Choro frequente, vômito, irritabilidade e cólica. Para muitas famílias, esses sinais parecem fazer parte do desenvolvimento natural dos primeiros meses de vida do bebê. No entanto, em muitos casos, essas manifestações podem indicar algo além do esperado: a Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV), a alergia alimentar mais frequente na infância e que ainda apresenta desafios importantes para o diagnóstico precoce.
De acordo com o posicionamento conjunto da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) e da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a alergia alimentar é um problema de saúde pública global, acometendo de 8% a 10% das crianças e adultos. No caso específico da APLV, dados da Organização Mundial de Alergia (WAO) apontam que a condição afeta entre 2% e 3% das crianças menores de 3 anos no mundo, enquanto pesquisas nacionais indicam que esse índice pode chegar a até 5,4% dos pequenos.
O grande entrave para a identificação rápida é a sobreposição de sintomas com o desenvolvimento normal do lactente. “Muitos sinais da APLV acabam sendo confundidos com desconfortos típicos da infância, como cólicas e refluxo fisiológico. Isso faz com que algumas crianças passem meses sem investigação adequada, prolongando o sofrimento da família e aumentando o risco de complicações nutricionais”, explica a médica patologista clínica do DB Diagnósticos, Dra. Maria Gabriela de Lucca Oliveira.
Os múltiplos sinais e o impacto no dia a dia
A APLV surge quando o sistema imunológico da criança reage às proteínas presentes no leite de vaca, interpretando-as como uma ameaça e tentando combatê-las. Essa resposta pode se manifestar de forma imediata (minutos após o consumo) ou tardia (horas ou dias depois), afetando diferentes órgãos e sistemas.
Uma pesquisa nacional realizada em 2020 pela Editora Abril em parceria com a Danone Nutricia, com 617 pais de crianças com APLV, revelou os sintomas mais relatados:
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Dermatite e problemas de pele: 70%
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Cólicas intensas: 61%
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Problemas intestinais (gases, distensão): 60%
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Problemas respiratórios (congestão nasal): 59%
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Refluxo ou vômitos recorrentes: 56%
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Diarreia ou constipação: 56%
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Sangue nas fezes: 45%
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Dificuldade de ganho de peso e crescimento
“A diversidade de sintomas confunde os pais e até mesmo os profissionais de saúde. Como as reações podem aparecer dias após a ingestão, a associação direta com o alimento se torna difícil, exigindo uma investigação cuidadosa baseada na frequência e na intensidade das manifestações”, destaca a Dra. Ana Grubba, pediatra e diretora médica da Danone.
A mesma pesquisa traçou um retrato preocupante do desconhecimento e da jornada dos pacientes: 85% dos pais não sabiam o que era APLV antes do diagnóstico, e mais da metade precisou consultar três ou mais médicos até obter uma resposta definitiva.
O caminho do diagnóstico: a importância do teste clínico
Diferentemente de outras condições, a APLV não é confirmada por um único exame laboratorial. A análise laboratorial serve como um aliado importante para o médico avaliar a resposta imunológica e diferenciar a alergia de outros problemas gastrointestinais, mas o padrão-ouro do diagnóstico é estritamente clínico.
O processo envolve uma dieta de exclusão, na qual a proteína do leite de vaca é completamente retirada da alimentação da criança (ou da mãe, caso o bebê esteja em aleitamento materno exclusivo) por algumas semanas. Se houver melhora dos sintomas, o médico realiza o teste de provocação oral, reintroduzindo o alimento de forma supervisionada. Caso os sintomas retornem, o diagnóstico é confirmado.
Atenção: A APLV pode ocorrer em bebês em aleitamento materno exclusivo porque as proteínas do leite de vaca consumidas pela mãe são transferidas pelo leite materno. Nesses casos, a mãe deve fazer a dieta de exclusão, mas pode e deve continuar amamentando sob orientação profissional.
Mitos comuns: APLV não é intolerância à lactose
A desinformação ainda é um dos principais obstáculos para o manejo correto da alergia. Especialistas alertam para o perigo do autodiagnóstico e da retirada inadequada de alimentos sem supervisão, o que pode causar graves deficiências nutricionais tanto no bebê quanto na mãe lactante.
Dentre as principais confusões do público, destacam-se:
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Confundir APLV com Intolerância à Lactose: São condições totalmente diferentes. A APLV é uma reação imunológica à proteína do leite. A intolerância é uma dificuldade digestiva relacionada ao açúcar do leite (a lactose), causada pela baixa produção da enzima lactase. Produtos “zero lactose” ou leites sem lactose mantêm as proteínas intactas e são perigosos para quem tem APLV.
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Achar que a condição é permanente: O prognóstico para a APLV é majoritariamente positivo. Segundo dados da European Society of Paediatric Gastroenterology Hepatology and Nutrition (ESPGHAN), mais de 75% das crianças desenvolvem tolerância natural à proteína do leite até os 3 anos de idade, e 90% superam a condição até os 6 anos.
Campanha Nacional de Conscientização
Para combater a desinformação e encurtar a jornada das famílias em busca de respostas, a ASBAI e a SBP promovem, entre os meses de maio e junho, uma ampla campanha nacional de conscientização sobre a APLV. A iniciativa visa disseminar informações acessíveis para pais, educadores e profissionais de saúde. Orientações, materiais educativos gratuitos e suportes para inclusão escolar podem ser acessados na plataforma oficial da campanha.
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