Neste 26 de junho, Dia Nacional do Diabetes, o Brasil enfrenta um cenário de saúde pública que exige atenção redobrada. Os dados são alarmantes: o país registra cerca de 17 milhões de adultos vivendo com diabetes, um número que coloca o Brasil entre as nações com maior prevalência da doença no mundo. Grande parte desse cenário está ligada ao avanço da obesidade, que hoje atinge seis em cada dez brasileiros, evidenciando uma correlação direta entre as duas condições, que são os principais pilares da síndrome metabólica.
O cenário do tratamento da obesidade e do diabetes no Brasil vive um momento de transformações significativas com a expiração da patente da semaglutida, substância presente em medicamentos que se tornaram famosos nos últimos dois anos no Brasil, como os injetáveis Ozempic e Wegovy e o comprimido oral Rybeslsus. Isso deve representar não apenas uma mudança técnica no setor farmacêutico, mas um divisor de águas para milhares de pessoas.
Com a abertura do mercado para novos fabricantes, a expectativa do setor é que a maior competitividade pressione a redução dos custos das chamadas “canetas emagrecedoras”, tornando essas terapias mais acessíveis à parcela da população que, até então, encontrava no alto preço uma barreira intransponível – os custos variam de acordo com a marca e da dosagem, podendo chegar a 4 mil reais por mês.
A entrada de novos produtos produzidos por via de síntese química amplia as opções terapêuticas disponíveis. A chegada de novos competidores ao mercado, como o Ozivy, já começa a impactar o bolso do consumidor. Com preços de lançamento que podem variar conforme a dosagem e programas de desconto oferecidos pelos laboratórios, o custo mensal do tratamento tem se tornado mais competitivo do que era quando o Ozempic detinha a exclusividade.
Ainda assim, o tratamento exige planejamento financeiro e, acima de tudo, o uso exclusivo de produtos aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O SUS como laboratório de impacto clínico
Enquanto o mercado privado se ajusta à nova realidade de preços, o poder público também se movimenta para entender o papel dessas medicações na saúde coletiva. O Ministério da Saúde deu um passo importante ao anunciar, nesta sexta-feira (26/6), o início do uso do medicamento no Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre (RS), focado no acompanhamento de 250 pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).
Batizado de Real-Bari, o projeto-piloto tem como objetivo avaliar, ao longo de dois anos, a efetividade e o custo-benefício do tratamento na prática assistencial brasileira. Este estudo é fundamental para que, futuramente, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) possa avaliar a viabilidade de oferecer essas terapias à base de GLP-1 de forma ampliada e gratuita à população.
Durante a cerimônia, um paciente recebeu a primeira aplicação do medicamento, marcando o início da oferta dessa terapia em um hospital federal. No total, serão contemplados 250 pacientes do SUS já acompanhados pelo hospital com obesidade grave ou associada a outras morbidades, como comprometimento cardíaco, além de indicação para cirurgia bariátrica.
Esse público reflete o perfil assistencial da unidade, na qual 91% dos pacientes com obesidade apresentam a forma mórbida da doença. Dentre esses, apenas 47% possuem condições clínicas para realização de cirurgia bariátrica. A comorbidade mais prevalente nesse grupo é a hipertensão arterial.
O Brasil está sendo pioneiro na utilização desse medicamento no sistema público de saúde. Estamos estimulando estudos nessa tecnologia para que o país se aprimore, cada vez mais, da sua produção e oferta de forma segura. Nesse primeiro momento, ela é muito importante para o diabetes e obesidade, mas pode se estender também a outras doenças crônicas e até mesmo para tratamento de cânceres”, disse o ministro Antonio Padilha.
Para o estudo, denominado Real- Bari, foi implementado o protocolo de pesquisa para uso da semaglutida em pacientes com obesidade, elaborado pelo Ministério da Saúde em parceria com a equipe técnica do GHC, com o objetivo de garantir maior segurança aos participantes e estabelecer diretrizes para o acompanhamento contínuo com médicos especialistas da unidade.
Para mais detalhes sobre a iniciativa, acesse o comunicado oficial do Ministério da Saúde.
Segurança em primeiro lugar: o posicionamento das entidades médicas
A expansão deve caminhar lado a lado com a segurança do paciente. Em nota conjunta, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) enfatizam que, embora a concorrência seja bem-vinda para fomentar o acesso, o rigor regulatório é inegociável.
As entidades reforçam que toda e qualquer nova versão do medicamento deve passar pela avaliação da O objetivo é assegurar que o benefício da redução de preços não comprometa a qualidade, a segurança e a eficácia que os pacientes necessitam. A comercialização de versões manipuladas ou produtos sem registro regulatório é veementemente repudiada por entidades, que alertam para os riscos graves à saúde que esses produtos desconhecidos podem trazer.
Na nota oficial, divulgada esta semana, as entidades que representam os médicos que atuam com tratamentos para diabetes e obesidade destacam:
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Confiança na Anvisa: A disponibilidade de novas versões do medicamento no mercado brasileiro ocorre sob avaliação e autorização da Anvisa, órgão responsável por garantir padrões de qualidade, segurança e eficácia.
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Repúdio a produtos sem registro: As sociedades médicas manifestam preocupação e repudiam a utilização de formulações manipuladas ou produtos que não passaram pelo rigoroso processo de avaliação regulatória. O uso de substâncias sem a devida aprovação da agência expõe os pacientes a riscos significativos.
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Cuidado profissional: O acesso a tratamentos eficazes deve estar sempre vinculado ao uso de medicamentos aprovados pelas autoridades sanitárias competentes, garantindo que o progresso terapêutico chegue à população de forma responsável.
O posicionamento completo pode ser conferido no site da Sociedade Brasileira de Diabetes.
A jornada da semaglutida no país
A semaglutida, uma molécula que imita o hormônio GLP-1 — responsável por regular a glicose e promover a saciedade —, chegou ao Brasil primeiramente por meio do Ozempic, aprovado pela Anvisa exclusivamente para o controle do diabetes tipo 2.
Com o tempo, o benefício da perda de peso associado à medicação, aliado ao lançamento do Wegovy (especificamente aprovado para o tratamento da obesidade), consolidou as chamadas “canetas emagrecedoras” no topo das discussões sobre saúde metabólica.
Em março de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou a extensão de patente à Novo Nordisk para a semaglutida, abrindo caminho para a entrada de versões genéricas no Brasil. Em maio de 2026, a Anvisa marcou um novo capítulo ao aprovar o primeiro medicamento à base de semaglutida sintética no país, o Ozivy.
Diferente da versão biológica original, a versão sintética abre caminho para uma maior concorrência, o que é fundamental para a redução de custos e a democratização do acesso para aqueles que buscam tratamento, mas enfrentam barreiras financeiras.
Quem pode usar e por que o acompanhamento médico é vital
Embora as “canetas” sejam amplamente comentadas, é essencial reforçar que não são produtos de venda livre. Desde abril de 2025, a Anvisa passou a exigir a retenção de receita médica para a dispensação de canetas GLP-1 em farmácias, medida que visa coibir o uso sem prescrição e representa uma barreira relevante à expansão do canal de venda livre.
Além de exigir prescrição médica, os medicamentos à base de GLP-1 devem ser utilizados como adjuvantes à mudanças no estilo de vida. O acompanhamento é crucial porque, sem dieta estruturada e exercícios físicos, a perda de peso pode incluir massa muscular, e o abandono do tratamento sem mudança de hábitos pode levar ao reganho de peso.
Atualmente, o uso dos medicamentos é estritamente indicado para:
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Diabetes tipo 2: Para adultos insuficientemente controlados por dieta e exercícios.
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Obesidade e sobrepeso: Pacientes com Índice de Massa Corporal (IMC) elevado (≥ 30 kg/m² para obesidade ou ≥ 27 kg/m² quando associado a comorbidades como hipertensão).
Com informações do MS e SBD





