O orçamento do brasileiro continua pressionado, mas o que mais influencia as decisões de compra hoje não é apenas a renda disponível. De acordo com dados da Worldpanel by Numerator, novas prioridades vêm transformando a forma como as famílias distribuem seus gastos, com destaque para o crescimento das apostas esportivas (bets) e dos medicamentos à base de GLP-1, utilizados popularmente para a perda de peso.

O estudo revela que 31% dos brasileiros se declaram em dificuldade financeira. Ao mesmo tempo, cresce o grupo de consumidores mais comprometidos com saúde e bem-estar: os chamados health actives passaram de 26% para 30% da população em apenas um ano. Em um contexto de pressão financeira e desgaste emocional, investir na própria saúde deixa de ser apenas um desejo e passa a ocupar um espaço cada vez maior no orçamento.

Enquanto cresce o investimento em saúde, outro fenômeno avança sobre as despesas das famílias brasileiras: as apostas esportivas. Os dados da Worldpanel by Numerator mostram que, em 2025, 4% dos lares brasileiros realizaram apostas esportivas, com gasto médio anual de R$ 820 por domicílio — crescimento de 7,3% em relação ao ano anterior. Entre as famílias endividadas, esse desembolso é 14% maior.

Custo anual com canetas emagrecedoras chega a R$ 10 mil

Embora ainda estejam presentes em apenas 2,4% dos domicílios brasileiros, os impactos financeiros do tratamento com os medicamentos GLP-1 no país já são significativos. Segundo a Worldpanel by Numerator, o custo anual gira em torno de R$ 10 mil, e 47% dos usuários afirmam ter reduzido outros gastos para conseguir manter a medicação.

Os efeitos também aparecem diretamente na cesta de consumo. Após iniciar o tratamento, 55% dos usuários reduziram o consumo de alimentos e bebidas. Metade afirma que pretende consumir menos farinha, enquanto 37% dizem que devem diminuir a ingestão de pães. Nas compras efetivamente realizadas, os gastos com massas são 15% menores, assim como os desembolsos com farinha de trigo (-15%) e biscoitos recheados (-10%).

Por outro lado, o estudo mostra que o orçamento destinado ao autocuidado cresce entre os usuários de GLP-1. Os gastos com bebidas esportivas são 68% superiores aos da média da população, enquanto energéticos registram alta de 56%. Também há aumento nas despesas com cremes faciais (+43%), além de shampoos, condicionadores e creme dental.

Nem mesmo categorias tradicionalmente associadas à indulgência deixam de fazer parte da rotina desses consumidores. O chocolate continua presente na cesta de compras: metade dos usuários afirma que pretende manter ou ampliar o consumo, e os gastos na categoria são 60% superiores à média. O comportamento indica que o consumidor não abandona os pequenos prazeres, mas passa a fazer escolhas mais seletivas para equilibrar saúde e bem-estar.

Uma transformação no consumo

Para a Worldpanel by Numerator, esse é um movimento com potencial para ganhar ainda mais força nos próximos meses, impulsionado pela ampliação do acesso aos medicamentos, pela chegada das versões nacionais após o vencimento de patentes e pela discussão de políticas públicas voltadas ao tratamento da obesidade.

Embora representem comportamentos distintos, bets e medicamentos GLP-1 refletem uma mesma transformação no consumo. Ambos passaram a disputar recursos que antes eram destinados predominantemente às categorias tradicionais de bens de consumo.

Para a indústria e o varejo, isso representa uma mudança estrutural na dinâmica competitiva. A disputa já não acontece apenas entre marcas da mesma categoria. Ela passa a ocorrer entre necessidades, aspirações e formas distintas de enfrentar uma realidade cada vez mais desafiadora.

Nesse cenário, compreender quais necessidades estão conquistando espaço dentro de um orçamento cada vez mais limitado torna-se essencial para empresas que buscam manter sua relevância junto ao consumidor brasileiro.

Quase metade dos jovens admite usar dinheiro do orçamento para fazer apostas

Levantamento com mais de 10 mil brasileiros revela que 46% das pessoas entre 25 e 34 anos já usaram recursos destinados ao orçamento para fazer apostas, reforçando o debate sobre os impactos das bets nas finanças pessoais

Créditos: Freepik

Quase metade dos brasileiros entre 25 e 34 anos já utilizou dinheiro destinado a outras despesas para realizar apostas esportivas. O dado faz parte de uma pesquisa da meutudo, fintech especializada em soluções de crédito, realizada com mais de 10 mil participantes, que mostra que 46% das pessoas dessa faixa etária afirmam já ter redirecionado recursos do orçamento para apostar, evidenciando o impacto das bets nas decisões financeiras.

Os números também mostram que muitos brasileiros ainda enxergam as apostas como uma oportunidade de aumentar a renda. Entre os entrevistados de 35 a 44 anos, 63% afirmam apostar principalmente com o objetivo de conseguir um dinheiro extra, percentual superior ao daqueles que encaram a prática apenas como diversão.

Outro dado que chama atenção é o consumo frequente de conteúdos relacionados às apostas. Entre os participantes de 45 a 54 anos, 67% afirmam acompanhar conteúdos sobre bets nas redes sociais, mostrando como esse universo passou a fazer parte da rotina de muitos consumidores brasileiros.

Apesar da percepção de controle financeiro declarada pelos participantes, os resultados indicam que parte dos apostadores já precisou reorganizar o orçamento em função da atividade. Entre os entrevistados de 25 a 34 anos, 17% afirmam que as apostas os levaram a adiar compras não essenciais, enquanto 8% relatam já ter deixado de pagar alguma conta no prazo por causa dos gastos com apostas.

A pesquisa também mostra que muitos consumidores reavaliam a prática depois de abandonar as apostas. Entre aqueles que deixaram de apostar, 59% das pessoas entre 25 e 34 anos afirmam que passaram a administrar melhor o dinheiro, enquanto 70% dizem que abandonar a atividade foi importante para alcançar seus objetivos financeiros.

Entre os participantes de 45 a 54 anos, 63% afirmam sempre estabelecer um teto de gastos antes de apostar, indicando uma preocupação crescente com o controle financeiro mesmo entre quem participa regularmente desse tipo de atividade.

Embora a maioria dos entrevistados afirme definir previamente um limite para gastar com apostas, a pesquisa reforça que o tema continua despertando atenção diante do crescimento do mercado e da maior exposição do público às plataformas de apostas esportivas.

Para Marcio Feitoza, CEO da meutudo, as apostas podem gerar impactos que vão além do entretenimento.

Quando o consumidor percebe que precisa utilizar recursos originalmente destinados a outras despesas ou sente que sua organização financeira melhora depois de interromper esse hábito, existe um sinal importante de reflexão sobre a forma como esse gasto estava inserido no orçamento. O planejamento financeiro passa justamente por reconhecer esses comportamentos e estabelecer limites compatíveis com a realidade de cada pessoa.”

Com Assessorias

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