O aumento das apostas esportivas durante a Copa do Mundo acendeu um novo alerta para o avanço da ludopatia, transtorno caracterizado pela perda de controle sobre o impulso de jogar, mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais e familiares. Dados divulgados pelo Banco Central no dia 1º de julho mostram que 34,8% dos brasileiros enviaram dinheiro para plataformas de apostas desde o início da competição, percentual três vezes superior aos 11% registrados em maio.

O endividamento das famílias brasileiras com o sistema financeiro está em 49,8% da renda acumulada em doze meses, próximo do recorde da série, registrado em 2022, e que o comprometimento mensal de renda com o pagamento de dívidas chegou a 29,3%, o maior nível dos últimos anos.

Segundo estudo da CNC divulgado no fim de abril, com base em dados do Banco Central, os gastos mensais das famílias brasileiras com bets saltaram de valores próximos a zero, em janeiro de 2023, para mais de R$ 30 bilhões em março de 2026, alta superior a 500% em três anos.

A pesquisa, intitulada “Impactos das Apostas Online (Bets) no Endividamento e Inadimplência das Famílias Brasileiras”, estima que esse volume de recursos retirou R$ 143 bilhões do varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026 e empurrou cerca de 270 mil famílias para a inadimplência severa.

Para o psiquiatra e coordenador de Saúde Mental da Rede Total Care, Mauricio Okamura, grandes eventos esportivos favorecem o aumento das apostas porque elas deixam de ser apenas uma publicidade e passam a integrar a experiência de acompanhar as partidas.

Quando influenciadores apresentam palpites como se fossem recomendações entre amigos ou análises técnicas, a percepção de risco diminui. Muitas pessoas passam da torcida para a aposta sem perceber que estão entrando em uma dinâmica capaz de gerar prejuízos financeiros e sofrimento emocional”, afirma.

Segundo o especialista, o crescimento das apostas está diretamente relacionado aos mecanismos de recompensa variável do cérebro. A liberação intermitente de dopamina mantém o cérebro em constante expectativa e, associada às apostas rápidas e às probabilidades atualizadas em tempo real, favorece a repetição do comportamento e aumenta o risco de desenvolvimento da ludopatia.

O tema voltou ao debate nos últimos dias após a repercussão da história do policial Danilo Lopes Negrão. Segundo relatos divulgados pela esposa, ele acumulou uma dívida estimada em R$ 1 milhão em decorrência da dependência em apostas esportivas. Após sua morte, a viúva, Raquel Maria, publicou um relato nas redes sociais para alertar outras famílias sobre os impactos do transtorno.

Impacto vai além do apostador

Os efeitos da ludopatia não atingem apenas quem desenvolve a dependência. Um estudo publicado no Journal of Gambling Studies aponta que, para cada pessoa com transtorno relacionado aos jogos de azar, cerca de 4,7 outras pessoas são diretamente afetadas, principalmente familiares. Foi o que ocorreu com Raquel Maria, que relatou ainda enfrentar consequências financeiras quase três anos após a morte do marido e afirmou ter desenvolvido sofrimento emocional em decorrência da situação vivida pela família.

Para Okamura, o apoio da família é importante, mas precisa vir acompanhado de limites para não reforçar o ciclo da dependência.

O acolhimento não significa facilitar o comportamento. É importante estabelecer limites claros, evitar julgamentos morais e conversar sobre as consequências concretas das apostas. Também não é recomendado emprestar dinheiro para quitar dívidas, pois isso tende a perpetuar o problema. O mais indicado é incentivar a busca por tratamento especializado e grupos de apoio.”

Sinais de alerta

A ludopatia costuma se instalar de forma gradual. Entre os principais sinais estão a necessidade de apostar para recuperar perdas, esconder gastos da família, irritabilidade quando não consegue jogar, perda de interesse por atividades antes prazerosas e aumento do endividamento ou da busca por empréstimos.

Apesar da gravidade, a ludopatia tem tratamento. A principal abordagem é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), frequentemente associada ao acompanhamento psiquiátrico quando há ansiedade, depressão ou outros transtornos associados.

O prognóstico melhora significativamente quando a intervenção acontece cedo. Procurar ajuda ao perceber a perda de controle sobre o tempo, o dinheiro ou os pensamentos relacionados às apostas faz toda a diferença”, conclui.

 

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