O cenário digital brasileiro enfrenta um divisor de águas. Enquanto grandes influenciadores ostentam vidas luxuosas bancadas por contratos milionários com plataformas de apostas — as chamadas “bets” —, uma parcela crescente da população vê suas economias, sonhos e dignidade serem engolidos por um modelo de negócio frequentemente questionado.

Em plena Copa do Mundo, com as apostas esportivas em alta, o caso recente envolvendo Virginia Fonseca, que incentivou seus mais de 56 milhões de seguidores a apostarem numa vitória de Cabo Verde sobre a Argentina que não ocorreu, é apenas a ponta do iceberg de um conflito que coloca em xeque a ética e a responsabilidade de quem detém o poder de ditar tendências nas redes sociais – e fora delas.

A situação atual exige uma reflexão profunda. A democratização das apostas trouxe, como efeito colateral, uma crise de saúde pública e segurança financeira. Enquanto o lucro fácil for o norte, a ruína de milhares de pessoas seguirá sendo o saldo invisível de publicações patrocinadas que, sob a aura do sucesso, escondem um abismo de prejuízos e, em casos extremos, consequências fatais.

Vamos aos fatos e à análise de especialistas!

O conflito de interesses na tela do celular

Virginia grava vídeo em seu jatinho incentivando apostas em vitória de Cabo Verde sobre a Argentina (Foto: Reprodução da internet)

O vídeo gravado por Virginia dentro de seu jatinho particular, promovendo a plataforma de apostas Blaze, ilustra a desconexão perigosa entre o influenciador e as consequências reais de suas recomendações. O jogo terminou 3 a 2 para a Argentina na prorrogação, o que pode ter levado milhares de brasileiros a perder milhões de reais.

Influenciadores como Virgínia e o próprio Neymar Jr – convocado para a Copa do Mundo numa jogada bastante suspeita – ganham duas vezes ao propagar apostas esportivas. Primeiro, recebem uma comissão por cada pessoa que cria uma conta utilizando seu link. nA segunda forma – e a mais lucrativa – é o chamado revenue share, em que o “parceiro” recebe um percentual da receita obtida pela plataforma com os jogadores indicados.

Na prática, o modelo que remunera o influenciador com base nos gastos do usuários que ele mesmo atraiu — ou seja, quanto mais o seguidor perde, mais o influenciador lucra —, cria um conflito de interesses ético insustentável.

Estratégia de marketing sob a mira do MP

Virgínia, com o goleiro Vozinha, da seleção de Cabo Verde, e a modelo Mia Khalifa (Foto: Reprodução da internet)

O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) instaurou um inquérito civil que exige a apresentação dos contratos publicitários de Virginia Fonseca e Neymar Jr. com a  Blaze. A investigação foca em possíveis práticas abusivas e publicidade enganosa por parte da empresa. A Blaze é alvo de queixas sobre retenção indevida de valores, bloqueios arbitrários de contas e dificuldades para saques.

Depois de se safar da CPI das Bets, Virginia Fonseca não é investigada diretamente dessa vez, nem mesmo o jogador Neymar, mas a Promotoria de Justiça quer entender mais a fundo como funciona a relação comercial entre grandes influenciadores digitais e empresas de apostas que movimentam bilhões de reais no Brasil.

A investigação tem como foco as estratégias de marketing potencialmente abusivas das plataformas. O cerco se fecha em torno da forma como a publicidade é conduzida, especialmente o uso de termos como “renda extra”, que distorcem a percepção de risco dos consumidores. O órgão apura se as campanhas instruíam os embaixadores a usar essa expressão, o que pode atrair apostadores vulneráveis.

Além de Virginia Fonseca e Neymar Jr., o MP já requisitou cópias de contratos publicitários firmados entre a Blaze e influenciadores como Lucas Lira e Bruna Sunaika. A ação conduzida pela 1ª Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor (Prodecon) pode resultar em uma multa por dano moral coletivo de até R$ 120 milhões contra a plataforma de apostas.

O histórico da relação de Virginia com a Blaze

  • Contrato milionário: Em maio de 2025, reportagens apontaram que a influenciadora migrou para a plataforma sob um contrato estimado em R$ 29 milhões anuais.
  • Depoimento na CPI: No mesmo período, Virginia prestou depoimento à CPI das Bets no Senado, onde negou lucrar com as perdas financeiras de seus seguidores.
  • Rompimento anterior: Em julho de 2025, ela anunciou o rompimento definitivo do contrato de imagem com a Blaze para preservar sua reputação, arcando com uma multa rescisória estimada em R$ 30 milhões.

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Influenciadores sob o radar da responsabilidade penal

Com milhões de torcedores acompanhando as partidas e o aumento da exposição das plataformas de bets nas transmissões e nas redes sociais, influenciadores digitais, atletas, ex-atletas e outras figuras públicas passaram a ocupar papel central nas campanhas publicitárias do setor.  O fenômeno das bets levanta discussões sobre os limites da responsabilidade jurídica de quem empresta sua imagem para esse tipo de publicidade.

O advogado criminalista Rafael Valentini, especialista em Direito Penal, alerta para os riscos jurídicos que essa promiscuidade entre publicidade e ilicitude pode trazer para figuras públicas. E recomenda cautela redobrada antes da celebração de contratos publicitários com empresas do setor.

A pessoa que é uma figura pública, evidentemente, tem um poder de influência. Tem um poder de impactar uma série de pessoas ou grupos, especialmente se for um ex-atleta de futebol, fazendo publicidade para uma bet, que está inserida no contexto do futebol. Então, isso exige uma responsabilidade redobrada por parte dessa pessoa”.

O advogado relembra que a legislação brasileira prevê a responsabilização de todos aqueles que, de alguma forma, contribuam para a prática de uma infração penal. Por isso, embora a simples publicidade de uma empresa regularizada não constitua crime, a situação pode ser diferente quando a divulgação beneficia organizações que utilizam a atividade como fachada para ilícitos.

Todo e qualquer tipo de propaganda nesse sentido, ainda mais um setor que cada vez mais circula milhões e milhões de reais, exige responsabilidade. Isso porque, pela lei penal, todos aqueles que com ocorrerem, participarem, contribuírem para prática de um crime, podem ser tidos como responsáveis. Então é uma legislação abrangente a nossa lei penal.”

Justiça e o peso do crime organizado

A crise de credibilidade no setor de apostas ganha contornos dramáticos com a manutenção da prisão de Deolane Bezerra pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Presa em maio deste ano durante a Operação Vérnix, a influenciadora e advogada é acusada de lavagem de dinheiro e conexão com a cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Com mais de 20 milhões de seguidores, a advogada de 38 anos é famosa por ostentar sua riqueza nas redes sociais e ficou conhecida após a morte trágica de seu então marido, o funkeiro MC Kevin. Em maio de 2021, ele caiu da varanda do quinto andar de um hotel no Rio de Janeiro. A Justiça do Rio reabriu o caso, a pedido da família do artista.

A prisão de Deolane reforça o alerta das autoridades sobre como plataformas de apostas, especialmente as não regulamentadas, podem atuar como fachada para o crime organizado, servindo de lavanderia para recursos ilícitos.

Fachada para a prática de crimes econômicos

Dvulgação de plataformas irregulares pode vincular figuras públicas a investigações envolvendo lavagem de dinheiro, golpes e outros crimes econômicos 

Desde a regulamentação das apostas de quota fixa no Brasil, o setor passou a operar sob regras mais rigorosas. Empresas interessadas em atuar legalmente precisam obter autorização do Governo Federal, cumprir uma série de exigências regulatórias e observar normas específicas relacionadas à publicidade, prevenção à lavagem de dinheiro e proteção dos consumidores. Ao mesmo tempo, autoridades intensificaram a fiscalização sobre plataformas que operam de forma irregular e sobre possíveis crimes financeiros ligados ao mercado.

O mercado de bets, de apostas diretas e tudo mais, está cada vez mais regulado, regulamentado pelo poder público. Existe uma secretaria do poder executivo específica para isso, normas administrativas específicas sobre quais são as licenças necessárias, quais são as responsabilidades que as empresas devem ter e um cadastro até de quem está regular e quem não está regular, quem pode realmente fazer esse tipo de atividade e quem não pode”, diz o advogado.

Em determinadas situações, plataformas aparentemente destinadas às apostas esportivas podem servir de fachada para a prática de crimes econômicos, como alerta o advogado Rafael Valentini, especialista em Direito e Processo Penal pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e sócio do FVF Advogados 

Caso a empresa não esteja devidamente regulamentada, é razoável e recomendável suspeitar que, possivelmente, o objetivo velado ao iniciar uma atividade de bet é, na realidade, aproveitar-se financeiramente de pessoas por meios fraudulentos de retenção de valores de apostas de forma abusiva ou até servir como um mecanismo de lavagem de dinheiro para ocultar patrimônio ilícito de terceiros. E isso pode ser feito por várias formas, escondendo o dinheiro em mercado estrangeiro, contas internacionais etc.”, aponta Valentini.

A resposta das instituições

A busca por ordem no setor não se limita aos influenciadores. A Advocacia-Geral da União (AGU) notificou extrajudicialmente o Google esta semana para remover perfis no YouTube que promovem jogos ilegais e tutoriais para criação de plataformas clandestinas.

A medida visa garantir o cumprimento da Lei 14.790/2023, que exige autorização prévia do Ministério da Fazenda para a exploração de apostas de quota fixa, e também decisões do Supremo Tribunal Federal (STF).

A Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia (PNDD), que promoveu a notificação aponta perfis com tutoriais para a criação de plataformas de apostas que não estão autorizadas a operar no país e usam chamadas “como criar uma plataforma de cassino” ou estratégias de marketing para o “jogo do bicho online”.

Segundo a AGU, perfis que se apresentam como sendo de empresas de marketing digital “propagam livremente o jogo não regulado e estimulam práticas que configuram contravenção penal”, ao oferecer ao usuário a opção de explorar atividades ilícitas sem qualquer ressalva. A notificação destaca que os próprios Termos de Uso do YouTube vedam a facilitação de acesso a serviços regulamentados, como sites de jogos de azar não certificados.

A AGU alerta que a circulação sistemática desses materiais representa uma ameaça à integridade da informação e à proteção dos consumidores, podendo estar conectada a crimes como sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. A omissão na remoção dos conteúdos pode gerar responsabilidade civil solidária à plataforma”, disse a AGU.

Com informações da Agência Brasil e Assessorias

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