O forte vendaval que atingiu o Rio de Janeiro na tarde desta quarta-feira (29/7) deixou um rastro de destruição, mortes e muitos transtornos. O município entrou em estado de alerta após registrar rajadas de vento de até 105 km/h na estação meteorológica do Galeão. O fenômeno – que pegou muita gente desprevenida, inclusive as autoridades – causou enormes estragos e assustou a população, antes mesmo da chegada anunciada do Super El Niño.

São considerados vendavais ventos com mais de 80 km/h. A medição é feita pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) desde 2002.  Para especialistas, o que aconteceu no Rio de Janeiro derruba de vez o mito de que ventos são coisas normais na natureza.  Mudanças climáticas deixam de ser vistas como ameaça distante e passam a integrar o cotidiano da população, que cobra maior planejamento e capacidade de resposta do país.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Aerah House revela que os brasileiros já não discutem se a crise climática existe, mas sim se o país está preparado para enfrentá-la. O levantamento “O Brasil de Agora – A Vida Sob Novas Condições” ouviu 2.000 pessoas com mais de 18 anos em todas as regiões brasileiras, em abril de 2026, com margem de erro de 2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

Os dados mostram que 82% da população acredita que eventos como ondas de calor, enchentes e secas já afetam a vida no país, enquanto 54% afirmam ter sofrido impactos diretos de problemas ambientais ou climáticos nos últimos anos. Além disso, 72% avaliam que o Brasil não cuida do meio ambiente como deveria.

Para Fernanda Faria, sócia-fundadora do Instituto de Pesquisa Aerah House, os resultados demonstram uma mudança estrutural na percepção pública:

Os brasileiros não estão falando apenas sobre algo que pode acontecer no futuro. Eles estão falando sobre enchentes, secas, ondas de calor e outros eventos que já afetam seu cotidiano. A discussão deixou de ser sobre a existência da crise climática. O debate agora é sobre seus impactos e sobre a capacidade do país de enfrentá-los.”

O fator El Niño e a sensação de instabilidade

A percepção de vulnerabilidade ganha ainda mais relevância com o acompanhamento, por parte de especialistas, da possibilidade de formação de um novo episódio do El Niño. O fenômeno climático está associado ao aumento das temperaturas globais e pode provocar secas severas em algumas regiões, aumento de chuvas em outras e maior incidência de eventos extremos.

Segundo Fernanda Faria, a conjuntura climática se soma a um cenário em que a população já vive sob forte pressão financeira, emocional e social:

Quando surge a possibilidade de novos eventos climáticos extremos, isso tende a reforçar a percepção de instabilidade. Quanto maior a sensação de imprevisibilidade, maior tende a ser a busca por segurança, planejamento e proteção.”

Impacto econômico, saúde e qualidade de vida

O estudo aponta que o clima deixou de ser uma pauta restrita ao meio ambiente, passando a influenciar diretamente a economia, a renda e o bem-estar das famílias. A alta no custo de vida e os reflexos na produção agrícola, nos transportes urbanos e na saúde pública — como o agravamento de problemas respiratórios e cardiovasculares gerados por ondas de calor — transformam a pauta ambiental em uma questão central de segurança humana.

Para a especialista, o principal alerta é que o desafio atual não reside mais em conscientizar sobre a existência do problema, mas em estruturar respostas institucionais firmes. A sociedade reconhece os efeitos das mudanças climáticas e, simultaneamente, cobra expectativas crescentes por planejamento, prevenção e adaptação.

Mais quatro mortes sob investigação

Na capital e Região Metropolitana, os ventos fortes derrubaram árvores, telhados, caixas d´água, muros e muitas outras instalações antes consideradas seguras. Os trens e o metrô paralisaram suas atividades. Houve registros de destelhamentos e queda de caixas d’água. O balanço oficial confirma duas mortes decorrentes da queda de um muro em Santa Teresa, na Região Central, 

O corpo de um homem que estava desaparecido no mar com o naufrágio de uma embarcação, no litoral entre Tarituba e Mambucaba, em Angra dos Reis, foi localizado nesta quinta-feira pelo Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro. No total, os bombeiros fizeram 31 salvamentos.

A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga se três mortes por descarga elétrica dentro de uma casa, na madrugada desta quinta-feira (30), têm relação com a ventania que atingiu o estado na tarde de quarta-feira (29). Uma mulher sobreviveu, e o quadro dela é grave. Eles estavam em uma casa na Rua Maria da Fé, na Cidade de Deus, comunidade da Zona Sudoeste.

Cortes de energia paralisam a cidade

A corporação registrou um total de 290 ocorrências relacionadas ao vendaval. A maior parte delas cerca de 150, foram cortes de árvores, mas houve também 50 combates a incêndios em vias públicas, principalmente por causa de postes de energia.

No Rio de Janeiro, os cortes de energia elétrica atingiram quase todos os bairros. Cerca de 524 mil imóveis ficaram sem luz em todo o estado. Os bairros mais afetados na capital incluem Tijuca, Campo Grande, Bangu, Jacarepaguá e Botafogo. 

De acordo com a concessionária Light, 44 árvores caíram sobre a rede elétrica e cortaram o abastecimento de 370 mil clientes. Além do apagão generalizado – até o fim da manhã desta quinta-feira (30), ainda havia mais de 400 mil sem luz no estado -, o vendaval provocou o caos nos transportes públicos.

A circulação de trens e metrô foi totalmente interrompida por falta de energia, forçando passageiros a caminharem pelos trilhos no horário de pico. O Aeroporto Santos Dumont suspendeu as operações e o Aeroporto do Galeão operou com desvios de voos comerciais. Mais de 200 árvores caíram apenas na capital fluminense, interditando ruas, destruindo semáforos e danificando a rede elétrica.

Vento chega a 125 km/h e provoca ao menos duas mortes em São Paulo

Inmet emitiu alerta de perigo para São Paulo e Rio de Janeiro
São Paulo - 29/07/2026 - Ventos fortes em São Paulo derrubou várias arvores. Foto: Defesa Civil.
© Defesa civil.

Os fortes ventos que atingiram nesta quarta-feira (29) o estado de São Paulo chegaram a 124,9 km/h e causaram, ao menos, duas mortes. De acordo com a Defesa Civil estadual, os óbitos foram registrados em Santos e em Cesário Lange. No início da tarde, o órgão emitiu alerta severo para rajadas de vento na capital paulista, Grande SP e para o litoral paulista.

A ventania foi mais acentuada nos municípios de Itaporanga e Itaí (124,9 km/h), Taquarituba (117 km/h), Arandu (113,1 km/h), Paranapanema (113 km/h) e Itanhaém (111 km/h). Santos registrou 83,7 km/h e Cesário Lange, 65,5 km/h.

Na capital paulista, foram registrados ventos de 75,3 km/h. Segundo o Corpo de Bombeiros, até as 17h21, foram efetuadas 39 chamadas sobre quedas de árvores. No Aeroporto de Congonhas e no Aeroporto Campo de Marte, a velocidade chegou a 70 km/h.

São Paulo (SP), 22/09/2025 - Fortes chuvas e ventania derrubaram árvore na rua Dr Carvalho de Mendonça, na Barra Funda. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Fortes chuvas e ventania derrubaram árvore em São Paulo – Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um alerta laranja para ventos costeiros fortes em todo o estado de São Paulo e para toda região do Rio de Janeiro ao sul de Cabo Frio. São esperados ventos nas regiões litorâneas e movimentação de dunas de areia sobre construções na orla.

O alerta laranja é o grau intermediário dentre os três avisos emitidos pelo instituto: amarelo, para perigo potencial; laranja, para perigo; e vermelho, para grande perigo. O alerta é válido até o fim da noite desta quarta-feira.

Ventos cada vez mais fortes

Até 2007, os registros de vendavais como o que ocorreu no Rio de Janeiro eram raros, não chegavam a dez por ano; a partir daí, passaram a ser feitos com mais frequência: 31 em 2012 e em 2015; 36 em 2017; Em 2023, foram 51 e, de janeiro a outubro de 2024, o Inmet já registrou 33 vendavais – mais da metade deles com ventos acima de 100 km/h.

Ventos cada vez mais fortes e frequentes estão provocando um prejuízo bilionário. Os vendavais afetaram 10 milhões de pessoas no Brasil desde 2013 e causaram mais de R$ 12 bilhões em prejuízos, conforme dados da CNM – Confederação Nacional de Municípios, divulgados em novembro de 2025.

O fenômeno no Rio de Janeiro ocorreu devido ao choque abrupto entre uma massa de ar quente e a chegada rápida de uma frente fria (gradiente de pressão). Segundo Suellen Araujo, do Inmet), o evento foi provocado pela formação de uma zona de baixa pressão atmosférica na região, associada ao deslocamento do ar nas camadas superiores da atmosfera, chamado de “escoamento”.

A conjunção desses fatores auxiliou realmente na formação dessa instabilidade, que trouxe essas rajadas bem intensas. Inclusive, tivemos rajadas em torno de 100 km/h em ambos os estados”, explicou a meteorologista.

 Marcelo Seluchi, coordenador geral de Operações e Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), destaca que as rajadas de vento se formaram a partir de uma linha de estabilidade.

É uma linha de tempestades alinhadas, como o nome indica, uma ao lado da outra, que se formaram sobre uma frente fria que estava na Região Sul do Brasil. Essa linha de tempestades formou o que se chama uma frente de rajada, que foi a ventania que nós sentimos ontem à tarde”, esclareceu.

Ele explica que a frente de rajada avança mais rápido que a linha de nuvens da tempestade e que a tempestade, em si, nem ocorreu.

Aqui onde nós estamos, no Vale do Paraíba [em São José dos Campos-SP], choveu mais no final da tarde e início da noite. Choveu um pouco, que foi o que restou daquela linha de tempestades que foi dissipando conforme elas foram avançando para o norte. Elas começaram lá no Paraná, Santa Catarina, mas, avançando para o norte, elas foram dissipando”, disse Seluchi.

Meteorologistas dizem que não é possível associar ventanias ao El Niño

Rio de Janeiro - 29/07/2026 - ventania causa estragos no Rio. Foto Tânia Rêgo/Agência Brasil
© Tânia Rêgo/Agência Brasil

Tanto a meteorologista do Inmet quanto o coordenador do Cemaden avaliam que não é possível, ainda, associar o evento de quarta-feira ao El Niño, um fenômeno recorrente que consiste no aquecimento das águas do Oceano Pacífico, de tempos em tempos, e que provoca alterações no clima global.

Neste ano, espera-se um El Niño mais intenso. Segundo a Administração Atmosférica e Oceânica Nacional dos Estados Unidos (Noaa), há uma probabilidade grande de que nesta temporada o El Niño seja o mais forte dos últimos 76 anos.

Teria que fazer uma avaliação um pouco mais minuciosa para poder verificar se [os ventos fortes de Rio e São Paulo] tem alguma coisa relacionada a esse fenômeno”, afirma Suellen Araujo.

Segundo Seluchi, é difícil estabelecer uma relação direta dos ventos fortes com o El Niño.Ele esclarece, entretanto, que a linha de tempestades que provocou a ventania se formou a partir de uma frente estacionária que estava sobre o sul do Brasil.

“A frequência com que essas frentes estacionárias estão atuando na Região Sul já tem a ver com o fenômeno do El Niño. As frentes estão se tornando estacionárias com mais frequência, está chovendo com mais frequência e mais volume na Região Sul. E a linha de instabilidade é um efeito secundário, digamos, da presença dessas frentes na região sul”, disse.

Seluchi ressalta, no entanto, que a linha de instabilidade e as rajadas de vento são fenômenos que podem acontecer em qualquer época do ano.

Acontece também em anos que não são do El Niño. A relação [das rajadas de vento] com o El Niño é mais difícil de estabelecer. Eu acho [que tem], mas é difícil provar que essa uma relação indireta”.

O meteorologista Thiago Sousa, doutorando da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), entende que é preciso ter estudos mais profundos para encontrar uma possível vinculação entre a ventania e o El Niño.

Não tem como afirmar e nem contrariar essa correlação, que precisa ser estudada para depois, mais a frente, para se relacionar com o Super El Niño”, disse.

A Defesa Civil emitiu um novo alerta para a possibilidade de ventos moderados a fortes na Costa do Sol e Região Metropolitana. A recomendação atual é permanecer em locais protegidos, evitar abrigar-se embaixo de árvores ou coberturas metálicas frágeis e não realizar atividades marítimas.
Participe do nosso canal no WhatsApp! Fique por dentro das principais notícias sobre saúde, bem-estar e sustentabilidade. Clique aqui para entrar no canal oficial do Portal Vida e Ação.

Com informações da Agência Brasil

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *