Neste domingo (5), a Seleção Brasileira enfrenta a Noruega em um dos jogos mais aguardados da Copa do Mundo. De um lado, nosso maior ídolo neste Mundial, Vinicius Júnior, com sua dieta á base de ‘comida de verdade’. Do outro, Erling Haaland, o centroavante que, além de ser uma das maiores forças do futebol mundial, virou assunto fora dos gramados por um hábito incomum: ele consome 6 mil calorias por dia.

O cardápío inclui coração de boi, fígado, leite cru e mel orgânico. Essa abordagem é conhecida como dieta ancestral, ou animal-based. sem recorrer a whey protein ou suplementos sintéticos.

Já Vini Jr aposta numa alimentação rica em alimentos frescos, como arroz, feijão, frango, peixe, ovos e frutas, com foco total na eliminação de açúcares e ultraprocessados. Ele conta com um cozinheiro particular e inclui o consumo diário de abacaxi para otimizar a digestão, hidratação e fornecer energia gradual aos músculos.

A alimentação do camisa 7 da Seleção não tem nenhuma extravagância. Ela se baseia em “comida de verdade”. Nas refeições, predominam proteínas magras e carboidratos complexos, incluindo pratos tradicionais brasileiros como arroz e feijão, além de frango e peixe grelhados.
O atleta evita doces e alimentos processados. Quando sente vontade de comer chocolate à noite, a estratégia é consumir uma fruta ou simplesmente ir dormir. Falando em fruta, o jogador consome abacaxi com frequência. A fruta é rica em frutose e glicose, que fornecem energia de forma gradual para o corpo, além de atuar na hidratação por ser composto por mais de 85% de água

Diferenças entre abordagens e o papel das vísceras

Mais do que uma tendência passageira, a dieta ancestral de Haaland desperta debates sobre biologia, genética e os limites da performance humana. Especialistas decifram o que há de ciência, risco e lição nessa estratégia. O ponto principal é que a dieta do norueguês diferencia-se de outras vertentes, como a low carb ou a paleo clássica, pelo grau de restrição.

Segundo Luís Guilhermo, nutricionista funcional integrativo e esportivo do Instituto Nutrindo Ideais, a abordagem animal-based remove fibras, fitoquímicos e carboidratos vegetais, sustentando-se em carnes, vísceras, ovos, peixes e laticínios.

Para o médico Thomáz Baêsso, do mesmo instituto, a lógica possui base evolutiva sólida, já que alimentos de origem animal oferecem proteínas de alto valor biológico e nutrientes de alta biodisponibilidade, como vitamina B12, ferro e creatina.

Existe uma diferença enorme entre ingerir 6.000 calorias de alimentos naturais e consumir 6.000 calorias de alimentos ultraprocessados“, resume Baêsso.

As vísceras, presentes na rotina de Haaland, são aliadas estratégicas:

  • Fígado: Fonte de vitamina A (retinol), B12, folato, ferro heme e cobre.

  • Coração: Rico em coenzima Q10, taurina, ferro e selênio.

Riscos, mitos e o perigo da automedicação

Segundo Guilherme Renke, endocrinologista e sócio do Instituto Nutrindo Ideais, o consumo de proteínas de alto valor biológico estimula o eixo GH/IGF-1, favorecendo a hipertrofia e a regeneração muscular.

Do ponto de vista ortopédico, Rodrigo Castelo Branco, especialista em traumatologia do esporte, destaca que o aporte de aminoácidos como glicina e prolina é essencial para a síntese de colágeno e manutenção de tendões e cartilagens.

Contudo, o especialista alerta: “O alimento fornece o substrato, mas não regenera sozinho. O estímulo mecânico adequado e o sono são fundamentais para a adaptação”.

O impacto no DNA e a medicina evolutiva

Por que o organismo pode responder bem à alimentação ancestral? A resposta não está apenas na composição dos alimentos, mas na interação deles com o genoma. Alexandre Lucidi, geneticista, mestre em Neurologia e superintendente de clínica médica do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla (RJ), explica que a nutrição influencia a expressão gênica por mecanismos epigenéticos.

Nutrientes como ácidos graxos, vitaminas e minerais atuam como sinais moleculares que regulam o metabolismo, a inflamação e a homeostase energética“, esclarece Lucidi.

Embora a premissa da medicina evolutiva — de que o genoma humano permanece praticamente o mesmo desde o paleolítico — tenha respaldo parcial, o especialista ressalta que o descompasso entre mecanismos ancestrais e padrões modernos contribui para doenças cardiometabólicas.

No entanto, o geneticista faz uma ressalva importante: a ciência atual aponta o consumo de ultraprocessados, com seus efeitos de disrupção da microbiota intestinal e alta densidade energética, como o principal culpado pela inflamação crônica, independentemente da origem animal ou vegetal dos ingredientes.

Para os especialistas, entretanto, o sucesso do atacante norueguês não depende apenas da dieta, mas de um sistema que inclui treinos de sprint de explosão. “A alimentação potencializa, mas não determina o sucesso esportivo. O desempenho de elite resulta da interação entre genética, treinamento, recuperação e fatores ambientais“, afirma Lucidi.

Para quem quer copiar a dieta de Haaland

Nem tudo na dieta de Haaland é consenso científico. O consumo de leite cru, por exemplo, é proibido no Brasil pelo Decreto nº 923/1969. O Ministério da Agricultura alerta para riscos de tuberculose, brucelose e salmonelose, enquanto a vantagem nutricional frente ao leite pasteurizado é considerada pequena.

Para o público geral que pensa em copiar a dieta do atacante norueguês, a recomendação é de cautela. Higor Caldato, psiquiatra especializado em transtornos alimentares, alerta que copiar dietas de atletas de alto rendimento sem orientação pode levar à ortorexia — uma obsessão pelo “comer limpo” que gera sofrimento e isolamento social.

O atleta ajusta a dieta conforme a necessidade, sob supervisão de uma equipe multidisciplinar. Para quem deseja transicionar para uma dieta mais natural, o acompanhamento com nutricionista e médico é indispensável para evitar carências nutricionais e garantir a segurança metabólica”, conclui Caldato.

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