Um levantamento do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) aponta que, entre 2010 e 2023, o percentual de mulheres que fazem uso excessivo de álcool no Brasil subiu de 10,5% para 15,2% — enquanto a taxa entre os homens permaneceu estável. Esse aumento reflete diretamente no período gestacional, onde 15,2% das grávidas no país declaram consumir álcool, índice 50¨% superior à média mundial de 9,8%.
O crescimento do consumo abusivo de bebidas alcoólicas entre as brasileiras acende um alerta vermelho neste Dia Mundial de Prevenção da Síndrome Alcoólica Fetal (SAF), lembrado no dia 9 de setembro. Esse hábito expõe mais de 450 mil bebês por ano a riscos severos de malformações e sequelas permanentes, muitas vezes por falta de informação das mães e do seu círculo social.
Apesar de ser uma das principais causas não genéticas de deficiência intelectual no mundo — afetando cerca de 50 em cada 1.000 nascidos vivos —, a SAF é subdiagnosticada. Embora nos Estados Unidos se estime que 1 em cada 20 nascimentos seja afetado por algum transtorno do espectro alcoólico fetal, o cenário brasileiro ainda carece de dados consolidados. Mas uma pesquisa conduzida na periferia de São Paulo identificou 38 casos a cada 1.000 nascidos vivos. Estimativas apontam que menos de 1% das crianças afetadas chegam a receber o diagnóstico correto.
O risco silencioso: efeito direto e sem barreiras no feto

A Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) é a manifestação mais grave do espectro dos Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal (TEAF). A forma mais grave da condição reduz drasticamente a expectativa de vida média dos indivíduos acometidos para 34 anos.
Diferente de outras substâncias que o organismo materno consegue filtrar, o álcool atravessa a placenta com facilidade. Quando a mulher ingere álcool, a substância atravessa a barreira placentária sem qualquer proteção para o feto, atingindo diretamente o desenvolvimento dos órgãos e do sistema nervoso em formação. Bastam cerca de 60 minutos após a ingestão pela mãe para que os níveis de etanol no sangue do feto e no líquido amniótico se equiparem aos da gestante.
Como o feto não apresenta mecanismos maduros de destoxificação, o álcool não é metabolizado e tem efeito ainda mais intenso para o seu metabolismo. Mínimas doses podem causar abortamento, natimorto e uma série de alterações comportamentais, intelectuais e físicas”, explica a médica obstetra Bruna Pitaluga.
Esses impactos compõem o espectro dos Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal (TEAF), cuja manifestação mais severa é a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF). A SAF é caracterizada por retardo no crescimento pré e pós-natal, dismorfologia facial (olhos pequenos, lábio superior fino e apagamento do filtro nasal) e danos ao sistema nervoso central, como a microcefalia. No Brasil, estima-se que entre 1.500 e 6.000 bebês nasçam com a síndrome a cada ano.
Sequelas a longo prazo e semelhanças com o autismo
As consequências do consumo de álcool durante a gestação não se limitam ao nascimento, estendendo-se por toda a infância e vida adulta. Especialistas alertam que as alterações comportamentais e cognitivas muitas vezes se confundem com outros transtornos do neurodesenvolvimento.
A exposição ao álcool em qualquer período da gravidez e em qualquer quantidade aumenta as chances de a criança desenvolver transtornos disruptivos, como TDAH, Transtorno de Conduta e Transtorno Desafiador Opositor, além de dificuldades na alfabetização e rebaixamento intelectual. O álcool impede que a criança alcance todo o seu potencial”, alerta Gesika Amorim, médica pediatra e neuropsiquiatra.
Entre as manifestações neurocomportamentais mais comuns registradas ao longo da vida estão:
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Transtornos de conduta e humor: Agressividade, impulsividade, depressão e ansiedade.
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Dificuldades de aprendizagem: Problemas de atenção, memória, raciocínio matemático e planejamento de metas.
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Vulnerabilidades sociais: Maior suscetibilidade ao abuso de substâncias na vida adulta e distúrbios alimentares.
As sequelas da SAF afetam o indivíduo por toda a vida e incluem:
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Malformações físicas: Alterações na face, microcefalia (restrição de crescimento do crânio e cérebro), deformidades nos dedos e articulações.
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Comprometimento de órgãos: Problemas renais, cardíacos, ósseos, além de déficits de visão e audição.
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Danos cognitivos e comportamentais: Dificuldades de aprendizagem, atrasos no desenvolvimento, problemas de memória e de sociabilização.
Não há dose segura para as gestantes
Embora o diagnóstico precoce ajude a abrandar os sintomas com terapias integradas na primeira infância, os danos neurológicos e estruturais provocados pela substância não têm cura. Por isso, a recomendação das entidades médicas e dos pesquisadores permanece categórica: a abstinência total é a única margem de segurança durante todo o período gestacional.
Médicos e pesquisadores reforçam que a única medida totalmente eficaz é a prevenção. Não existe dose segura, tipo de bebida tolerado ou período da gestação isento de risco. A abstinência total do álcool é a orientação de entidades internacionais e nacionais, como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e a Sociedade Brasileira de Pediatria.
A SAF pode acarretar vários tipos de malformações congênitas e não há nível seguro para o consumo de bebidas alcoólicas na gestação. Beber durante a gravidez pode elevar o risco de alterações no feto em até 65 vezes. Por isso, a recomendação é evitar qualquer tipo e quantidade de bebida alcoólica”, alerta Rosiane Mattar, ginecologista, obstetra e diretora científica da SOGESP.
Muitas pessoas desconhecem que o álcool pode estar presente além das bebidas convencionais. Sacolés alcoólicos, chás como Kombucha, bombons recheados de licor e até cervejas rotuladas como “zero álcool” podem conter traços da substância e devem ser evitados pelas gestantes.
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O impacto do álcool na formação das redes neurais

Para compreender como a substância atua silenciosamente no feto, pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) investigaram os efeitos moleculares do etanol no desenvolvimento do córtex cerebral humano. A pesquisa revelou que o álcool altera a estrutura da cromatina (que compacta o DNA) e prejudica as conexões sinápticas cruciais para a formação de redes neurais funcionais no feto.
Divulgado em setembro de 2025, o estudo conduzido em parceria com a Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD) utilizou organoides corticais — modelos celulares que simulam o cérebro em desenvolvimento, conhecidos como “minicérebros” —, para analisar os efeitos diretos do etanol no feto.
A pesquisa revelou que o componente ativo das bebidas alcoólicas altera a organização da cromatina — estrutura responsável por compactar o DNA nas células — e interfere em vias de sinalização essenciais. Isso prejudica a formação das sinapses e a atividade das redes neurais logo nos primeiros estágios da vida intrauterina.
Estudos anteriores já demonstraram que o consumo de álcool durante a gravidez pode levar a distúrbios conhecidos como Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal (TEAF), que incluem deficiências físicas, mentais e comportamentais, que inclusive se confunde com o autismo, especialmente em crianças pequenas”, explica Roberto Hirochi Herai.
Entenda os achados da pesquisa
O estudo publicado na revista científica Molecular Psychiatry detalha como o consumo de etanol afeta a estrutura biológica do feto:
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Alteração cromática: Módulos de compactação do DNA são modificados pela presença do etanol.
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Falha nas sinapses: A comunicação entre os neurônios é interrompida, prejudicando a formação de circuitos cerebrais funcionais.
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Diagnóstico complexo: As sequelas cognitivas e comportamentais na infância podem ser erroneamente diagnosticadas como autismo ou outros transtornos.
Compreender a base das alterações moleculares, incluindo quais problemas são causados nas células cerebrais, ajudará no desenvolvimento de futuras terapias para os Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal (TEAF), e também a esclarecer os processos neurobiológicos, auxiliando na criação de políticas públicas”, destaca Bruno Guerra, um dos autores do estudo publicado na revista Molecular Psychiatry.
Prevenção e apoio multidisciplinar
Embora a SAF e os TEAF não tenham cura, os sintomas podem ser amenizados com intervenção multidisciplinar precoce, envolvendo pediatras, psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais e educadores.
Médicos reforçam a importância de abordar o consumo de álcool durante as consultas de pré-natal e ressaltam que a rede de apoio da gestante desempenha um papel decisivo. Familiarizados e amigos devem incentivar um ambiente saudável, sem oferecer bebidas alcoólicas e respeitando a escolha pela abstinência durante a gravidez.
É fundamental abordar o tema sem julgamentos, com empatia e foco na prevenção, em políticas públicas, em leis que sejam cumpridas e em cuidados de apoio às crianças, adolescentes, adultos e suas famílias”, destaca Helenilce de Paula Fiod Costa, presidente do Núcleo de Estudos sobre os TEAF da SPSP.
Agenda Positiva
Gravidez Sem Álcool: responsabilidade coletiva e acolhimento à gestante
O dia 9 de setembro marca o Dia Mundial de Prevenção da Síndrome Alcoólica Fetal (SAF), uma data escolhida simbolicamente por ser o nono dia do nono mês, em alusão aos nove meses de gestação. A mobilização, que teve origem em 1999 por iniciativa do casal canadense Bonnie Buxton e Brian Philcox — pais adotivos de uma criança com a síndrome —, busca conscientizar a sociedade sobre uma condição grave, irreversível, mas 100% prevenível.
Prevenir os transtornos alcoólicos fetais não é uma tarefa exclusiva da mulher, mas de toda a rede de apoio ao seu redor. A criação de ambientes acolhedores que ofereçam alternativas sem álcool em momentos de lazer e celebrações em família é fundamental para proteger a mãe e a criança.
A única causa da SAF é o consumo de álcool na gravidez. A abstinência é o único caminho para prevenir todos os transtornos do espectro alcoólico fetal e proteger a vida e o futuro de milhares de crianças. A gestação é um período em que o apoio da família e do círculo social faz toda a diferença”, reforça Sara Machado de Assis, gestora do Instituto OMP.
A instituição atua desde 2023 com a campanha Gravidez Sem Álcool, veiculando conteúdos informativos e promovendo ações educativas em conjunto com sociedades médicas como a SBP, a SOGESP e a SPSP.
Recentemente, as entidades lançaram a cartilha “Álcool na Gravidez: Entenda os Riscos – Transtornos do Espectro Alcoólico Fetal”, buscando democratizar o acesso à informação científica para famílias e profissionais de saúde. Para saber mais sobre a campanha, acesse o portal do Instituto OMP.
Embora nos Estados Unidos se estime que 1 em cada 20 nascimentos seja afetado por algum transtorno do espectro alcoólico fetal, o cenário brasileiro ainda carece de dados consolidados.
O que toda gestante precisa saber
• Não existe dose segura: qualquer quantidade de álcool pode atravessar a placenta e atingir o feto.
• A Síndrome Alcoólica Fetal não tem cura: os danos provocados pela exposição ao álcool podem ser permanentes.
• As consequências podem ser diversas: malformações faciais, problemas cardíacos, alterações neurológicas, dificuldades de aprendizagem e de comportamento.
• Muitos casos não são diagnosticados: estima-se que menos de 1% das crianças afetadas recebam diagnóstico adequado.
• A prevenção é simples e eficaz: a única forma de evitar a SAF é não consumir bebidas alcoólicas durante toda a gestação.
Com Assessorias




