No Brasil, a chegada de uma nova vida é, na maioria das vezes, marcada pelo agendamento de uma cirurgia. Quase 6 em cada 10 partos realizados o Sistema Único de Saúde (SUS) são cesarianas — um índice que ultrapassa os 85% quando olhamos para a rede privada de saúde.

Embora seja um procedimento salvador de vidas quando bem indicado, a cultura do parto cirúrgico eletivo, agendado antes mesmo de a mulher entrar em trabalho de parto, esconde um drama silencioso: em gestações de baixo risco, o excesso de intervenções triplica o risco de morte materna e expõe os recém-nascidos a complicações graves.

Para mudar essa realidade e entender o comportamento dessas estatísticas, uma cooperação científica inédita entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade Stanford, na Califórnia (Estados Unidos), avança para investigar os impactos da morbidade materna grave. O objetivo é cruzar dados epidemiológicos para embasar políticas públicas que devolvam o protagonismo do nascimento às mulheres e combatam as profundas desigualdades sociais que marcam a saúde reprodutiva.

A médica Maria do Carmo Leal, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) e coordenadora do estudo Nascer no Brasil, explica que o interesse da universidade americana no Brasil decorre justamente desse volume cirúrgico atípico, que transforma o país em um campo de análise crucial para o mundo.

No Brasil, o excesso de cesarianas agendadas em gestações de baixo risco aumenta os riscos para mães e bebês, com mais chances de complicações graves, partos antecipados, problemas respiratórios nos recém-nascidos e internações em UTIs neonatais”, alerta a pesquisadora.

O perigo oculto da pressa e das hemorragias

Um dos focos mais sensíveis da investigação conjunta é a hemorragia pós-parto, uma das principais causas de morte de mulheres no território nacional. Os dados coletados pela segunda edição da pesquisa Nascer no Brasil 2, que serão comparados aos indicadores norte-americanos, mostram que a escolha por uma cesárea sem necessidade médica real multiplica as chances de intercorrências graves no puerpério (o período pós-parto).

Estudos mostram que mulheres submetidas à cesariana têm um risco de morte após o parto cerca de três vezes maior do que aquelas que tiveram parto vaginal, principalmente por hemorragias e complicações relacionadas à anestesia”, aponta Maria do Carmo Leal.

Enquanto o Brasil patina em práticas consolidadas pelo mercado e na falta de incentivo ao acolhimento natural, o estado americano da Califórnia serve de inspiração: por meio de políticas públicas rigorosas de conscientização e novos protocolos nos hospitais, eles conseguiram reduzir suas taxas de cesariana para patamares abaixo de 25%.

O intercâmbio científico, que já conta com o planejamento de financiamentos internacionais e visitas mútuas de pesquisadoras de Stanford ao Brasil, como a professora de Obstetrícia Susan Carmichael e a PhD em Saúde Pública Marina Magalhães, pretende desenhar caminhos práticos para humanizar o atendimento obstétrico por aqui.

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No extremo da vulnerabilidade, a proteção social que salva vidas

Se nas camadas de maior renda o desafio da saúde materna passa pelo excesso de medicalização e cirurgias desnecessárias, nas franjas mais empobrecidas da população a grande ameaça é a falta de assistência básica. E é exatamente nesse cenário de vulnerabilidade que a ciência brasileira identificou outro escudo vital.

Estudos paralelos desenvolvidos ao longo da última década por pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs), da Fiocruz Bahia, revelam que as políticas de combate à pobreza desempenham um papel médico crucial: a participação no Programa Bolsa Família está associada a uma redução de até 31% no risco de morte materna por causas relacionadas à gravidez e ao parto.

O impacto positivo, mapeado a partir dos dados da Coorte dos 100 Milhões de Brasileiros, está diretamente ligado às chamadas condicionalidades de saúde. Para garantir o benefício mensal, as famílias são obrigadas a manter o acompanhamento de saúde em dia e as consultas de pré-natal atualizadas no SUS.

O epidemiologista Mauricio Barreto, da Fiocruz Bahia, reforça que o combate à miséria deve ser encarado formalmente como uma estratégia de promoção da saúde.

A existência do Sistema Único de Saúde é fundamental para atender às necessidades da população, mas quando ele atua em conjunto com um programa robusto de proteção social, como o Bolsa Família, torna-se possível reduzir os efeitos dos principais determinantes sociais que afetam negativamente a saúde”, analisa Barreto.

Menor índice de prematuros e proteção à saúde mental

O monitoramento de mais de 4 milhões de nascimentos pelo Cidacs comprovou que as gestantes amparadas pelo benefício têm menor probabilidade de dar à luz crianças com baixo peso ao nascer, com um impacto protetor ainda mais expressivo entre mães pretas e indígenas. As pesquisas registraram também uma queda de 16% na mortalidade de crianças menores de cinco anos e redução significativa de partos prematuros.

Além dos indicadores obstétricos, a segurança de renda gerou reflexos surpreendentes na saúde mental coletiva: a taxa de suicídio foi 56% menor entre as pessoas atendidas pelo programa social, acompanhada por uma redução drástica nas internações psiquiátricas por depressão e dependência química nos municípios mais pobres.

Ao unir a vanguarda tecnológica da parceria Fiocruz-Stanford para humanizar o parto na média alta e a capilaridade protetiva do Bolsa Família e do SUS na base da pirâmide, a ciência brasileira deixa claro: reduzir a mortalidade materna não é apenas uma questão de escolha cirúrgica, mas sim de justiça social, equidade e respeito à dignidade humana.

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Com informações das agências Fiocruz e Brasil

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