados por grandes jogos ativam a amígdala cerebral, que, por sua vez, modula o hipocampo, a área da memória.
O cérebro do torcedor trabalha de forma fascinante durante um grande evento esportivo. Quando ficamos ansiosos por um jogo importante e vivenciamos um desfecho positivo, há uma intensa liberação de dopamina e uma forte ativação do hipocampo, o centro de processamento de informações do cérebro. Esse processo cria memórias associadas a emoções – recordações tão vívidas que, décadas depois, ainda sabemos exatamente o contexto, os cheiros e as companhias ao nosso redor durante um gol decisivo ou uma vitória importante para o nosso time”, explica o Dr. Borelli.
Além disso, o cérebro de um torcedor não é um processador passivo. Estímulos visuais de vitórias e gols ativam intensamente o giro do cíngulo (parte do cérebro responsável pela regulação emocional e o processamento cognitivo) e a área tegmental ventral, relacionada ao circuito de recompensa, prazer e motivação. No fim, o processo de torcer acaba sendo benéfico para os circuitos cerebrais. Curiosamente, para preservar a identidade emocional e o bem-estar da pessoa, o cérebro também tende a suprimir conteúdos negativos dessas lembranças ao longo do tempo.
Do ponto de vista social e preventivo, o engajamento em eventos como a Copa do Mundo também contribuem para a nossa reserva cognitiva – a “poupança cerebral”. O debate constante sobre táticas, escalações e o histórico das seleções, aliado ao pertencimento a uma comunidade, consolida as memórias individuais. O envolvimento intelectual e as interações sociais geradas por esse fenômeno são pilares comprovados cientificamente na construção da reserva cognitiva ao longo da vida. Graças à reserva cognitiva, temos mais recursos neurais e neuroproteção, ajudando a proteger o cérebro contra o declínio natural da idade.
Contudo, um dos desdobramentos mais fascinantes dessa paixão mundial encontra-se na prática clínica. “Como o interesse pelo futebol geralmente se consolida na juventude, essas memórias tornam-se profundamente enraizadas e resistentes à degradação observada em casos de demência. A utilização de vídeos ou áudios de partidas históricas atua como uma chave na Terapia de Reminiscência, reativando redes neurais adormecidas em pacientes com Alzheimer. O resultado é a melhora momentânea da fluência verbal e uma redução da apatia e do isolamento social”, aponta o pesquisador.
Incentivo ao turismo esportivo
Mais do que um esporte, o futebol faz parte da identidade cultural brasileira e também impulsiona o turismo. Pesquisa da Booking.com, divulgada em junho, aponta que 47% dos brasileiros viajariam para acompanhar partidas dentro ou fora do país, enquanto 27% comprariam imediatamente ingressos caso seu time disputasse um jogo em outro estado ou país. Atualmente, ainda de acordo com a pesquisa, cerca de 88% dos viajantes do país se declaram fãs do esporte.
No estado de São Paulo, a paixão pelo esporte se traduz em um roteiro de turismo esportivo que reúne estádios históricos, museus e experiências que atraem torcedores e visitantes de diferentes regiões. O turismo esportivo tem impacto direto na economia paulista. As visitas guiadas e experiências oferecidas pelos clubes atraem mais de 200 mil pessoas por ano, movimentando hotéis, restaurantes, comércio e serviços, especialmente nos dias de jogos e eventos.
A Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (Setur-SP) estruturou esse potencial na chamada Rota do Futebol SP, iniciativa lançada oficialmente em dezembro de 2024. A rota ainda ganhou projeção internacional em janeiro de 2026, ao ser apresentada ao mercado europeu na Fitur Madrid, na Espanha. O visitante pode fazer um roteiro que reúne mais de 50 atrações distribuídas pela capital, litoral e interior paulista.
Entre os atrativos estão as visitas a templos sagrados do futebol, como Morumbis, Neo Química Arena, Nubank Parque e Vila Belmiro, além de estádios históricos, como o Pacaembu, o Canindé e a tradicional Rua Javari.Programas parceiros, como o Vai de Roteiro, também ampliam o acesso da população ao patrimônio esportivo paulista com passeios guiados e ingressos a preços promocionais.
As experiências vão além. O turista também pode conhecer o Museu do Futebol, no complexo do Pacaembu, ao Museu Pelé, em Santos, e aos memoriais dos principais clubes paulistas, permitindo ao visitante conhecer troféus, vestiários, bastidores e momentos que marcaram a história do esporte. Também fazem parte do circuito lojas temáticas, bares tradicionais e outros espaços que preservam a cultura das torcidas.




