As temperaturas baixas e o ar seco típicos das estações mais frias trazem consigo um incômodo frequente para milhares de pessoas: o nariz entupido. Diante do desconforto, a solução parece simples, rápida e está ao alcance de qualquer farmácia, sem necessidade de receita médica: o descongestionante nasal.
O medicamento é tão popular que chegou a ser o segundo remédio mais vendido no Brasil em 2022, segundo dados da IQVIA, empresa especializada em tecnologia de informação em saúde. No entanto, o alívio imediato esconde um perigo grave: a dependência química e riscos severos à saúde cardiovascular, que podem levar até a morte.
De acordo com dados do Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) do Hospital das Clínicas da cidade de São Paulo, os problemas decorrentes do uso incorreto e dos efeitos colaterais de descongestionantes nasais ocupam o terceiro lugar no ranking de complicações por medicamentos, ficando atrás apenas dos anti-inflamatórios e dos analgésicos.
O mecanismo do vício e o efeito rebote
A congestão nasal ocorre quando os vasos sanguíneos da região interna do nariz se dilatam devido a processos inflamatórios, infecciosos (como gripes e sinusites) ou fatores anatômicos, inchando os cornetos e obstruindo a passagem do ar. Os descongestionantes agem de forma rápida porque contêm substâncias vasoconritoras — como nafazolina, fenoxazolina, oximetatazolina, fenilefrina e pseudoefedrina.
O descongestionante nasal é um vasoconstritor de ação muito rápida que diminui o edema de estruturas que ficam dentro do nariz. Por isso os pacientes utilizam tanto: eles pingam duas gotinhas, já abre o nariz e ‘está tudo ótimo’”, explica Ali Mahmoud, otorrinolaringologista do Hospital Santa Catarina – Paulista.
O problema reside no chamado efeito rebote. Cerca de 30 a 40 minutos após a aplicação, o efeito do remédio diminui, os vasos voltam a se dilatar e o inchaço retorna, muitas vezes de forma mais intensa. É a chamada rinite medicamentosa. Para obter o mesmo alívio, o paciente reduz o intervalo entre as doses, criando um ciclo de dependência.
É possível tornar-se dependente do uso de todos os descongestionantes, sem exceção”, alerta Arnaldo Tamiso, otorrinolaringologista do Hospital Paulista. Ele acrescenta que o nariz pode passar a funcionar apenas sob o estímulo do medicamento, evoluindo para quadros crônicos que só podem ser revertidos cirurgicamente.
Ramon Terra, também médico otorrinolaringologista do Hospital Paulista, adverte que o perigo não se restringe aos sprays e gotas e pondera que a vasoconstrição contínua compromete a circulação sanguínea nas mucosas, provocando ressecamento crônico e irritação extrema.
.O uso excessivo pode causar uma série de efeitos colaterais indesejados e isso vale para todos, sejam os orais (como a pseudoefedrina e a fenilefrina) ou os tópicos (como a nafazolina e a oximetazolina)”
Riscos para o coração: da taquicardia ao infarto
Os prejuízos do uso abusivo ultrapassam as vias aéreas. Como a mucosa nasal é altamente vascularizada, a absorção dessas substâncias vasoconritoras pelo organismo ocorre de maneira extremamente rápida. Ao entrarem na corrente sanguínea, elas provocam a contração de vasos em outras partes do corpo.
O cirurgião cardiovascular Diego Gaia, coordenador da Cardiologia do Hospital Santa Catarina – Paulista, alerta para as consequências sistêmicas: “O efeito colateral disso é taquicardia e hipertensão: acelera a frequência cardíaca e sobe a pressão arterial”.
Ramon Terra, do Hospital Paulista, acrescenta que o uso prolongado costuma desencadear também fortes dores de cabeça e crises de ansiedade. Para indivíduos que já apresentam fatores de risco, como hipertensão ou arritmia cardíaca, o uso crônico ou excessivo pode desencadear picos de pressão e complicações extremas, incluindo infartos, acidente vascular cerebral (AVC) e morte por parada cardíaca. Por essa razão, o medicamento é formalmente contraindicado para cardiopatas.
Como se livrar da dependência e alternativas seguras
Os especialistas reforçam que o limite seguro para o uso de descongestionantes nasais é de, no máximo, cinco dias consecutivos. Passado esse período, o risco de cronificação dos sintomas aumenta drasticamente. Para quem já está viciado, o processo de retirada exige paciência e, preferencialmente, acompanhamento médico.
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Identificação da causa: O primeiro passo é consultar um otorrinolaringologista para diagnosticar a raiz da obstrução nasal, que pode ser desde uma rinite alérgica até um desvio de septo ou presença de pólipos. Tratamentos específicos ou correções cirúrgicas podem ser necessários.
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Desmame gradual: Uma técnica recomendada para reduzir a dependência é diluir progressivamente o descongestionante em soro fisiológico dentro do próprio frasco, diminuindo a concentração da droga até sua total eliminação.
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Substituição por soro fisiológico: A lavagem nasal com soro fisiológico é a abordagem inicial mais segura. “Ela promove a limpeza mecânica e melhora a função mucociliar, não apenas tratando a obstrução, mas também aliviando sintomas. Pode servir sempre como uma primeira tentativa e ser executada a longo prazo, sem qualquer problema”, orienta o Dr. Ramon Terra.
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Tratamentos de suporte com corticoides: Para casos persistentes (como alergias crônicas ou sinusites), os sprays de corticosteroides nasais destacam-se como opções viáveis. Eles reduzem a inflamação nas vias aéreas e podem ser utilizados por prazos mais longos com menos efeitos colaterais, desde que indicados por um especialista.
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Com Assessorias




