Descongestionantes nasais causam dependência e especialista alerta quanto aos riscos à saúde
Vício pode se manifestar com o tempo, tornando a pessoa cada vez mais resistente ao medicamento e, assim, aumentando a frequência e a dose de uso
Em um mundo onde a busca por alívio rápido se tornou uma norma, o uso de descongestionantes nasais para tratar os incômodos da congestão está mais presente do que nunca. No entanto, a facilidade de acesso e a falsa sensação de segurança desses medicamentos têm levado a um problema emergente: o vício em descongestionantes nasais.
De acordo com João Leonardo, coordenador do curso de Biomedicina da Faculdade Anhanguera, os descongestionantes nasais são medicamentos destinados a aliviar a congestão nasal, tornando mais fácil o ato de respirar. “Eles vêm em diferentes formas, como sprays ou comprimidos, e têm o intuito de proporcionar alívio imediato para aqueles que sofrem com nariz entupido”.
João explica que o uso excessivo de descongestionantes pode resultar em um ciclo vicioso. “Todas às vezes que fornecemos algo artificialmente ao corpo, ele pode deixar de executar a mesma função naturalmente. Portanto, o uso prolongado de descongestionantes pode resultar em um enorme desconforto sob sua ausência e até mesmo a diminuição ou perda da capacidade do corpo de controlar essa obstrução naturalmente”.
O especialista alerta que a necessidade prolongada de usar esses medicamentos, além do período recomendado por um profissional de saúde, pode ser um sinal de vício. A dependência pode se manifestar com o tempo, tornando a pessoa cada vez mais resistente ao medicamento e, assim, aumentando a frequência e a dose de uso.
Os riscos do uso prolongado de descongestionantes
Ainda segundo o professor, o uso prolongado de descongestionantes nasais pode causar complicações graves, incluindo inflamações da mucosa nasal, exposição a infecções respiratórias, sangramentos nasais (epistaxe) e até mesmo desenvolvimento de rinites derivadas do próprio medicamento. Além disso, alguns produtos contêm substâncias vasoativas, que podem afetar o sistema cardiovascular e piorar problemas cardíacos e de pressão.
Por atuarem na contração dos vasos sanguíneos, as substâncias presentes nos descongestionantes entram na corrente sanguínea da mucosa nasal (uma região extremamente vascularizada) e provocam efeitos sistêmicos.
A longo prazo, essa vasoconstrição crônica pode afetar órgãos vitais como o coração, pulmão, cérebro e intestino, gerando complicações severas e irreversíveis, como crises hipertensivas e arritmias. Localmente, o abuso causa ressecamento crônico, ardência, formação de crostas sangrentas e danos estruturais na anatomia do nariz.
Decisão da Anvisa pode ajudar a combater o problema
Diante dos riscos, amplamente divulgados por especialistas, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou uma medida fundamental para a saúde pública e a segurança dos consumidores: a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 996/2025. Em vigor desde o final de 2025, a nova norma regulamenta o enquadramento sanitário das soluções salinas (produtos à base de cloreto de sódio utilizados para a lavagem nasal) como dispositivos médicos.
Na prática, a decisão estabelece uma linha clara e rígida de separação entre o que é um produto seguro de higiene nasal e o que é um medicamento sujeito a riscos, trazendo um importante aliado no combate ao uso indiscriminado de descongestionantes no país.
A diferenciação regulatória chega em um momento crítico. O Brasil enfrenta um cenário alarmante de uso incorreto de medicamentos para o nariz. Uma pesquisa recente publicada no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences revelou que 63,1% dos entrevistados utilizam descongestionantes nasais, sendo que 64,5% o fazem sem qualquer orientação médica ou farmacêutica.
Ao contrário das soluções salinas, os descongestionantes tradicionais de farmácia contêm substâncias vasoconritoras potentes (como oximetazolina, xilometazolina e fenilefrina). Elas estreitam os vasos sanguíneos da mucosa para reduzir o inchaço rapidamente, mas cobram um preço alto se usadas por mais de três dias consecutivos.
O uso prolongado e sem acompanhamento pode levar à rinite medicamentosa, ou efeito rebote. Após algum tempo, a mucosa nasal passa a responder pior ao medicamento e, quando o efeito passa, ocorre uma dilatação ainda maior dos vasos, fazendo com que a congestão volte mais intensa e levando ao uso repetido”, afirma o médico otorrinolaringologista Lauro Nunes de Oliveira Filho.
Professor da Afya Ipatinga (MG), ele explica que a norma passa a enquadrar as soluções salinas como dispositivo médico de classe de risco IV. Isso exige o cumprimento rigoroso de boas práticas de fabricação, rotulagem adequada, instruções de uso claras e um controle severo sobre a esterilidade e segurança das embalagens.
Do ponto de vista de quem compra na farmácia, nada muda na forma de utilização. As soluções salinas seguem sendo produtos seguros para a higiene nasal e podem ser usadas por períodos prolongados, inclusive por crianças, gestantes e pessoas com doenças crônicas, desde que respeitadas as orientações de higiene e a técnica adequada de irrigação”, tranquiliza o médico.
Quando o uso é legítimo e quais os sinais do vício?
Apesar do risco de dependência, esses medicamentos possuem valor terapêutico restrito e pontual. Segundo Fernão Bevilacqua, otorrinolaringologista do Alfa Instituto de Comunicação e Audição, eles são úteis no controle de sangramentos leves em pós-operatórios ou para aliviar crises de sinusite aguda, desde que o tratamento não passe de dois a três dias.
O problema surge quando o paciente perde o controle. O Dr. Fernão lista comportamentos típicos que ajudam a identificar quando o hábito virou um vício crônico:
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Espalhamento de frascos: O dependente carrega o remédio no bolso, na bolsa, deixa um frasco no porta-luvas do carro, outro na mochila do trabalho e na mesa de cabeceira. Chega a comprar lotes e caixas do produto para garantir que nunca falte.
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Perda de sensibilidade: A mucosa nasal torna-se hipertrófica (inchada permanentemente devido à agressão contínua). Com isso, o paciente perde a sensibilidade física ao fluxo de ar, sentindo que o nariz está obstruído mesmo quando as vias aéreas estão anatomicamente livres.
Como realizar o “desmame”
João Leonardo enfatiza a importância de buscar ajuda profissional para interromper o tratamento. Consultar um médico para um desmame gradual pode ser uma abordagem eficaz. Alternativas naturais, embora exijam avaliação criteriosa, também são recomendadas. Manter as mucosas hidratadas é uma medida profilática poderosa para evitar o uso abusivo.
Para driblar o vício em descongestionante nasal, João enfatiza a importância de buscar ajuda profissional para interromper o tratamento. “Consultar um médico para um desmame gradual pode ser uma abordagem eficaz. Alternativas naturais, embora exijam avaliação criteriosa, também são recomendadas, assim como manter as mucosas hidratadas é uma medida profilática poderosa para evitar o uso abusivo”.
Leonardo aponta que além de buscar ajuda, as alternativas para lidar com a congestão nasal sem depender de descongestionantes é evitar exposição a produtos químicos, poeiras, alérgenos ou até mesmo lugares que afetam particularmente o indivíduo com a reação. E quando necessário, soluções fisiológicas para lavagem nasal podem ser uma alternativa eficaz e segura para esses momentos.
Para reverter a dependência, os médicos recomendam o processo de desmame, que deve ser acompanhado por um especialista:
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Substituição gradual: Substituir o conteúdo do frasco spray por soro fisiológico, diluindo o remédio aos poucos até que reste apenas a solução salina.
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Tratamento de suporte: O otorrinolaringologista pode prescrever corticoides nasais, anti-inflamatórios ou anti-histamínicos orais para controlar a inflamação da mucosa durante a fase de retirada da droga.
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Investigação da causa real: Tratar o problema de base que gerou o entupimento inicial, seja uma rinite alérgica crônica, sinusite, pólipos ou desvio de septo.
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Com Assessorias




