Neste domingo (5), a Seleção Brasileira enfrenta a Noruega em um dos jogos mais aguardados da Copa do Mundo. De um lado, nosso maior ídolo neste Mundial, Vinicius Júnior, com sua dieta á base de ‘comida de verdade’, sem excessos. Do outro, o centroavante Erling Haaland, que virou assunto fora dos gramados por um hábito incomum. Sem recorrer a whey protein ou suplementos sintéticos, ele consome 6 mil calorias por dia.

O cardápío do noruguês, uma das maiores forças do futebol mundial na atualidade, inclui coração de boi, fígado, leite cru e mel orgânico. Essa abordagem é conhecida como dieta ancestral, ou animal-based. Mais do que uma tendência passageira, os hábitos alimentares de Haaland despertam debates sobre biologia, genética e os limites da performance humana.
Aos 25 anos, Haaland não está sozinho na busca pelo corpo ideal para o alto rendimento em campo. O cenário atual da nutrição esportiva coloca lado a lado métodos distintos, como o do craque português Cristiano Ronaldo — focado na longevidade aos 41 anos, com uso de gorduras saudáveis e peixes frescos — e o de Haaland, que aposta na densidade calórica para sustentar sua explosão física.

‘Comida de verdade’: a alimentação de Vini Jr
Já a alimentação do camisa 7 da Seleção brasileira não tem nenhuma extravagância. Também com 25 anos, Vini Jr aposta numa alimentação rica em alimentos frescos. Nas refeições, predominam proteínas magras e carboidratos complexos, incluindo pratos tradicionais brasileiros como arroz e feijão, além de frango e peixe grelhados. ovos e frutas.

Diferenças entre abordagens e o papel das vísceras
Especialistas decifram o que há de ciência, risco e lição na estratégia alimentar de Haaland. O ponto principal é que a dieta do norueguês diferencia-se de outras vertentes, como a low carb ou a paleo clássica, pelo grau de restrição.
Segundo Luís Guilhermo, nutricionista funcional integrativo e esportivo do Instituto Nutrindo Ideais, a abordagem animal-based remove fibras, fitoquímicos e carboidratos vegetais, sustentando-se em carnes, vísceras, ovos, peixes e laticínios.
Para o médico Thomáz Baêsso, do mesmo instituto, a lógica possui base evolutiva sólida, já que alimentos de origem animal oferecem proteínas de alto valor biológico e nutrientes de alta biodisponibilidade, como vitamina B12, ferro e creatina.
Existe uma diferença enorme entre ingerir 6.000 calorias de alimentos naturais e consumir 6.000 calorias de alimentos ultraprocessados“, resume Baêsso.
As vísceras, presentes na rotina de Haaland, são aliadas estratégicas:
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Fígado: Fonte de vitamina A (retinol), B12, folato, ferro heme e cobre.
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Coração: Rico em coenzima Q10, taurina, ferro e selênio.
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Riscos, mitos e o perigo da automedicação
Segundo Guilherme Renke, endocrinologista e sócio do Instituto Nutrindo Ideais, o consumo de proteínas de alto valor biológico estimula o eixo GH/IGF-1, favorecendo a hipertrofia e a regeneração muscular.
Do ponto de vista ortopédico, Rodrigo Castelo Branco, especialista em traumatologia do esporte, destaca que o aporte de aminoácidos como glicina e prolina é essencial para a síntese de colágeno e manutenção de tendões e cartilagens.
Contudo, o especialista alerta: “O alimento fornece o substrato, mas não regenera sozinho. O estímulo mecânico adequado e o sono são fundamentais para a adaptação”.
Nem tudo na dieta de Haaland é consenso científico. O consumo de leite cru, por exemplo, é proibido no Brasil pelo Decreto nº 923/1969. O Ministério da Agricultura alerta para riscos de tuberculose, brucelose e salmonelose, enquanto a vantagem nutricional frente ao leite pasteurizado é considerada pequena.
O impacto no DNA e a medicina evolutiva
Por que o organismo pode responder bem à alimentação ancestral? A resposta não está apenas na composição dos alimentos, mas na interação deles com o genoma. Alexandre Lucidi, geneticista, mestre em Neurologia e superintendente de clínica médica do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla (RJ), explica que a nutrição influencia a expressão gênica por mecanismos epigenéticos.
Nutrientes como ácidos graxos, vitaminas e minerais atuam como sinais moleculares que regulam o metabolismo, a inflamação e a homeostase energética“, esclarece Lucidi.
Embora a premissa da medicina evolutiva — de que o genoma humano permanece praticamente o mesmo desde o paleolítico — tenha respaldo parcial, o especialista ressalta que o descompasso entre mecanismos ancestrais e padrões modernos contribui para doenças cardiometabólicas.
No entanto, o geneticista faz uma ressalva importante: a ciência atual aponta o consumo de ultraprocessados, com seus efeitos de disrupção da microbiota intestinal e alta densidade energética, como o principal culpado pela inflamação crônica, independentemente da origem animal ou vegetal dos ingredientes.
Para os especialistas, entretanto, o sucesso do atacante norueguês não depende apenas da dieta, mas de um sistema que inclui treinos de sprint de explosão. “A alimentação potencializa, mas não determina o sucesso esportivo. O desempenho de elite resulta da interação entre genética, treinamento, recuperação e fatores ambientais“, afirma Lucidi.
A estratégia por trás da síntese muscular
A hipertrofia e a preservação da massa magra dependem de como o corpo processa a proteína. Ananda Paris, atuante em nutrologia e medicina integrativa da mulher do Instituto Nutrindo Ideais/SP, aponta que a distribuição proteica é fundamental: “Fracionar o consumo em múltiplas refeições otimiza a síntese proteica muscular, especialmente quando há oferta adequada de aminoácidos essenciais e leucina”.
Sobre a escolha das fontes, Ananda ressalta que proteínas de origem animal possuem maior valor biológico e digestibilidade. No entanto, destaca: “As proteínas vegetais também são eficazes, desde que haja um planejamento adequado e um aporte proteico total maior para atingir uma resposta anabólica equivalente”.
O “prato do atleta”: energia explosiva e recuperação

Em competições de calendário intenso, cada refeição é calculada. Karinee Abrahim, nutricionista do Instituto Nutrindo Ideais (RJ), especialista em metabolismo do esporte, alerta que o pré-treino deve priorizar carboidratos de fácil digestão, como banana, tapioca, arroz branco e mel. “Alimentos gordurosos, muito fibrosos e frituras devem ser evitados horas antes da partida para evitar desconfortos gástricos”, orienta.
Para manter o glicogênio em alta, a nutricionista sugere três combinações funcionais:
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Arroz integral com salmão e abacate: Equilíbrio entre carboidratos e gorduras monoinsaturadas.
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Batata-doce com pasta de amendoim e ovos: Alta densidade energética com suporte proteico.
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Aveia com banana, chia e castanhas: Energia sustentada para treinos de longa duração.
Por que a Noruega levou sua própria despensa para a Copa?
Além do estilo de vida peculiar de Erling Haaland, a seleção norueguesa chamou a atenção por uma logística inusitada: o transporte de mais de uma tonelada de alimentos, incluindo 300 kg de peixes, 6 mil laranjas e 116 kg de queijos.
Longe de ser apenas uma preferência cultural, a decisão reflete uma estratégia rigorosa de alta performance. Adriana Stavro, nutricionista mestre pelo Centro Universitário São Camilo, destaca a importância desse rigor.
Em atletas de alto rendimento, a alimentação é parte essencial da preparação. Mais do que preferência, levar alimentos próprios permite manter a qualidade dos ingredientes, a composição nutricional das refeições, reduzir o risco de desconfortos gastrointestinais e preservar uma rotina alimentar já adaptada ao organismo dos atletas”, explica a nutricionista.
Stavro reforça que, para o futebol — um esporte intermitente de alta intensidade —, o planejamento é soberano: “O chamado timing nutricional organiza a ingestão de carboidratos, proteínas e líquidos antes, durante e após treinos e competições, favorecendo a oferta de energia e a reposição dos estoques de glicogênio”.
O papel estratégico dos alimentos escolhidos
Cada item selecionado pelos noruegueses possui uma função metabólica clara dentro do planejamento da equipe:
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Peixes: Fonte de proteínas de alto valor biológico, ômega-3 e vitamina D, essenciais para a saúde cardiovascular e o controle da inflamação pós-jogo.
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Laranjas: Ricas em carboidratos de rápida digestão, vitamina C e potássio, auxiliam na reposição energética imediata e na hidratação.
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Queijos: Oferecem cálcio e proteínas, fundamentais para a manutenção da massa muscular e da saúde óssea.
Ciência, planejamento e “comida de verdade”
O debate sobre o transporte dos alimentos também tocou em um ponto sensível: a preocupação com aditivos alimentares permitidos em diferentes países. Enquanto a União Europeia, seguindo critérios mais restritivos, preza por normas rigorosas, a seleção norueguesa optou pela segurança de manter a “comida de verdade”.
O foco principal dessa estratégia é o uso de alimentos in natura e minimamente processados. Segundo especialistas, isso não se traduz apenas em números, mas em uma melhor gestão do estresse oxidativo causado pelo exercício intenso.
O futebol, por ser um esporte intermitente de alta intensidade, exige estoques de glicogênio sempre otimizados; portanto, o planejamento do timing nutricional — o momento exato de consumir cada nutriente — é tão importante quanto a escolha dos alimentos em si.
Para quem quer copiar a dieta de Haaland
Para o público geral que pensa em copiar a dieta do atacante norueguês, a recomendação é de cautela. Higor Caldato, psiquiatra especializado em transtornos alimentares, alerta que copiar dietas de atletas de alto rendimento sem orientação pode levar à ortorexia — uma obsessão pelo “comer limpo” que gera sofrimento e isolamento social.
O atleta ajusta a dieta conforme a necessidade, sob supervisão de uma equipe multidisciplinar. Para quem deseja transicionar para uma dieta mais natural, o acompanhamento com nutricionista e médico é indispensável para evitar carências nutricionais e garantir a segurança metabólica”, conclui Caldato.
A lição para além do futebol
A trajetória da Noruega e de Haaland serve como um lembrete de que a alta performance é o resultado de uma integração complexa entre treinamento, sono, hidratação e, fundamentalmente, consistência alimentar.
Para o público geral, a lição é clara: não existem alimentos milagrosos. A saúde e o desempenho, seja no esporte de elite ou no cotidiano, são construídos pela priorização de alimentos frescos e pelo respeito à individualidade biológica.
Independentemente do resultado entre Brasil e Noruega, a principal lição deixada pela seleção norueguesa vai além do futebol. A alimentação é tratada como parte da preparação do atleta, ao lado do treinamento, da recuperação e de outros hábitos que sustentam a alta performance”, diz Adriana.
Com Assessorias
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