A Copa do Mundo começa antes do apito inicial. Ela nasce no imaginário coletivo, no pulsar de milhões de pessoas que, por alguns instantes, acreditam em algo raro: a ideia de que estamos, enfim, jogando no mesmo campo. É o momento em que nações se encontram e diferenças sociais, raciais, religiosas e culturais parecem suspensas até o apito final.
Dentro das quatro linhas, as regras são as mesmas para todos. Elas não mudam conforme o idioma, a cor da pele ou a nacionalidade. O cartão amarelo ou vermelho não negocia privilégios. Ali, a ideia de justiça parece simples: todos têm direito ao mesmo jogo.
No Brasil, o autoproclamado país do futebol, não ficamos atrás dos ideais que a Copa representa. O sistema de saúde brasileiro é construído sobre princípios como a universalidade, que garante o direito de todos ao acesso; a equidade, que reconhece as diferenças; e a integralidade, que compreende cada pessoa como única e busca oferecer um cuidado completo.
Na teoria, parece perfeito. Mas, na prática, a realidade brasileira mostra que a saúde ainda joga em campos profundamente desiguais.
Assim como na Copa sabemos que as seleções não chegam ao torneio com as mesmas condições – algumas contam com mais investimentos, melhores estruturas e diferentes oportunidades ao longo da trajetória –, existem diferenças que impactam diretamente o acesso à saúde. O cuidado não é igual. As oportunidades de prevenção e tratamento não são iguais. As chances de viver também não.
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Essa desigualdade aparece em dados concretos. Um estudo do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, que analisou mais de 670 mil pacientes atendidos pelo SUS, revelou que homens negros e pardos chegam ao sistema com a doença mais avançada e têm menos recursos investidos em seus tratamentos quando comparados aos pacientes brancos.
Segundo a pesquisa, um em cada quatro homens negros recebeu um medicamento comprovadamente menos eficaz no tratamento do câncer de próstata. O estudo também apontou que o investimento médio em homens brancos no SUS é 16,2% maior do que em homens negros.
Além disso, a população negra e parda costuma buscar tratamento mais tarde do que a população branca, evidenciando disparidades relacionadas ao acesso à informação, além de outros fatores sociais que podem dificultar a chegada aos serviços de saúde.
O mundo não dá pausa para o preconceito racial. Nem quando o estádio está cheio. Nem quando o corpo adoece.
O racismo atravessa comemorações globais, discursos de igualdade e políticas públicas de saúde. De forma silenciosa, ele influencia quem terá mais oportunidades de prevenção, cuidado e cura.
Porque, no fim, o problema nunca foi apenas o jogo. É entender quem teve vantagem antes mesmo do apito inicial.
A Copa nos faz acreditar que todas as seleções partem para a disputa em igualdade de condições. Mas sabemos que, na prática, as trajetórias são diferentes – assim como acontece na saúde brasileira.
O levantar da taça é resultado de uma soma de fatores. O mesmo acontece com uma vida saudável.
- Doutora em enfermagem, professora do curso de Medicina da Furb (Blumenau) e especialista em saúde da população negra
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