O clima de Copa do Mundo mexe com as emoções de milhões de brasileiros, especialmente hoje, dia de jogo decisivo da Seleção Brasileira contra a Escócia. No entanto, o que deveria ser apenas uma corrente de torcida tem se transformado em um gatilho perigoso para o adoecimento mental e financeiro.
O avanço desenfreado das plataformas de apostas online (as chamadas bets) no Brasil consolidou um cenário alarmante: 46% dos praticantes de apostas virtuais já sentiram impactos negativos em sua saúde mental, segundo dados do Instituto Locomotiva. O hábito tem desencadeado picos de estresse crônico, crises de ansiedade severas e depressão clínica decorrentes da compulsão.
O fenômeno ganha proporções ainda maiores durante o Mundial. De acordo com uma pesquisa da Kantar, embora 77% dos consumidores brasileiros pretendam acompanhar o torneio, 37% afirmam que pretendem apostar durante o evento esportivo. Os palpites concentram-se no resultado das partidas (51%), número de gols (26%), campeão da Copa (18%), lances específicos (10%) e artilheiro do torneio (8%).
O mecanismo invisível da dependência
A proximidade de grandes eventos eleva drasticamente a exposição a estímulos visuais e auditivos. O marketing agressivo das empresas e o engajamento emocional dos torcedores criam o ambiente perfeito para o crescimento do Transtorno do Jogo (CID-11: 6C50), condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno relacionado a comportamentos aditivos.
O psiquiatra Ivan Araújo, professor de Medicina da Universidade Salvador (UNIFACS), explica que o problema vai muito além do dinheiro:
A dependência não surge apenas pela possibilidade de ganho financeiro. O que mantém muitas pessoas apostando é um mecanismo neurobiológico semelhante ao observado em outras adições. O cérebro passa a responder à expectativa da recompensa, especialmente quando ela ocorre de forma imprevisível.”
As plataformas utilizam estratégias da psicologia comportamental, como reforço intermitente, recompensas variáveis e notificações constantes. “O sistema de recompensa cerebral é particularmente sensível a recompensas imprevisíveis. Pequenos ganhos ocasionais podem reforçar a continuidade das apostas mesmo diante de perdas financeiras repetidas”, destaca o professor.
Da diversão ao comportamento de risco
O cenário brasileiro mostra uma linha tênue entre o entretenimento e a patologia. De acordo com a pesquisa Raio X do Investidor Brasileiro, divulgada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o percentual de apostadores no país saltou de 14% em 2023 para 17% em 2025. O dado mais preocupante é o avanço da dependência: 11% dos apostadores já são classificados como jogadores problemáticos, enquanto 28% encontram-se na faixa de risco moderado.
Para o médico psiquiatra William Augusto, docente de Medicina do Centro Universitário Max Planck (UniMAX), a percepção de que a atividade é inofensiva mascara a gravidade do problema. O especialista reforça que o termo correto é dependência, e não “vício”, para que não seja encarado como uma falha moral. “Estamos falando de um transtorno ligado ao controle dos impulsos, que afeta o funcionamento do cérebro”, afirma.
A ilusão de que entender de futebol protege o usuário também é desmistificada por Araújo: “A principal armadilha é acreditar que conhecimento esportivo reduz o risco. Mesmo especialistas em esportes permanecem sujeitos aos mesmos vieses cognitivos e às mesmas probabilidades matemáticas que qualquer outra pessoa”.
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Sinais de alerta: quando parar?
Os especialistas apontam que a dependência costuma evoluir de forma silenciosa. O psicólogo Cristiano Costa, diretor de conhecimento da Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo (EBAC), lembra que a forte carga emocional de jogos decisivos, como o do Brasil hoje, potencializa decisões impulsivas, especialmente entre jovens.
Fique atento aos principais comportamentos de risco:
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Aumento progressivo dos valores apostados para sentir o mesmo nível de excitação.
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Perseguição de perdas, que consiste em apostar mais para tentar recuperar o prejuízo anterior.
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Irritabilidade e ansiedade quando impedido de acessar as plataformas.
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Tentativas malsucedidas de reduzir ou interromper as apostas.
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Comprometimento financeiro, como o uso de cartões de crédito, empréstimos ou o não pagamento de contas básicas.
Prevenção e onde buscar ajuda
Para evitar que o entretenimento se transforme em tragédia familiar e financeira, o estabelecimento de limites severos de tempo e dinheiro é fundamental. As apostas nunca devem ser encaradas como fonte de renda ou investimento.
Para apoiar os profissionais de saúde no acolhimento dessas demandas crescentes, o Ministério da Saúde lançou, no início deste ano, o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, que contou com a revisão técnica do Dr. William Augusto. O material está disponível gratuitamente e integra as publicações da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Em caso de suspeita de perda de controle, a recomendação é buscar atendimento especializado precocemente por meio de psicoterapia (como a Terapia Cognitivo-Comportamental) e acompanhamento psiquiátrico na rede de saúde pública (Caps) ou privada.
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