Outono com cara de verão. Mas com caqui, goiaba, pitaya, araticum… Estamos no final de abril e o calor segue intenso. E com ele precisamos conviver com os mosquitos, entre outros bichinhos indesejáveis. Pelo menos neste ano a dengue deu uma trégua por esses arredores. Mas com as temperaturas elevadas, mais insetos, entre outros vetores, andam nos rondando – já tive várias picadas nas pernas e nos braços.

Como todo mundo que tem uma percepção aguçada já se deu conta, estamos imersos em situações de plena metamorfose, nas quais os riscos aumentaram com a emergência climática batendo à nossa porta. E quanto mais quente e desequilibrado o planeta fica, mais temos que conviver com bichinhos indesejados, como animais peçonhentos, mosquitos, entre outros vetores que trazem problemas de vários tipos.

Realmente, somos presas fáceis para eles, que são mais resilientes e conseguem se esconder bem dentro de casa, debaixo de móveis, atrás de cortinas, em qualquer cantinho fora do nosso ângulo de visão. No dia a dia, há tantos estímulos que disputam nossa atenção que alguns riscos muitas vezes passam despercebidos.

Com frequência, sou acionada por pessoas próximas e familiares para tratar de assuntos desse tipo com meu marido. Ele trabalhou muitos anos com pesquisa no meio do mato e na Vigilância em Saúde do Município, principalmente no combate à dengue, entre outras doenças provocadas por vetores como insetos, roedores, moluscos etc.

O perigo dos animais peçonhentos

Tempos atrás aconteceu uma situação inusitada, para não dizer inacreditável, com um amigo, que não considero um cara desatento. Ele fica bastante tempo na frente das telas, não é daqueles de mexer em plantas ou de viver em antros cheios de coisas velhas, com teias de aranha. É um homem urbano, que também não é de fazer trilhas, muito menos se aventurar em meio à natureza, ir atrás de ninhos, passarinhos ou pegar frutas em árvores.

Pois um dia, o cara estava sentado em uma cadeira na sacada do seu apartamento, em um bairro supercentral e urbanizado de Porto Alegre. Olhou sua mão e viu um furinho diferente no seu dedo. Era uma bolhazinha que parecia ter estourado; no outro dia, havia deixado seu dedo indicador inchado.

Vendo aquilo, procurou uma emergência e foi ao Hospital Ernesto Dorneles. Lá, foi atendido, mas não deram muita importância para o furinho. Ou seja, ele tinha sido picado por algum bicho, mas o médico de plantão não se ligou em levantar hipóteses sobre o problema.

Dois dias depois, o dedo dele começou a ficar preto. Ele voltou à mesma emergência e, dessa vez, a médica que lhe atendeu receitou um antibiótico que parecia que ia resolver o caso. O remédio era específico para picadas de peçonhentos como aranhas. Só que, mesmo com esse medicamento, o dedo continuava com um péssimo aspecto, dando sinais de que o negócio estava ficando mais sério.

Então, ele acabou procurando seu dermatologista, que o atendeu em um encaixe, numa sexta-feira. Assim que o médico o viu, mandou-o direto baixar hospital. E sentenciou: “Vou ter que te internar porque podes perder esse dedo, e se o veneno se espalhar, tu corres até risco de vida”.

Meu amigo não estava acreditando. Achou hilária a situação. Entrou numa sexta e saiu numa segunda da Santa Casa, depois de uma série de potentes antibióticos na veia, pois a medicação anterior não tinha adiantado, devido à gravidade do quadro.

Depois da alta do hospital, ficou em tratamento por mais uns 20 dias. Hoje, depois de quase dois anos do acontecido, ele ainda guarda no dedo a cicatriz desse episódio.

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O que fazer diante de acidentes com animais peçonhentos?

Lembrei dessa história porque recentemente um amigo dos tempos de acampamento nos Aparados da Serra colocou num grupo de zap que o governo federal conta com uma área no site do SUS com informações sobre cuidados e o que fazer diante de acidentes com animais peçonhentos e até com relação a queimaduras com mãe-d’água ou caravelas. Vale muito conferir – veja aqui.

Boa parte das pessoas não tem a menor ideia do que fazer em caso de se machucar com bichos desse tipo. É muito importante que se verifique se há algum inseto ou aranha dentro de sapatos e botas antes de calçá-los, assim como várias outras medidas que o site do Ministério da Saúde sugere.

A plataforma e o APP Animais Peçonhentos, iniciativas da Coordenação-Geral de Vigilância de Zoonoses e Doenças de Transmissão Vetorial do Ministério da Saúde (CGZV/DEDT/SVSA/MS) em parceria com a Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI), oferecem muitas informações para você se proteger dos acidentes por animais peçonhentos.

Nesse site, você fica sabendo sobre os animais peçonhentos de importância em saúde, incluindo características e distribuição geográfica. Tem também orientações detalhadas sobre prevenção de acidentes e procedimentos de primeiros socorros em caso de emergência.

Além disso, dentro do APP Animais Peçonhentos, que está integrado ao “Meu SUS Digital” (anteriormente Conecte SUS), há informações sobre prevenção, primeiros socorros e localização de hospitais de referência para atendimento soroterápico.

É um tipo de conhecimento que todo mundo precisa ter noção. Pois, mesmo que tenhamos avançado tanto em questões tecnológicas, não podemos perder de vista os perigos que podem virar grandes problemas.

Com ajuda de IA, morador de SP cria plataforma para ajudar vítimas de peçonhentos

Ferramenta informa quais hospitais estão oficialmente habilitados para armazenar e aplicar soros antiveneno

Morador da capital paulistana, Eduardo Cruz tem 44 anos, é empreendedor e está montando seu próprio negócio. É pai de dois meninos, um de quatro e outro de seis anos.  Justamente por ser pai, ficou sensibilizado com a morte doBernardo de Lima Mendes, de 3 anos, dias atrás.

O garoto foi atendido em um hospital em Conchal (SP), só que não resistiu após ser picado por um escorpião. Tudo porque a instituição onde o menino foi levado não dispunha do soro necessário para o seu caso.

Depois de ver uma notícia de um menino de 3 anos que faleceu por uma picada de escorpião devido ao fato de ter sido levado a um hospital que não tinha soro, resolvi criar o site. Sou formado em administração de empresas, não sei programar, fiz o site com ajuda de uma IA”, diz Eduardo.

Criada de forma totalmente voluntária, a iniciativa busca agilizar o atendimento de vítimas de acidentes com animais peçonhentos. Usando dados do SUS/Ministério da Saúde e a localização do celular, o site “SoroJá“ indica de forma simples e rápida qual hospital de referência mais próximo. A ferramenta informa quais hospitais estão oficialmente habilitados para armazenar e aplicar soros antiveneno.

É bem simples, mas funciona. Testem e, por favor, ajudem a divulgar.  O espaço é muito útil porque, ao entrar, se você der a sua localização, ele indicará a unidade mais próxima de onde você está e a mais adequada conforme o tipo de acidente e a sua localização (aqui em Porto Alegre, o HPS é o lugar mais indicado para isso).

Em conversa pelo telefone, Eduardo demonstrou estar surpreso com a repercussão da sua iniciativa, pois apenas postou sua mensagem sobre o site no grupo do condomínio onde mora e da família. A mensagem chegou a ser modificada no começo, há versões de que o autor do site seria um médico, outra de um colega de turma… (Ou seja, isso serve para lembrar que é preciso muito cuidado para passar para frente alguma mensagem).

Eduardo conta que tem recebido centenas de mensagens por dia devido à plataforma, que está no ar há cerca de uma semana e tem recebido muita procura. Segundo ele, até quarta-feira (22 de abril), o site já tinha milhares de acessos.

Eduardo confessou que ficou tocado com tantos retornos de pessoas que não sabiam da importância desse tipo de informação, inclusive bombeiros e policiais. O que o Eduardo mais quer agora é que algum órgão oficial, como o Ministério da Saúde ou outra instituição sanitária, receba a plataforma como uma doação e o mantenha atualizado. “Não quero nada em troca”, sentenciou.

Texto editado a partir de matérias originalmente publicadas no site Sler – leia aqui e também aqui.

 

 

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