A incorporação de hábitos saudáveis à rotina de quem venceu o câncer ganhou um forte argumento financeiro e assistencial na reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO 2026), em Chicago, nos Estados Unidos. Uma análise econômica inédita apresentada no congresso revelou que um programa estruturado e supervisionado de exercícios físicos possui maior custo-efetividade no tratamento do câncer colorretal (intestino) do que a simples distribuição de materiais informativos. O estudo demonstrou que a atividade física regular, além de prolongar a vida, gera economia real para os sistemas de saúde a longo prazo.

O trabalho revisitou os dados do histórico ensaio clínico de fase 3 Challenge, que acompanhou 889 pacientes com câncer de intestino submetidos a cirurgias e sessões de quimioterapia. Metade dos participantes seguiu um programa de treinos de três anos supervisionado por profissionais, enquanto a outra metade recebeu apenas recomendações gerais de bem-estar. Ao final, a taxa de sobrevivência foi de 90,3% no grupo ativo contra 83,2% no grupo sem supervisão, consolidando uma redução expressiva de 37% no risco de morte para quem se exercitou de forma guiada.

Alerta epidemiológico e a realidade dos custos em saúde

O câncer colorretal é o segundo tumor mais frequente entre homens e mulheres no Brasil. Segundo dados epidemiológicos do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o país enfrenta uma escalada preocupante da doença: a incidência cresceu cerca de 35% na última década, saltando de 34.280 diagnósticos em 2016 para uma estimativa de 53.810 novos casos anuais neste ano de 2026.

Diante do crescimento de casos e da pressão financeira sobre os orçamentos hospitais e governos, a nova análise mensurou os impactos financeiros diretos no sistema público em um horizonte de cinco a dez anos. De acordo com a médica Maria Ignez Braghiroli, oncologista especializada em tumores do trato gastrointestinal e integrante do comitê científico da Oncologia D’Or, os achados mostram que, embora montar e supervisionar uma estrutura de treinos exija um investimento inicial maior, o programa se paga e se torna altamente vantajoso com o passar do tempo.

Os dados detalhados na Asco 2026 apontaram que:

  • No cenário de 5 anos: O programa estruturado de treinos (com custo de execução de 4.327 dólares por paciente) mostrou-se 179 dólares mais barato do que as despesas geradas com a confecção e logística de livretos e materiais educativos, apresentando maior ganho em expectativa de vida.

  • No cenário de 10 anos: A vantagem econômica do exercício supervisionado se consolidou de forma ainda mais robusta, gerando uma economia de 2.528 dólares por indivíduo em comparação à estratégia puramente informativa.

Exercício remoto melhora bem-estar no câncer avançado

Os benefícios da atividade física não se restringem ao câncer de intestino e também fazem a diferença em tumores em estágio avançado. Um estudo prospectivo brasileiro, liderado pelo oncologista Paulo Bergerot, da Oncoclínicas, e apresentado originalmente em abril deste ano, no simpósio de cânceres geniturinários (ASCO GU), avaliou o impacto dos treinos em 75 pacientes com tumores metastáticos de próstata, rim e bexiga que iniciavam o tratamento sistêmico.

Durante 12 semanas, os pacientes participaram de um programa totalmente digital e remoto de exercícios supervisionados, com planos personalizados que incluíam entre três e cinco horas semanais de atividades aeróbicas e de resistência, além de sessões virtuais com um fisiologista. Os resultados mostraram que a maior adesão ao programa esteve diretamente associada a uma redução acentuada da fadiga — o cansaço extremo que é um dos sintomas mais frequentes do tratamento —, o que se traduziu em uma melhora significativa na qualidade de vida dos pacientes.

Os resultados indicam que um programa estruturado de exercícios, totalmente remoto e supervisionado, pode melhorar a qualidade de vida de pacientes com cânceres geniturinários avançados, e que a redução da fadiga parece ser um dos principais mecanismos por trás desse benefício”, afirma o Dr. Paulo Bergerot. A estratégia digital surge como uma excelente alternativa para ampliar o acesso de quem enfrenta limitações de transporte ou mora longe de centros especializados.

O desafio do acesso entre a rede pública e privada

Apesar de todas as evidências científicas acumuladas, a incorporação dos exercícios na rotina do tratamento oncológico ainda enfrenta grandes barreiras. Um levantamento internacional também liderado pelo Dr. Paulo Bergerot, envolvendo 454 médicos de 21 países da América Latina, expôs uma forte desigualdade na recomendação médica entre os setores público e privado de saúde.

O levantamento apontou que os médicos da rede pública avaliam bem menos os hábitos de atividade física dos pacientes (53% contra 82% na rede privada) e fazem menos encaminhamentos para programas específicos (36% contra 72% no setor privado). Entre os principais gargalos apontados pelos profissionais do SUS estão a falta de locais adequados para encaminhamento (86%), os efeitos colaterais dos tratamentos (66%) e a falta de capacitação para prescrever treinos de forma segura (63%).

Por muito tempo se acreditou que pacientes com câncer deveriam ficar em repouso. Mas hoje sabemos que o exercício, quando bem orientado, é seguro e traz benefícios mesmo durante o tratamento. Integrar a atividade física ao cuidado oncológico não é um luxo, é uma estratégia baseada em evidência para melhorar desfechos e a dignidade do paciente”, conclui o oncologista.

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Com informações de Assessorias

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