A rotina corrida e a falsa sensação de que “está tudo bem” quando não há dor forte fazem com que a visita ao dentista seja constantemente adiada. Muitas vezes, o estalo de realidade vem de forma repentina: uma mordida em um alimento cotidiano — como um pastel crocante no meio da semana — desencadeia uma dor aguda e desconfortável, revelando que um problema silencioso já atingiu um estágio avançado.

No meu caso pessoal, a surpresa veio acompanhada de um diagnóstico duplo: a necessidade de realizar dois tratamentos de canal. Ainda estou buscando orçamentos, já que a maior dificuldade para quem tem um plano odontológico é conseguir marcar atendimento quando o problema é mais complexo. A dor aguda que eu senti pode ser ainda maior no bolso: no particular, um tratamento de canal não sai por menos de R$ 2 mil, podendo a passar de R$ 4,5 mil, dependendo do material utilizado na coroa – resina ou porcelana.

O comportamento de procurar auxílio odontológico apenas em momentos de dor extrema reflete um padrão cultural amplo no Brasil. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (Abimo), em parceria com o Conselho Federal de Odontologia (CFO), revelam que 35% dos brasileiros nunca foram ao dentista. Além disso, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que menos da metade da população (49,4%) consultou um cirurgião-dentista nos últimos 12 meses.

Esse distanciamento da prevenção ocorre em um país que possui ampla oferta de profissionais qualificados. Levantamento do Ministério da Saúde, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), aponta que o Brasil conta com 665.365 profissionais de saúde bucal, dos quais 406.252 são cirurgiões-dentistas graduados.

Para a cirurgiã-dentista Claudiana Lopes, da Clínica SiM, a ampla disponibilidade de especialistas reforça que o verdadeiro desafio é comportamental. “Muitas pessoas só procuram o consultório quando a dor se torna insuportável, mas o verdadeiro segredo da saúde bucal está na prevenção. Quando a gente negligencia a rotina de consultas, transformamos problemas simples, fáceis de resolver, em tratamentos longos e dispendiosos”, alerta a profissional.

Riscos para a saúde e o impacto financeiro

Postergar o acompanhamento odontológico transforma intervenções preventivas de baixo custo em procedimentos complexos. “Muitas pessoas só procuram o dentista quando a dor se torna insuportável e aí o tratamento pode ser mais caro e demorado do que se tivessem buscado cuidado antes”, pontua Yanase. “Investir na prevenção e não ignorar dores, por menores que pareçam, é cuidar da saúde e bem-estar de forma inteligente.”

Além do peso no bolso, a falta de acompanhamento adequado traz riscos diretos para o bem-estar e a saúde geral:

  • Evolução de cáries e perda dentária: A destruição da estrutura do dente pode exigir o tratamento de canal ou até a extração definitiva.

  • Doenças periodontais: O acúmulo de tártaro provoca gengivite que, se não tratada, evolui para periodontite, comprometendo os tecidos de sustentação e o osso alveolar.

  • Infecções sistêmicas: Bactérias originadas de infecções bucais graves podem alcançar a corrente sanguínea, aumentando o risco de complicações em outros órgãos, como a endocardite bacteriana nas válvulas do coração.

  • Prejuízos funcionais e emocionais: Dores e perdas dentárias comprometem a mastigação, a digestão, o sono, a produtividade no trabalho e a autoestima do paciente.

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O ciclo da cárie: do incômodo leve à intervenção de canal

A cárie dentária é uma das condições mais prevalentes na população. Segundo dados do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), cerca de 41,5% dos brasileiros apresentam cáries, com uma média de 2,2 dentes afetados por pessoa. Entre os adolescentes de 12 a 15 anos, a taxa chega a 57,4%.

A dor de dente é um sinal de alerta que o corpo nos dá, que não pode ser ignorada. Na maior parte das vezes, ela começa com uma cárie que poderia ter sido interrompida com prevenção simples, como escovação correta, uso de fio dental e visitas regulares ao dentista. Quando chega ao canal, a situação já é mais séria e exige um tratamento mais complexo e cuidadoso”, explica Paulo Augusto Yanase, cirurgião-dentista da rede Oral Sin.

O processo de formação da cárie tem início com o acúmulo da placa bacteriana sobre o esmalte dentário. Nos estágios iniciais, a lesão pode ser assintomática ou provocar apenas sensibilidade pontual ao frio ou a alimentos doces. Quando não tratada precocemente com uma restauração simples, a bactéria avança pelas camadas do dente até atingir a polpa dentária, estrutura interna que abriga vasos sanguíneos e nervos.

Quando a polpa sofre um dano irreversível — seja por cárie profunda, infecção ou trauma —, torna-se necessário o tratamento endodôntico (tratamento de canal). “A polpa é um tecido mole que contém nervos e vasos sanguíneos, e sua lesão pode causar extremo desconforto, incluindo dores intensas, inchaço e sensação de latejamento”, detalha Walter Solter, cirurgião-dentista e diretor técnico da Dental Beauty.

O procedimento consiste em acessar a estrutura interna do dente, remover o tecido infectado, desinfetar o local e preenchê-lo com material adequado. “O procedimento visa restaurar e reconstruir o dente afetado, proporcionando alívio da dor e preservando a estrutura dental”, reforça Solter, lembrando que, com os avanços tecnológicos, muitos tratamentos de canal hoje podem ser concluídos em apenas um dia.

Como manter a saúde bucal em dia

A combinação entre consultas preventivas regulares e hábitos diários de higiene é o caminho indicado por especialistas para evitar procedimentos complexos. As recomendações fundamentais incluem:

  1. Escovação adequada: Escovar os dentes ao menos três vezes ao dia (com atenção especial ao período antes de dormir), utilizando creme dental fluoretado e escovas de cerdas macias.

  2. Uso diário do fio dental: Essencial para remover resíduos e placa bacteriana nas regiões onde a escova não alcança.

  3. Higienização da língua: Realizar a limpeza delicada com a própria escova ou raspador lingual para remover bactérias e prevenir o mau hálito.

  4. Substituição da escova: Trocar o item a cada três meses ou sempre que as cerdas perderem o formato.

Adotar uma postura preventiva e procurar avaliação profissional ao primeiro sinal de desconforto evita que pequenos problemas se tornem diagnósticos complexos, preservando a saúde, o bem-estar e o planejamento financeiro.

A saúde bucal não é um aspecto isolado. Ela interfere diretamente na nutrição, na fala, nas relações sociais e na saúde cardiovascular do indivíduo. Criar o hábito de visitar o consultório de forma preventiva, além de cuidar do sorriso em casa, é a escolha mais inteligente e econômica para garantir qualidade de vida a longo prazo”, conclui Claudiana Lopes.

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