Receber um diagnóstico de câncer ainda assusta. Muita gente se desespera por causa do estigma que a doença carrega na sociedade. Mas a medicina avançou bastante e quando o câncer é descoberto no início, muitos casos podem ser curados. O problema é que os tumores de cabeça e pescoço ainda chegam com frequência em estágios avançados, o que pode causar mutilações que seriam evitáveis.

O desabafo é de Ricardo Gama, sobrevivente de um câncer de laringe, que passou por uma laringectomia total e hoje se comunica por meio de uma prótese traqueoesofágica. O depoimento de Ricardo – que se tornou voluntário da Associação Brasileira de Câncer de Cabeça e Pescoço ACBG Brasil) – , expõe a maior urgência da campanha Julho Verde, que mobiliza o país neste 27 de julho, Dia Mundial de Prevenção do Câncer de Cabeça e Pescoço.
A mobilização conscientiza a população sobre o grupo que engloba tumores da boca, língua, laringe, faringe, cavidade nasal, seios paranasais e glândulas salivares. Apesar das campanhas de conscientização e dos avanços na assistência oncológica, esses tumores ainda são frequentemente diagnosticados em estágios avançados.
Segundo estudo do Instituto Nacional de Câncer (Inca), cerca de 80% dos casos diagnosticados no Brasil entre 2000 e 2017 já estavam nos estágios III ou IV da doença. Nesses casos, a taxa de sobrevida em cinco anos despenca para 37%, exigindo tratamentos invasivos que afetam a voz, a fala, a respiração e a alimentação.
A partir dos dados do Inca, estima que oito em cada dez pacientes recebam o diagnóstico em estágio avançado, quando o tratamento se torna mais complexo, aumenta o risco de sequelas e diminuem as chances de cura. Em contrapartida, quando identificado nas fases iniciais, as chances de cura ultrapassam 90%.
O problema ganha ainda mais relevância diante das projeções. Para este triênio (2026-2028), o Instituto Nacional de Câncer (INCA) projeta 126.450 novos casos no país apenas para tumores de cavidade oral, tireoide e laringe (média de 42.150 por ano). Somente no Estado do Rio de Janeiro, são esperados 10.530 novos diagnósticos no período (3.510 anuais).
O país deve registrar 17.190 novos casos anuais de câncer da cavidade oral para cada ano do triênio de 2026 a 2028. Em escala global, o Carcinoma Escamoso de Cabeça e Pescoço figura como o sétimo tipo de tumor mais comum no mundo, registrando cerca de 890 mil casos e mais de 450 mil óbitos por ano.
Mais de 70% em estágio avançado
Um estudo científico apresentado pela farmacêutica MSD Brasil sobre o perfil epidemiológico da doença no país revelou que mais de 70% dos diagnósticos são feitos em estágios avançados, tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto no setor privado.
Os dados do estudo publicado na revista Oral Oncology Reports analisaram uma amostra de 37.121 pacientes, sendo 36.914 do sistema público e 207 do sistema privado (em seis clínicas especializadas em Oncologia). A pesquisa aponta que a taxa de tumores diagnosticados já em fase metastática é semelhante entre os dois sistemas de atendimento: 2,9% no SUS e 2,6% na rede privada.
Os pacientes do setor público eram mais jovens do que os do setor privado, com médias de idade de 61,2 e 66,9 anos, respectivamente. A maioria dos pacientes era de homens com histórico de tabagismo e consumo de álcool, além de estágio avançado da doença.
O principal local do tumor primário foi a orofaringe no setor privado e a cavidade oral no setor público. Entre os pacientes com câncer de orofaringe , apenas os do setor privado foram testados para HPV , sendo a maioria positiva.
Determinantes sociais e perfil dos pacientes no SUS
A pesquisa coloca em evidência como os determinantes sociais da saúde influenciam diretamente a localização dos tumores e o perfil dos acometidos. No Sistema Único de Saúde (SUS), a região mais afetada é a cavidade oral (37,1%), abrangendo lábios, língua, gengivas e assoalho da boca.
Fatores como a falta de acesso a consultas regulares com cirurgiões-dentistas e condições inadequadas de higiene bucal estão fortemente associados ao risco elevado desses tumores em populações de maior vulnerabilidade socioeconômica. Por outro lado, na rede privada, o local mais frequente de incidência é a orofaringe (42,5%), com crescimento contínuo ao longo dos anos analisados.
A faixa etária e o histórico de exposição aos fatores de risco também revelam disparidades importantes:
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Idade média: Os pacientes atendidos no SUS são, em média, mais jovens (61 anos) do que os pacientes acompanhados no setor privado (67 anos).
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Tabagismo: Na rede pública, 83,2% dos pacientes tinham histórico de fumo, contra 64,2% registrados na rede privada.
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Consumo de álcool: O uso abusivo de bebidas alcoólicas foi constatado em 74,6% dos pacientes do SUS, enquanto no setor privado a proporção ficou em 50,3%.
Desafio é o diagnóstico tardio da doença
Rouquidão persistente, uma ferida na boca que não cicatriza, dificuldade para engolir ou um caroço no pescoço costumam ser encarados como problemas passageiros. Em muitos casos, porém, esses sinais escondem um dos grupos de tumores mais agressivos: os cânceres de cabeça e pescoço. O desafio é que a doença continua sendo descoberta tarde demais.
O grande inimigo continua sendo o diagnóstico tardio. Muitos pacientes convivem durante meses com sinais aparentemente simples, como rouquidão ou pequenas lesões na boca, sem imaginar que podem estar diante de um câncer. Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as possibilidades de preservar funções importantes”, explica a cirurgiã-dentista Janini Rosas, membro da Organização Nacional de Acreditação (ONA).
Durante a campanha Julho Verde, especialistas reforçam que informação continua sendo uma das principais ferramentas para reduzir o número de diagnósticos tardios. “O reconhecimento precoce dos sinais de alerta pode representar a diferença entre tratamentos menos agressivos e procedimentos complexos que afetam diretamente a qualidade de vida dos pacientes”, diz a especialista.
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Perfil dos tumores: Cavidade oral, tireoide e laringe
1. Câncer de cavidade oral e orofaringe
Feridas na boca que não cicatrizam, manchas persistentes e dificuldade para engolir podem esconder uma doença que deve atingir cerca de 17,2 mil brasileiros por ano entre 2026 e 2028. O INCA estima 17,2 mil novos casos anuais no Brasil entre 2026 e 2028, sendo a doença significativamente mais prevalente entre homens (12,3 mil casos/ano) do que entre mulheres (4,9 mil casos/ano).
Sem considerar o câncer de pele não melanoma, esse tipo de tumor ocupa a sétima posição entre os tipos de câncer mais frequentes no País. Entre os homens, o cenário é ainda mais preocupante: trata-se do quarto câncer mais incidente na região Sudeste e do quinto nas regiões Sul, Centro-Oeste e Nordeste.
Esse grupo reúne tumores que acometem os lábios, língua, gengiva, céu da boca, mucosa oral, glândulas salivares e orofaringe. Em mais de 90% dos casos, o tumor é do tipo carcinoma espinocelular.
Grande parte dos casos está relacionada a fatores de risco que podem ser evitados. O cigarro continua sendo o principal vilão, sobretudo quando associado ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas. A exposição prolongada ao sol sem proteção aumenta o risco de câncer de lábio, enquanto a infecção persistente pelo HPV, especialmente o subtipo 16, está diretamente relacionada aos tumores de orofaringe.
Obesidade, consumo frequente de carnes processadas e de bebidas muito quentes também podem favorecer o desenvolvimento desses cânceres. Para a Dra Janini, o diagnóstico precoce faz toda a diferença no tratamento. “Feridas que não cicatrizam por mais de 15 dias, manchas brancas ou avermelhadas, dor persistente, rouquidão e dificuldade para engolir devem ser investigadas por um profissional”.
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Fatores de risco: O cigarro (incluindo dispositivos eletrônicos e narguilé) combinado ao consumo excessivo de álcool é o fator mais impactante. A infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV), transmitida via sexo oral desprotegido, impulsiona o aumento dos casos de orofaringe em pacientes mais jovens. Exposição solar sem proteção nos lábios e má higiene bucal completam os riscos.
2. Câncer de tireoide
Embora apresente uma das maiores taxas de cura entre os tumores quando descoberto precocemente, o câncer de tireoide deve atingir cerca de 16,4 mil brasileiros por ano no triênio de 2026 a 2028. Diferente dos outros tumores da região, o câncer de tireoide atinge quatro vezes mais mulheres do que homens. Das 16,4 mil ocorrências anuais estimadas pelo Inca no Brasil, cerca de 13,3 mil serão em pacientes do sexo feminino, contra pouco mais de 3,1 mil entre os homens.
Não considerando os tumores de pele não melanoma, o câncer de tireoide ocupa a oitava posição entre os mais frequentes no Brasil e está entre os principais tipos de câncer que acometem as mulheres, especialmente nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. Localizada na parte anterior do pescoço, a tireoide produz hormônios que regulam o metabolismo, a temperatura corporal e diversas funções essenciais do organismo.
Entre os fatores de risco mais conhecidos estão a exposição à radiação na região do pescoço, principalmente durante a infância. Devemos considerar a questão do histórico familiar, alterações genéticas e algumas síndromes hereditárias. Em áreas com deficiência de iodo, por exemplo, também pode contribuir para determinados tipos da doença”, alerta a doutora.
O câncer da tiroide se desenvolve de forma muito silenciosa, portanto, ficar atentas aos detalhes, é muito importante. “Qualquer nódulo aparente no pescoço, rouquidão persistente, dificuldade para engolir ou respirar e aumento dos linfonodos cervicais, é preciso buscar um especialista. São sinais que não devem ser ignorados. E quanto mais cedo o diagnóstico é realizado, maiores são as chances de cura e menores as possibilidades de tratamentos mais agressivos”, adverte Janini.
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Sinais e Fatores de Risco: Localizada na parte anterior do pescoço, a glândula regula o metabolismo. Embora apresente altas taxas de cura, a proliferação de nódulos exige investigação por ultrassonografia. A exposição prévia à radiação e o histórico familiar são os principais pontos de atenção.
3. Câncer de laringe
A rouquidão persistente pode ser muito mais do que um incômodo passageiro. É um dos principais sinais do câncer de laringe, doença que deverá registrar cerca de 8,5 mil novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Acometendo cerca de 8,5 mil brasileiros por ano, aproximadamente 86% dos casos concentram-se em homens (7,3 mil diagnósticos anuais), enquanto entre as mulheres são esperados aproximadamente 1,2 mil.
A laringe é responsável pela produção da voz e proteção das vias aéreas na deglutição. A rouquidão persistente por mais de 15 dias é o sintoma clássico e exige avaliação imediata com médico de família ou cirurgião de cabeça e pescoço.
O câncer de laringe ocupa a 18ª posição entre os tipos mais frequentes no País, mas, entre os homens, figura entre as dez neoplasias mais incidentes, especialmente nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste.
Além de ser responsável pela produção da voz, a laringe participa da respiração e protege as vias aéreas durante a alimentação. “Quando o tumor é descoberto em fases avançadas, pode comprometer essas funções e afetar significativamente a qualidade de vida do paciente”, sinaliza a doutora.
O tabagismo permanece como o principal fator de risco, seguido pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas. A combinação entre cigarro e álcool multiplica as chances de desenvolver a doença.
Além da rouquidão que persiste por mais de duas ou três semanas, sintomas como dor de garganta contínua, dificuldade para engolir, sensação de corpo estranho na garganta, falta de ar e nódulos no pescoço merecem investigação. O diagnóstico precoce aumenta as chances de sucesso do tratamento e pode preservar uma das funções mais importantes da laringe: a voz.
Atendimento no SUS e direitos do paciente
Mais do que apresentar um retrato epidemiológico, os achados da MSD reforçam a urgência de fortalecer ações permanentes de saúde pública. Especialistas apontam que a ampliação do acesso à saúde bucal na Atenção Primária à Saúde (APS) do SUS e a intensificação de programas de controle do tabagismo e do álcool são caminhos cruciais para reverter as taxas de diagnósticos tardios.
O acompanhamento odontológico preventivo e o autoexame da boca permitem identificar lesões pré-cancerígenas e pequenas feridas antes que progridam para estágios invasivos, preservando a qualidade de vida do paciente e elevando as chances de cura para até 90%.
O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento integral para esses tumores, incluindo cirurgia, radioterapia, quimioterapia, terapia-alvo, imunoterapia e acompanhamento multiprofissional com fonoaudiólogos, nutricionistas e psicólogos.
Na área de defesa de direitos (advocacy), conquistas recentes garantiram a incorporação da laringe eletrônica na tabela do SUS e a atualização dos valores para reembolso de próteses traqueoesofágicas de voz, garantindo a reabilitação funcional dos pacientes operados.
Agenda Positiva
Julho Verde e Agosto Branco: ação integrada contra o fumo e o diagnóstico tardio
A 10ª edição da campanha Julho Verde traz este ano o conceito “Da boca aos pulmões, tudo está conectado. Por mais laços na oncologia”. A grande novidade de 2026 é a conexão estratégica entre o Julho Verde (oficializado pela Lei Federal nº 14.328/2022) e o Agosto Branco (mês de combate ao câncer de pulmão, em conformidade com a Lei nº 15.207).
As duas mobilizações unem forças no combate ao tabagismo — principal fator de risco comum — e alertam para o fato de que os pulmões representam o principal local de metástase à distância para os tumores da região da cabeça e pescoço.
Sei bem que o câncer de cabeça e pescoço nunca adoece uma pessoa sozinha; ele impacta profundamente toda a estrutura familiar, trazendo desafios emocionais e uma pesada sobrecarga financeira que desestabiliza os lares”, pontua Gabriel Marmentini, cofundador e presidente da ACBG Brasil.
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Com Assessorias





