No Brasil, ainda é comum ouvir a frase “vou ao dentista quando precisar”. O problema é que, na maioria das vezes, “precisar” significa dor. E quando a dor aparece, quase sempre o problema já evoluiu. O hábito de adiar a ida ao dentista é um comportamento comum, mas que traz reflexos na saúde pública e individual no Brasil.
Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (Abimo), em parceria com o Conselho Federal de Odontologia (CFO), revela que 35% dos brasileiros nunca foram ao dentista e 32% dos brasileiros não vão ao dentista para realizar avaliação odontológica — uma ferramenta preventiva que deveria fazer parte da rotina de cuidados com a saúde.
O dado ajuda a explicar por que tantos atendimentos ainda acontecem em caráter emergencial. A lógica parece simples: evitar consultas periódicas para economizar. Mas, na prática, o resultado costuma ser o oposto. Procedimentos que poderiam ser resolvidos com uma limpeza ou restauração simples evoluem para tratamentos de canal, cirurgias ou reabilitações complexas.
‘Cáries não surgem de um dia para o outro’, diz dentista
Para o cirurgião-dentista Marcos Pereira Villa-Nova, essa cultura reativa custa caro, financeiramente e biologicamente. “Quando o paciente procura atendimento apenas na presença de dor, geralmente estamos lidando com um quadro avançado. A odontologia preventiva é sempre menos invasiva, menos traumática e mais acessível”, explica.
Cáries não surgem de um dia para o outro. Doenças periodontais também não. São processos silenciosos que evoluem ao longo do tempo. A dor é, na maioria das vezes, um sinal tardio. Além do impacto direto nos dentes, a negligência pode afetar o organismo como um todo. Infecções bucais estão associadas a processos inflamatórios sistêmicos e podem agravar condições como diabetes e doenças cardiovasculares.
Marcos defende uma visão mais ampla da odontologia, construída ao longo de sua experiência clínica. “Assumi um ditado que um professor falava muito e o carrego desde então: a boca não vem andando sozinha para o consultório. Analisar o paciente como um todo e não só a boca é essencial para um diagnóstico mais assertivo”, afirma.
Essa abordagem integrada permite identificar hábitos, padrões alimentares, níveis de estresse e condições sistêmicas que influenciam diretamente a saúde bucal. O bruxismo pode estar ligado à ansiedade. Problemas gengivais podem refletir descontrole metabólico. A odontologia moderna deixou de ser isolada.
Do ponto de vista financeiro, o impacto é claro. Uma consulta preventiva periódica custa significativamente menos do que um tratamento de canal associado à colocação de coroa. Sem falar no tempo afastado do trabalho, no desconforto e na complexidade do procedimento.
A prevenção é investimento, não gasto. Quando acompanhamos o paciente regularmente, conseguimos intervir cedo, preservar estrutura dental e evitar tratamentos extensos”, conclui Marcos. Ir ao dentista apenas quando dói pode parecer economia no curto prazo. Mas, no longo prazo, o custo é sempre maior, para o bolso e para a saúde.
Contraste com o grande número de dentistas
O cenário contrasta diretamente com a grande oferta de profissionais qualificados no país. De acordo com um recente levantamento do Ministério da Saúde, realizado em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Brasil conta atualmente com 665.365 profissionais de saúde bucal. Desse total, 406.252 são cirurgiões-dentistas (graduados em Odontologia).
O restante da força de trabalho é composto por auxiliares de saúde bucal, técnicos de saúde bucal, técnicos de prótese dentária e auxiliares de prótese dentária. No entanto, Mesmo com tantos profissionais à disposição em todo o país, a cultura da prevenção ainda enfrenta barreiras comportamentais no dia a dia dos brasileiros.
Para Claudiana Lopes, cirurgiã-dentista da Clínica SiM – uma rede de clínicas de saúde acessíveis com presença nos estados da Bahia, Ceará e Pernambuco e mais de 230 mil beneficiários ativos – reforça que o principal obstáculo não é a falta de assistência, mas sim a ausência de uma cultura preventiva.
Muitas pessoas só procuram o consultório quando a dor se torna insuportável, mas o verdadeiro segredo da saúde bucal está na prevenção. Quando a gente negligencia a rotina de consultas, transformamos problemas simples, fáceis de resolver, em tratamentos longos e dispendiosos”, aponta.
Prevenção x tratamento
Optar pela manutenção preventiva, que envolve visitas periódicas a cada seis meses para limpezas e avaliações, apresenta um custo financeiro muito baixo se comparado ao tratamento de problemas em estágio avançado.
Quando pequenos problemas são ignorados, eles evoluem de forma silenciosa. Uma cárie superficial não tratada pode alcançar o canal do dente, exigindo um procedimento endodôntico e, eventualmente, uma coroa ou prótese. O custo de reparar um dano severo chega a ser dezenas de vezes maior do que o investimento anual em consultas de rotina.
Riscos de não ir ao dentista
- Evolução de cáries: Pequenas lesões que seriam resolvidas com restaurações simples podem destruir a estrutura do dente, exigindo tratamento de canal ou até extração.
- Doenças periodontais: O acúmulo de tártaro causa gengivite que, se não tratada, evolui para periodontite. Esta condição destrói os tecidos de sustentação e o osso, sendo a principal causa de perda de dentes em adultos.
- Infecções sistêmicas: Bactérias presentes em infecções bucais graves podem entrar na corrente sanguínea e atingir outros órgãos. Um dos riscos mais severos é a endocardite bacteriana, uma infecção grave nas válvulas do coração.
- Mau hálito crônico (halitose): A falta de remoção profissional da placa bacteriana e do tártaro gera odores desagradáveis persistentes que não são resolvidos apenas com escovação caseira.
- Comprometimento da mastigação e estética: A perda ou desgaste dos dentes prejudica a digestão dos alimentos e afeta diretamente a autoestima do paciente.
Clínicas odontológicas populares facilitam acesso
As barreiras financeiras deixam de ser uma justificativa para o distanciamento do consultório. Atualmente, a busca por clínicas que oferecem planos acessíveis, pacotes em conta e condições facilitadas tem se mostrado uma alternativa para viabilizar o tratamento contínuo. Modelos focados em preços populares e facilidades de pagamento democratizam o acesso à saúde bucal, provando que cuidar do sorriso cabe no orçamento de forma planejada.
A saúde bucal não é um aspecto isolado. Ela interfere diretamente na nutrição, na fala, nas relações sociais e na saúde cardiovascular do indivíduo. Criar o hábito de visitar o consultório de forma preventiva, além de cuidar do sorriso em casa, é a escolha mais inteligente e econômica para garantir qualidade de vida a longo prazo”, conclui Claudiana Lopes.
Cuidados em casa
As visitas ao consultório devem caminhar lado a lado com a manutenção diária. Para garantir a eficácia da higiene diária e prolongar a saúde do sorriso, alguns cuidados são indispensáveis:
- Escovação regular: Escovar os dentes pelo menos três vezes ao dia, com especial atenção à escovação antes de dormir. O ideal é utilizar escovas de cerdas macias para não machucar a gengiva nem desgastar o esmalte dos dentes.
- Uso diário do fio dental: A escova limpa apenas as superfícies aparentes. O fio dental é o único capaz de remover os resíduos de alimentos e a placa bacteriana entre os dentes e abaixo da linha da gengiva.
- Higienização da língua: A superfície da língua acumula células mortas e bactérias. Escová-la delicadamente ou utilizar um raspador lingual ajuda a combater o mau hálito.
- Troca periódica da escova de dentes: O objeto deve ser substituído a cada três meses ou assim que as cerdas começarem a abrir e perder a forma original, pois escovas desgastadas perdem a eficiência de limpeza.
Com Assessorias





