Quando algo não sai como a gente espera, pode aparecer tristeza, irritabilidade ou até raiva e nas crianças e adolescentes, esses sentimentos são vividos de forma ainda mais intensa”, explica a coordenadora do Departamento de Psicologia do Sabará Hospital Infantil, Cristina Borsari.
Por que as crianças criam expectativas na Copa do Mundo?
Segundo o psicólogo Bruno Jardini Mäder, coordenador do curso de Psicologia da Faculdades Pequeno Príncipe, as crianças costumam vivenciar a expectativa pela Copa do Mundo de forma diferente dos adultos. Isso acontece porque ainda estão desenvolvendo habilidades cognitivas e emocionais que permitem diferenciar melhor o desejo da realidade.
A criança tem mais dificuldade para modular suas expectativas. E a sua imaturidade cognitiva dificulta dela conseguir separar um pouco a expectativa da realidade. Ou seja, a expectativa de realização é muito próxima sensorialmente da própria realização”, explica o especialista.
Essa característica faz com que a espera pelo desempenho da Seleção seja difícil. Enquanto os adultos compreendem que há várias etapas até uma possível conquista, para muitas crianças a ideia de ser campeã parece algo imediato. Além disso, a ansiedade pelo resultado pode surgir até durante as partidas, quando querem saber rapidamente quem vai vencer.
O psicólogo destaca que as expectativas infantis não surgem por acaso. Elas são construídas dentro de um contexto cultural fortemente marcado pela importância do futebol no Brasil. Durante a Copa do Mundo, adultos comentam os jogos, decoram casas, usam camisetas da seleção, organizam reuniões e acompanham as partidas.
Assim, as crianças observam toda essa movimentação e passam a compartilhar o mesmo entusiasmo. “Elas percebem o valor social e cultural desse momento histórico. Estão imersas nessa cultura e participam dela junto com a família e a sociedade”, realça Mäder. Por isso, é natural que criem expectativas e se envolvam emocionalmente com os resultados.
Como lidar com as expectativas e frustrações das crianças na Copa do Mundo?
A vivência do evento esportivo pode transformar-se em uma experiência educativa
Crédito: Wynitow Butenas/Hospital Pequeno Príncipe
Uma derrota da seleção pode ser passageira no placar, mas para milhares de crianças e adolescentes brasileiros ela representa um desafio emocional real. Por isso o cenário ideal é sempre do acolhimento da família, que desempenha um papel essencial para transformar a experiência esportiva em uma oportunidade de aprendizado, fortalecimento emocional e construção de resiliência”, finaliza a especialista.
Como a derrota e a vitória viram aprendizado?
Embora a torcida esteja sempre voltada para a vitória, o especialista afirma que uma eventual derrota pode transformar-se em uma importante experiência educativa. O fracasso de um time permite que pais e cuidadores conversem sobre outras frustrações da vida, como não conseguir a nota desejada ou não participar de determinada atividade. Nesse sentido, o papel dos adultos é validar os sentimentos da criança diante da decepção.
É importante reconhecer que perder é triste e frustrante. O que não significa permitir comportamentos agressivos ou descontar essa frustração nos outros.” A orientação é acolher a tristeza, conversar sobre o ocorrido e incentivar a resiliência, pois novas oportunidades surgirão no futuro.
Por outro lado, o aprendizado não acontece apenas quando o time perde. As vitórias também oferecem oportunidades valiosas para o desenvolvimento emocional. Segundo Mäder, saber ganhar é tão importante quanto saber perder. Isso significa comemorar sem humilhar adversários ou menosprezar quem torcia para outra seleção.
O esporte é um espaço privilegiado para aprender a lidar com emoções. Quando a vitória acontece, também é preciso aprender a respeitar os sentimentos dos outros. Existem chances das coisas saírem do jeito que a gente pensou e do jeito que a gente não pensou.”
Os pais devem acolher os sentimentos, validar, legitimar a tristeza e demonstrar empatia são atitudes que contribuem para o desenvolvimento da inteligência emocional. Reconhecer a frustração com frases simples, como ‘eu entendo que você está triste e os motivos para isso’, ajuda a criança a compreender que emoções difíceis fazem parte da vida e podem ser enfrentadas de forma saudável”, afirma Cristina.
O papel dos pais e cuidadores
As disputas esportivas são formas de manifestar competitividade e de expressar emoções que, em outros contextos sociais, precisam ser controladas. Sua dimensão civilizatória permite canalizar impulsos agressivos e competitivos de maneira socialmente aceita, contribuindo para o aprendizado do autocontrole.
Além disso, possui uma importante dimensão cultural, especialmente evidenciada pela Copa do Mundo, que promove forte identificação coletiva e sentimento de pertencimento.
Para que a experiência da Copa do Mundo seja positiva, o psicólogo sugere que os pais e cuidadores valorizem aspectos que vão além do resultado dentro de campo. É um momento de ajudar as crianças a vivenciarem a disputa de forma divertida e saudável. Entre as recomendações estão:
- explicar às crianças o significado da competição;
- destacar o esforço e a dedicação dos atletas;
- valorizar o mérito dos adversários;
- promover momentos de convivência familiar durante os jogos;
- envolver-se em todos os rituais ligados ao jogo;
- ensinar respeito às diferenças e às torcidas;
- aproveitar para apresentar elementos da cultura e da identidade nacional.
Sinais de frustração que merecem atenção
Embora seja normal que crianças fiquem tristes com uma derrota, o psicólogo alerta para comportamentos desadaptativos, ou seja, que atrapalham o desenvolvimento, tanto o social, relacional ou cognitivo, como:
- recusar-se a ir à escola;
- tornar-se excessivamente agressivo;
- apresentar isolamento social;
- manter reações desproporcionais por longos períodos.
Se esses sinais também aparecem em outras situações do cotidiano, e não apenas nas relacionadas ao futebol, os pais devem considerar buscar apoio profissional.





