A expiração da patente da semaglutida no Brasil, ocorrida em 20 de março de 2026, deu início a uma transformação profunda na indústria farmacêutica nacional. O fim da exclusividade comercial da molécula — consagrada mundialmente como princípio ativo de medicamentos para diabetes tipo 2 e obesidade — abriu caminho para uma corrida sem precedentes entre os laboratórios.
Se num primeiro momento a meta das empresas era a aprovação regulatória junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a disputa agora entra em uma segunda e complexa fase: a capacidade industrial de fabricar a semaglutida sintética em larga escala, com padrão analítico rigoroso e uma cadeia de suprimentos sem gargalos.
O desafio de produzir peptídeos em alta escala
Diferente de medicamentos com moléculas simples e tradicionais, a semaglutida é um peptídeo — uma cadeia de aminoácidos que exige processos biotecnológicos de altíssima precisão. Conforme explica o especialista em biotecnologia farmacêutica Eduardo Rocha Bravim, obter o registro sanitário é apenas o ponto de partida de um teste operacional rigoroso.
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Complexidade moleculat: A síntese do peptídeo exige a caracterização detalhada da molécula e o controle contínuo de impurezas ao longo de todas as etapas de fabricação.
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Repetibilidade dos lotes: Garantir que milhões de canetas aplicadoras saiam da fábrica com exatamente os mesmos parâmetros de pureza e dosagem requer monitoramento em tempo real.
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Infraestrutura e investimento: Para liderar a produção nacional em sua planta no interior de São Paulo, a farmacêutica EMS investiu R$ 1,2 bilhão em uma década de desenvolvimento tecnológico para sua plataforma de peptídeos, estruturando capacidade para produzir até 20 milhões de canetas por ano.
Supply Chain: a cadeia de suprimentos como fator decisivo
A capacidade de manter os produtos nas prateleiras das farmácias também dependerá da estabilidade logística fora das fábricas. Por envolver matérias-primas e insumos com especificações técnicas altamente rigorosas, qualquer oscilação em fornecedores pode paralisar a produção.
| Pilar de sustentabilidade industrial | Impacto na disponibilidade do medicamento |
| Qualificação de fornecedores | Garante que insumos e reagentes cheguem dentro dos padrões exigidos de pureza. |
| Cadeia de frio e embalagens | Mantém a estabilidade da medicação injetável desde a linha de montagem até o consumidor final. |
| Redundância e rastreabilidade | Previne a escassez de estoques e protege o mercado contra falsificações ou lotes fora do padrão. |
Avanço regulatório impulsiona a concorrência
O edital de priorização lançado pela Anvisa acelerou os trâmites regulatórios no país. Dos 24 medicamentos sintéticos e biológicos incluídos no programa de priorização da agência para semaglutida e liraglutida, 11 já tiveram suas análises concluídas.
Com a liberação pioneira do Ozivy em maio de 2026 e o lote aprovado no fim de julho (incluindo marcas como Owozy, Seemasun, Zempneo, Semavy e Orsema), somados às recentes aprovações de genéricos e similares em agosto, o mercado brasileiro ganha densidade.
O consenso entre especialistas do setor é de que o verdadeiro vencedor dessa nova era não será apenas quem chegar primeiro ao mercado, mas o laboratório que conseguir sustentar a produção em massa mantendo a máxima qualidade sanitária.
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Importações cresceram 85% no primeiro semestre
Em paralelo, a Anvisa intensificou inspeções e auditorias operacionais em importadoras, farmácias de manipulação e clínicas médicas em todo o território nacional para coibir irregularidades na manipulação de insumos ou a entrada de lotes clandestinos.
A aceleração do mercado digital é acompanhada por um salto na chegada do produto ao país. As importações desses medicamentos mantém um ritmo elevado no Brasil e somaram US$ 1,51 bilhão (cerca de R$ 8,3 bilhões) entre janeiro e julho de 2026, um crescimento de mais de 85% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Apenas no mês de julho de 2026, a entrada desses remédios totalizou US$ 257,1 milhões — valor quase três vezes superior ao registrado em junho (US$ 95,7 milhões), , segundo dados da plataforma Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Desafio logístico e corrida nos aeroportos
O aumento expressivo no volume das importações de medicamentos injetáveis colocou em xeque a infraestrutura logística e de refrigeração no país. Sendo produtos biológicos e sintéticos sensíveis à variação de temperatura, a manutenção da cadeia de frio entre 2 °C e 8 °C exige rotas rápidas e desembarque prioritário nos aeroportos.
Especialistas do setor de transporte internacional destacam que a alta exige triagem documental antecipada, uso de embalagens térmicas de alta precisão e monitoramento 24 horas por geolocalização e sensores de temperatura desde os países de origem, como Estados Unidos, Alemanha e Dinamarca.
Para a logística, esse aumento exige capacidade para absorver volumes maiores sem comprometer as condições de conservação. Em cargas farmacêuticas sensíveis à temperatura, planejamento prévio, agilidade nos aeroportos, rastreabilidade e controle ao longo de toda a operação são fundamentais”, afirma Matheus F. Bernardes, da Cronos Logistics.
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