O Dia Nacional do Diabetes (26 de junho) acende um alerta para um cenário de saúde pública que exige atenção redobrada. O Brasil registra cerca de 17 milhões de adultos vivendo com diabetes, um número que coloca o país entre as nações com maior prevalência da doença no mundo. Por trás dos dados alarmantes, está o avanço da obesidade, que hoje atinge seis em cada dez brasileiros, evidenciando uma correlação direta entre as duas condições, que levam à síndrome metabólica. Segundo dados do Atlas Mundial da Obesidade, mais de 30% da população adulta brasileira vivem com obesidade – algo em torno de 60 milhões de pessoas – e as projeções indicam crescimento desse percentual nos próximos anos.

Em meio a este cenário, o tratamento da obesidade e do diabetes no Brasil vive um momento de transformações significativas com a expiração da patente da semaglutida, substância presente em medicamentos que se tornaram famosos nos últimos dois anos no Brasil, como os injetáveis Ozempic e Wegovy e o comprimido oral Rybeslsus, todos produzidos pela Novo Nordisk. 

Com a recente quebra da patente da semaglutida e a abertura do mercado para novos fabricantes, a expectativa do setor é que a maior competitividade pressione a redução dos custos das chamadas “canetas emagrecedoras”. Esse movimento pode tornar as terapias à base do hormônio GLP-1 mais acessíveis à parcela da população que, até então, encontrava no alto preço uma barreira intransponível – os custos variam de acordo com a marca e da dosagem, podendo chegar a 4 mil reais por mês.

Ao ampliar as opções terapêuticas disponíveis, a chegada de novos produtos produzidos por via de síntese química, como o Ozivy, já começa a impactar o bolso do consumidor. Com preços de lançamento que podem variar conforme a dosagem e programas de desconto oferecidos pelos laboratórios, o custo mensal do tratamento tem se tornado mais competitivo do que era quando a Novo Nordisk detinha a exclusividade.

Enquanto o mercado privado se ajusta à nova realidade de preços e a fabricante tenta reagir lançando descontos para os consumidores, o poder público se movimenta para incluir essas medicações na saúde pública. O Ministério da Saúde deu um passo importante ao anunciar, nesta sexta-feira (26/6), o início do uso de semaglutida em pacientes obesos atendidos pelo Sisterma Único de Saúde (SUS) em Porto Alegre (RS).

O SUS como laboratório de impacto clínico

Durante a cerimônia, um paciente atendido no Hospital Nossa Senhora da Conceição, administrado pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC), recebeu a primeira aplicação do medicamento, marcando o início da oferta dessa terapia em um hospital federal. No total, serão contemplados 250 pacientes do SUS já acompanhados pelo hospital que sofrem com a obesidade grave ou associada a outras morbidades e possuem indicação para cirurgia bariátrica.    

De acordo com a pasta, esse público reflete o perfil assistencial da unidade, na qual 91% dos pacientes com obesidade apresentam a forma mórbida da doença. Dentre esses, apenas 47% possuem condições clínicas para realização de cirurgia bariátrica. A comorbidade mais prevalente nesse grupo é a hipertensão arterial.

O Brasil está sendo pioneiro na utilização desse medicamento no sistema público de saúde. Estamos estimulando estudos nessa tecnologia para que o país se aprimore, cada vez mais, da sua produção e oferta de forma segura. Nesse primeiro momento, ela é muito importante para o diabetes e obesidade, mas pode se estender também a outras doenças crônicas e até mesmo para tratamento de cânceres”, disse o ministro Antonio Padilha.

Passo importante para incorporar a semaglutida no SUS

Batizado de Real-Bari, o projeto-piloto tem como objetivo avaliar, ao longo de dois anos, a efetividade e o custo-benefício do tratamento na prática assistencial brasileira. Este estudo é fundamental para que, futuramente, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) possa avaliar a viabilidade de oferecer essas terapias à base de GLP-1 de forma ampliada e gratuita à população.

O protocolo de pesquisa para uso da semaglutida em pacientes com obesidade, elaborado pelo Ministério da Saúde em parceria com a equipe técnica do GHC, com o objetivo de garantir maior segurança aos participantes e estabelecer diretrizes para o acompanhamento contínuo com médicos especialistas da unidade.

A pasta não informou se o projeto em Porto Alegre tem a parceria da Novo Nordisk, mas em comunicado divulgado em 16 de junho, a companhia informou que “mantém projetos-piloto de acesso equitativo em parceria com o SUS, como a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e o Grupo Hospitalar Conceição, hospital público federal situado em Porto Alegre (RS)”.

Essas iniciativas geram dados reais sobre como a gestão integrada da obesidade e fatores de risco associados pode melhorar os indicadores de saúde populacional e otimizar os recursos públicos”, informou a farmacêutica.

Para mais detalhes sobre a iniciativa, acesse o comunicado oficial do Ministério da Saúde.

Fabricante quer vender semaglutida com 59% de desconto para o SUS

A Novo Nordisk também protocolou junto à Conitec uma nova proposta para a incorporação de Wegovy (semaglutida biológica original injetável). “O pleito inclui um desconto de 59% para o governo e uma análise econômica alinhada aos critérios de custo-efetividade do Ministério da Saúde, buscando viabilizar o acesso sustentável ao tratamento no SUS”, informou.

Diferente da submissão anterior, a iniciativa prioriza pacientes com obesidade que já sofreram infarto, focando na prevenção de novos eventos cardiovasculares graves. A abordagem busca direcionar o tratamento para uma população de maior risco clínico e maior impacto potencial para o sistema de saúde.

A população elegível inclui adultos a partir de 45 anos, com IMC entre 30 e 40, sem diabetes, mas com histórico comprovado de infarto. A estratégia considera que a prevenção secundária nesse grupo pode reduzir internações de alta complexidade e a pressão sobre o sistema público de saúde.

O embasamento científico inclui dados do estudo clínico Select, que demonstraram uma redução de 20% no risco de morte cardiovascular, infarto e AVC, em pacientes com sobrepeso ou obesidade, sem diabetes, mas com doença cardiovascular estabelecida.

O aval dos médicos endocrinologistas

Enquanto a quebra da patente da semaglutida abre o mercado para a entrada de novos concorrentes e o SUS tenta avançar na democratização do acesso às canetas emagrecedoras, as entidades que representam os médicos que atuam com tratamentos para diabetes e obesidade saem em defesa de laboratórios já consolidados nesse mercado.

O próprio comunicado divulgado pela Novo Nordisk no último dia 16 traz avaliações de lideranças das entidades do setor.  “Tratar o paciente de alto risco cardiovascular é uma estratégia de saúde pública para reduzir mortalidade e melhorar a qualidade de vida, além de gerar economia a longo prazo para o Estado”, reforça João Salles, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).

Para Fabio Trujillo, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), o cenário reforça a necessidade de discutir políticas públicas voltadas ao cuidado da obesidade. “A doença impõe desafios crescentes ao sistema de saúde e exige estratégias baseadas em evidências, com foco em prevenção, tratamento e redução de complicações”, afirma.

Entidades médicas defendem semaglutida comercial

Em nota conjunta divulgada no dia 24, SBD, Abeso e Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) enfatizam que, embora a concorrência seja bem-vinda para fomentar o acesso às canetas emagrecedoras, o rigor regulatório é inegociável. Alegam que a expansão do acesso às canetas emagrecedoras deve caminhar lado a lado com a segurança do paciente.

As entidades reforçam que toda e qualquer nova versão do medicamento deve passar pela avaliação da Anvisa. O objetivo, afirmam, é assegurar que o benefício da redução de preços não comprometa a qualidade, a segurança e a eficácia que os pacientes necessitam. A comercialização de versões manipuladas ou produtos sem registro regulatório é veementemente repudiada por entidades, que alertam para os riscos graves à saúde que esses produtos desconhecidos podem trazer.

Na nota oficial, as entidades médicas destacam:

  • Confiança na Anvisa: A disponibilidade de novas versões do medicamento no mercado brasileiro ocorre sob avaliação e autorização da Anvisa, órgão responsável por garantir padrões de qualidade, segurança e eficácia.

  • Repúdio a produtos sem registro: As sociedades médicas manifestam preocupação e repudiam a utilização de formulações manipuladas ou produtos que não passaram pelo rigoroso processo de avaliação regulatória. O uso de substâncias sem a devida aprovação da agência expõe os pacientes a riscos significativos.

  • Cuidado profissional: O acesso a tratamentos eficazes deve estar sempre vinculado ao uso de medicamentos aprovados pelas autoridades sanitárias competentes, garantindo que o progresso terapêutico chegue à população de forma responsável.

O posicionamento completo pode ser conferido no site da Sociedade Brasileira de Diabetes.

Linha do tempo: a jornada da semaglutida no país

A semaglutida, uma molécula que imita o hormônio GLP-1 — responsável por regular a glicose e promover a saciedade —, chegou ao Brasil primeiramente por meio do Ozempic, aprovado pela Anvisa exclusivamente para o controle do diabetes tipo 2.

Com o tempo, o benefício da perda de peso associado à medicação, aliado ao lançamento do Wegovy (especificamente aprovado para o tratamento da obesidade), consolidou as chamadas “canetas emagrecedoras” no topo das discussões sobre saúde metabólica.

Em março de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou a extensão de patente à Novo Nordisk para a semaglutida, abrindo caminho para a entrada de versões genéricas no Brasil. Em maio de 2026, a Anvisa marcou um novo capítulo ao aprovar o primeiro medicamento à base de semaglutida sintética no país, o Ozivy.

Diferente da versão biológica original, a versão sintética abre caminho para uma maior concorrência, o que é fundamental para a redução de custos e a democratização do acesso para aqueles que buscam tratamento, mas enfrentam barreiras financeiras.

Para enfrentar a concorrência, a Novo Nordisk busca “avançar em iniciativas para facilitar o acesso aos tratamentos, combinando uma nova dinâmica de preços para medicamentos à base de semaglutida com parcerias estratégicas”. Entre as ações recentes, estão “condições diferenciadas para Wegovy e Rybelsus, que buscam reduzir o custo de entrada e dar maior previsibilidade à jornada do paciente”.

Quem pode usar e por que o acompanhamento médico é vital

Embora as “canetas” sejam amplamente propagandeadas pela indústria farmacêutica, com apoio das redes sociais e dos ‘influenciadores’ que fazem uso patrocinado desses produtos, é essencial reforçar que não são medicamentos de venda livre.

Desde abril de 2025, a Anvisa passou a exigir a retenção de receita médica para a dispensação de canetas GLP-1 em farmácias, medida que visa coibir o uso sem prescrição e representa uma barreira relevante à expansão do canal de venda livre.

Além de exigir prescrição médica, os medicamentos à base de GLP-1 devem ser utilizados como adjuvantes à mudanças no estilo de vida. O acompanhamento é crucial porque, sem dieta estruturada e exercícios físicos, a perda de peso pode incluir massa muscular, e o abandono do tratamento sem mudança de hábitos pode levar ao reganho de peso.

Atualmente, o uso dos medicamentos é estritamente indicado para:

  • Diabetes tipo 2: Para adultos insuficientemente controlados por dieta e exercícios.

  • Obesidade e sobrepeso: Pacientes com Índice de Massa Corporal (IMC) elevado (≥ 30 kg/m² para obesidade ou ≥ 27 kg/m² quando associado a comorbidades como hipertensão).

Com informações do MS e SBD

 

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