Cada vez mais crianças e adolescentes estão sendo alvo das propagandas de bets no Brasil, enquanto influenciadores como Neymar Jr e Virgìnia Fonseca continuam lucrando alto. Os números confirmam a gravidade do cenário. Novos dados inéditos da Ipsos mostram que 11% das crianças e adolescentes brasileiros de 10 a 17 anos fizeram apostas em 2025. Entre meninos de 16 e 17 anos, esse percentual chega a 20%.

Com os jogos da Copa do Mundo acompanhados por milhões de brasileiros em canais abertos e por streaming, incluindo crianças e adolescentes, a ampla presença de anúncios durante as transmissões, estádios, uniformes de clubes e até no transporte público contribui para naturalizar uma atividade proibida para menores de idade.

Diante do risco, o Alana – organização que atua em defesa da infância e adolescência – protocolou um ofício no Ministério da Fazenda pedindo a revisão urgente da Portaria SPA/MF nº 1.231/24, conhecida como “Portaria do Jogo Responsável”.  A ONG avalia que as regras atuais não são suficientes para proteger crianças e adolescentes da publicidade maciça de casas de apostas durante o torneio.

Risco das bets se compara a tabaco e álcool

O pedido chega em meio a investigações já abertas pela Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) e pela própria SPA (Secretaria de Prêmios e Apostas) sobre a publicidade do setor. O posicionamento dialoga com manifestações recentes de órgãos de proteção à infância e adolescência.

Em nota técnica, o Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) alerta que eles são hipervulneráveis aos estímulos publicitários e afirma que eventos esportivos, por serem espaços de convivência familiar, devem observar parâmetros mais rigorosos para evitar a exposição desse público à publicidade de apostas.

O documento também compara os riscos da publicidade de bets aos de outros produtos com restrições legais, como bebidas alcoólicas e tabaco, defendendo maior proteção em ambientes frequentados por crianças e adolescentes.

A Copa do Mundo é um evento acompanhado por famílias inteiras e não faz sentido que crianças e adolescentes sejam expostos, de forma massiva, à publicidade de um produto que a própria legislação proíbe que eles consumam. É preciso adequar as regras para que a proteção integral das infâncias e adolescências também sejam consideradas na regulação da publicidade de apostas”, diz João Francisco Coelho, advogado do programa Criança e Consumo do Alana.

Por que restringir a publicidade das bets?

Os motivos para restringir o acesso de crianças e adolescentes são urgentes:. de acordo com o Alana:

  • Com jogos assistidos por dezenas de milhões de brasileiros, inclusive crianças e adolescentes, a publicidade de bets tem circulado de forma “predatória e excessiva” em transmissões, estádios, uniformes de jogadores e até no transporte público.
  • Alana considera que a regulamentação atual é insuficiente e quais mudanças propõe para a Portaria do Jogo Responsável.
  • O paralelo entre as restrições à publicidade de apostas e as regras já existentes para álcool e tabaco, sendo que as regras para publicidade de apostas são mais brandas do que as aplicadas a álcool e cigarro. Assim, o Alana defende que o setor passe por restrições equivalentes.
  • O respaldo jurídico ao debate, incluindo o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Código de Defesa do Consumidor e a nota técnica do Conanda, que destaca a hipervulnerabilidade de crianças e adolescentes diante da comunicação mercadológica.
  • O apoio da opinião pública à limitação da publicidade do setor, segundo pesquisa AtlasIntel (abril/2026) mostra que 76% dos brasileiros defendem limitar a publicidade do setor, e 86,7% avaliam negativamente o impacto das apostas no país, mostrando que a demanda tem respaldo popular amplo.

Sobre o Alana

Formado pelo Instituto Alana, pela Alana Foundation e pela Maria Farinha Filmes, o Alana é um ecossistema de impacto socioambiental que trabalha para transformar as condições de vida das crianças e dos adolescentes no Brasil e no mundo. Atua em múltiplas frentes — educação, ciência, saúde, entretenimento e advocacy —, incluindo a produção de conhecimento científico à criação de campanhas e conteúdos culturais, passando por articulação política e ações jurídicas.

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Há crianças apostando o dinheiro do lanche em escolas públicas

O recente seminárioApostas Online, Dependência Mental: Desafios Socioeconômicos”, promovido pelo Comitê de Civismo e Cidadania (COCCID), expôs um quadro de deterioração econômica e social cujas dimensões ainda são subestimadas: entre 40 e 80 milhões de brasileiros apostam diariamente em plataformas digitais e há registros de crianças apostando o dinheiro do lanche em escolas públicas.

O debate ocorreu em um momento em que o Congresso Nacional se divide entre aprofundar a regulação do setor, em vigor desde a Lei 14.790/2023, e proibir integralmente as apostas de quota fixa, como propõe o PL 1.808/2026, apresentado pela bancada do PT em abril deste ano.

Promovido pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP), o evento reuniu psiquiatras, reguladores e especialistas em educação financeira para debater os impactos das apostas online sobre a saúde pública, o consumo e a mobilidade social brasileira.  Guido Arturo Palomba, psiquiatra forense com mais de 50 anos de atuação nos tribunais judiciários paulistas e cerca de 15 mil laudos emitidos para varas criminais, civis e militares, não poupou palavras para definir o perigo das bets.

As bets são uma praga maldita”, afirmou. “Essa porcaria está a um clique dos celulares, pegando as crianças.” Para ele, o argumento da autorregulação é ingênuo: “Se autorregular não existe. É conversa.”

“Tem que proibir. Não há outra possibilidade”

O psiquiatra apresentou os números da indústria como prova do descompasso entre lucro e responsabilidade. Segundo ele, uma única plataforma de grande porte movimenta entre R$ 20 milhões e R$ 30 bilhões por mês, investe de R$ 15 milhões a R$ 20 milhões em propaganda e patrocínios, enquanto as menores gastam entre R$ 2 milhões e R$ 10 milhões mensais em marketing.

O governo federal, por sua vez, arrecada R$ 1,2 bilhão por mês com o setor e destina R$ 90 milhões a campanhas de conscientização contra o jogo compulsivo. “Chega a ser ridículo e vergonhoso”, disse Palomba. “Por que o bingo da vovó não foi legalizado? Todos os clubes de futebol e todos os grandes craques do futebol brasileiro são patrocinados pelas bets.”

Para o psiquiatra, a dependência das apostas compromete o ser humano em três dimensões simultâneas: “O problema compromete o comercial, o social e o biológico.” E vai além da questão econômica: “É um vício maldito. A pessoa vende a mãe para jogar. Isso é aposta.”

Sua conclusão foi direta: “Tem que proibir essa coisa. Não há outra possibilidade. Nenhuma pessoa em sã consciência acha que as bets são boas. Desafio qualquer um a me apresentar um único ponto positivo do jogo.” E apontou o dedo para o poder público: “O problema está nos políticos, porque eles é que aprovaram. Quando regulamentou, ficou muito pior.”

“Estamos diante de um grande desastre social”

Renato Toporcov Simões Barreiros, diretor das Fábricas de Cultura, reforçou o diagnóstico a partir do impacto econômico e social sobre as camadas mais vulneráveis. Citando levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP), ele afirmou que “a pesquisa que aperta o calo de todo mundo mostra que o varejo perdeu dois natais nos últimos dois anos.” “O comércio vai sofrer muito com as apostas de bets“, alertou. “Quem mais joga é a classe mais pobre, e isso cria uma desigualdade social imensa.”

Segundo ele, dados levantados por mantenedoras de instituições de ensino superior reforçam o retrato: 34% dos jovens deixam de ingressar na faculdade por dívidas contraídas em plataformas de apostas, proporção que chega a 44% no Nordeste e 41% no Sudeste. Outros 14% atrasam suas matrículas pelos mesmos motivos. “Estamos diante de um grande desastre social, inclusive com suicídios”, disse Barreiros. Seu apelo foi direto: “Se a sociedade civil não agir, nós vamos nos afundar no poço profundo das bets.”

Com informações do Alana e ACSP

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