A intensificação da crise climática tem transformado radicalmente as dinâmicas de trabalho e cobrado um preço alto da saúde mental dos trabalhadores. Eventos extremos como enchentes, queimadas e ondas de calor não apenas geram riscos físicos, mas expõem profissionais a quadros graves de estresse, ansiedade, burnout e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Só em 2025, o Brasil registrou mais de 540 mil afastamentos previdenciários relacionados a transtornos mentais e comportamentais. Paralelamente, o país segue em alerta com a segurança no trabalho: em 2025, foram contabilizados 806.011 acidentes laborais e 3.644 mortes, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Pressão corporativa e queixas no MPT
Além dos fatores ambientais, a organização interna das empresas agrava a sobrecarga emocional. Em 2025, o Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu 1.017 denúncias relacionadas à saúde mental. As queixas apontam irregularidades como metas inalcançáveis, jornadas exaustivas e ambientes baseados no medo. O estado de São Paulo liderou o número de reclamações (221), seguido por Mato Grosso do Sul (98) e Rio de Janeiro (77).
Alertas internacionais reiteram a gravidade do cenário. O relatório Estado do Clima Global 2025, divulgado pela Organização Meteorológica Mundial (WMO), confirma o acúmulo crescente de calor no planeta. Em consonância, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) adverte que as mudanças climáticas já representam graves riscos à saúde de 70% dos trabalhadores no mundo.
Prevenção de riscos psicossociais em pauta
O Dia Nacional da Prevenção de Acidentes do Trabalho, celebrado em 27 de julho, reforça a urgência de medidas preventivas. A data remete a 1972, quando o Brasil se tornou o primeiro país a tornar obrigatórios os serviços de segurança e medicina do trabalho em empresas.
Em 2026, a Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho (CANPAT) colocou no centro do debate a prevenção dos riscos psicossociais no ambiente laboral. Especialistas enfatizam que a atuação corporativa precisa ir além do fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).
“Fomentar uma cultura preventiva forte protege a vida do trabalhador e reduz os custos operacionais das empresas. A falta de sinalização e de prevenção de riscos simples pode acarretar acidentes e passivos trabalhistas. A implementação efetiva do Plano de Gerenciamento de Riscos (PGR) é fundamental”, pontua Ricardo Carlos Pinto, CEO da RCP Assessoria e especialista em Segurança do Trabalho.
Diálogo, escuta e adaptação ao clima
Para o MPT, a prevenção de doenças ocupacionais deve eliminar os perigos diretamente na origem. Á frente da Coordenadoria Nacional de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho e da Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (Codemat/MPT), Raymundo Ribeiro defende a reorganização do trabalho.
No campo psicossocial, é preciso reorganizar o trabalho para torná-lo viável, sustentável e humano, com metas alcançáveis e jornadas dentro dos limites legais. Também é preciso reconhecer diferenças individuais e oferecer respostas sensíveis, especialmente em situações de vulnerabilidade agravadas por eventos climáticos”, ressalta Ribeiro.
O vice-coordenador da Codemat, André Pessoa, acrescenta que as intempéries do clima intensificam a insegurança e a pressão por produtividade em contextos adversos. “Em um cenário de ondas de calor, por exemplo, trabalhadores de setores como construção civil ou limpeza urbana enfrentam maior risco físico e, simultaneamente, maior pressão por resultados, ocasionando estresse, ansiedade e exaustão.”
Diante dessa realidade, a campanha Abril Verde 2026 adotou o mote “Clima equilibrado. Trabalho protegido. Mente saudável”, promovendo audiências públicas e iluminação temática em prédios públicos para conscientizar a sociedade.
Gisela Nabuco, vice-coordenadora nacional da Codemat, reforça que o trabalhador deve ser sujeito ativo na construção de soluções: “Eles devem participar ativamente da avaliação dos fatores psicossociais e do monitoramento das medidas de controle. É fundamental ouvir quem trabalha.”
Essa interconexão entre a degradação do clima, o ambiente ocupacional e o bem-estar humano reforça a urgência do conceito de Saúde Única (One Health). A abordagem integra a saúde humana, animal e ambiental, evidenciando que não é possível garantir ambientes de trabalho saudáveis sem combater o equilíbrio ecossistêmico e os impactos das mudanças climáticas.




