O mundial de futebol sempre movimenta torcedores e marcas patrocinadoras e, mais recentemente, um mercado que cresce no Brasil, o das apostas esportivas. Pesquisa realizada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Datafolha, indica que 17% da população brasileira fez apostas online, em 2025. Além disso, as plataformas online (bets) são a principal causa das dívidas das famílias brasileiras, segundo estudo do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo) e da FIA Business School.  

Com partidas em sequência, forte engajamento emocional e publicidade constante das plataformas de apostas, especialistas alertam que grandes eventos esportivos podem funcionar como gatilhos para o desenvolvimento ou agravamento do transtorno do jogo. Segundo o médico psiquiatra Thiago Rodrigues, docente do curso de Medicina da Faculdade Santa Marcelina, e especialista em transtorno de jogos, o campeonato reúne diversos fatores de risco para pessoas que já enfrentam dificuldades em controlar o hábito de apostar.

Para quem já apresenta dependência ou está tentando interromper o comportamento, o mundial pode ser um gatilho importante. A emoção coletiva, a identificação com os times, as conversas sobre resultados e a enorme exposição às apostas criam um ambiente que favorece a fissura e a perda de controle”, explica.

O médico destaca ainda que um dos principais riscos está na falsa sensação de domínio sobre os resultados. “Muitas pessoas acreditam que, por entenderem de futebol, conseguem prever o que vai acontecer em campo. Essa percepção de controle é uma distorção cognitiva bastante comum entre apostadores problemáticos”.

Apostas ao vivo aumentam impulsividade

Outro fator de preocupação são as chamadas apostas ao vivo, realizadas durante as partidas. Para Thiago Rodrigues, esse modelo reduz drasticamente o tempo entre o desejo de apostar e a ação em si. “Hoje basta pegar o celular e, em segundos, fazer uma aposta, a combinação de emoção intensa, acesso imediato e múltiplas oportunidades de aposta pode ser especialmente prejudicial para pessoas vulneráveis”.

Além disso, a publicidade frequente das plataformas durante transmissões esportivas pode estimular recaídas em ex-apostadores. “Esses anúncios funcionam como gatilhos psicológicos, reativando memórias associadas à expectativa de ganho e ao ritual da aposta. Muitas vezes, a mensagem é apresentada como uma oportunidade imperdível, reduzindo a percepção dos riscos envolvidos”.

Impactos vão além das finanças

Ansiedade, culpa, irritabilidade, insônia, vergonha e depressão estão entre os sintomas frequentemente observados pelos profissionais de saúde. Também são comuns situações de endividamento, pedidos de empréstimos e tentativas repetidas de recuperar o dinheiro perdido por meio de novas apostas, comportamento conhecido como chasing, palavra em inglês que significa “perseguindo”, “correndo atrás” ou “caçando, considerado um dos principais sinais de agravamento do problema.

Embora qualquer pessoa possa desenvolver uma relação problemática com as apostas, alguns grupos exigem atenção especial. Homens jovens, usuários frequentes de aplicativos, pessoas com histórico de impulsividade, TDAH, ansiedade, depressão ou outras dependências apresentam maior vulnerabilidade. Segundo o médico, fatores socioeconômicos também podem influenciar o risco de desenvolvimento da dependência em apostas.

Alerta!

Mudanças bruscas de comportamento, irritabilidade ao falar sobre apostas, aumento progressivo dos valores apostados, tentativas frequentes de recuperar perdas e problemas financeiros recorrentes estão entre os principais sinais de alerta. “Quanto mais cedo o problema for identificado, maiores são as chances de evitar consequências graves para a saúde mental, os relacionamentos e a vida financeira”, ressalta o especialista.

Para o psiquiatra, enfrentar os danos associados às apostas esportivas exige uma combinação de medidas regulatórias, educação e assistência em saúde. Entre as estratégias defendidas estão limites de depósito e perdas, mecanismos de autoexclusão, monitoramento de comportamentos de risco e regras mais rígidas para a publicidade do setor.

É importante compreender que a aposta não deve ser tratada como investimento. Estamos diante de um fenômeno que envolve saúde pública, comportamento e vulnerabilidade social. A prevenção passa por informação, regulação e acesso ao tratamento adequado”, conclui.

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