A violência contra crianças e adolescentes segue como um dos maiores desafios sociais e de saúde pública no Brasil. Segundo o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, cerca de 200 crianças são agredidas diariamente no Brasil.
Em média, uma criança ou adolescente é vítima de abuso sexual a cada oito minutos, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Em 88% desses casos, o agressor é do sexo masculino. A disparidade de gênero é evidente: meninas são sete vezes mais vítimas de violência sexual do que meninos, revelando padrões culturais de desigualdade que começam na infância.
O Dia Internacional das Crianças Vítimas de Agressão (4 de junho) traz à reflexão um debate que não pode se restringir ao silêncio do ambiente doméstico. Somente em 2025, o Hospital Pequeno Príncipe — que atua há mais de 50 anos no atendimento a vítimas de violência — registrou 637 atendimentos de bebês, crianças e adolescentes com suspeita de maus-tratos e abusos. Em 2024, foram 474 crianças de até 6 anos, das quais 309 (65% delas) foram acolhidas por suspeita de violência sexual.
Referência no atendimento infantojuvenil em situações de violência, s unidade em Curitiba ultrapassou dez mil atendimentos de crianças e adolescentes em situação de risco, com crescimento de 126% na série histórica — um indicativo da persistência do problema.
Violência sexual: 67% das vítimas tinham até 6 anos
A análise desses atendimentos mostra que a violência sexual segue como principal ocorrência, presente em 64% das situações, e atinge majoritariamente crianças na primeira infância: 67% das vítimas tinham até 6 anos, sendo que uma em cada três tinha até 3 anos.
Ao mesmo tempo, 72% das agressões ocorrem no ambiente doméstico, e 34% dos registros apresentam recorrência — indicando que a violência, muitas vezes, não é um episódio isolado, e sim um ciclo que se repete ao longo do tempo.
Casos extremos ajudam a dimensionar essa realidade: a criança mais nova atendida em 2025 com indícios de abuso sexual tinha apenas 6 meses de vida. Em outro episódio, um bebê de 10 dias precisou ser internado com múltiplas lesões físicas, sob cuidados intensivos.
Atendimentos saltam de 378 para 720 casos em 10 anos
Levantamento do Hospital Pequeno Príncipe revela uma realidade alarmante: entre 2014 e 2024, o número de atendimentos praticamente dobrou, acompanhando a tendência de crescimento registrada em todo o país. Nesses 10 anos, os atendimentos saltaram de 378 para 720 casos anuais.
No total, mais de dez mil crianças e adolescentes, de 0 a 17 anos, passaram por avaliação médica na instituição com suspeita de violência nas últimas duas décadas. Segundo os dados, a maioria das agressões ocorre no âmbito doméstico.
Em 2024, a maioria (72%) dos casos atendidos no Hospital Pequeno Príncipe foi classificada como violência intrafamiliar – agressões cometidas por membros da própria família, como pais, padrastos e irmãos, ou por pessoas próximas, como cuidadores.
A violência sexual foi o tipo mais frequente, respondendo por 58% dos atendimentos. Em 2024, houve caso de bebê com apenas 4 meses. A maior parte dos agressores identificados era do sexo masculino (67%), e as meninas representaram 71% das vítimas.
Tendência de crescimento contínuo
A análise dos dados do Hospital Pequeno Príncipe em 2024 já revelava uma tendência alarmante de aumento nos casos de violência, inclusive após o pico da pandemia de Covid-19. Esses números reforçam a necessidade de políticas públicas mais robustas voltadas à proteção de crianças e adolescentes, além da ampliação das redes de apoio e denúncia.
Um dos dados mais alarmantes é o crescimento do número de crianças acolhidas em abrigos: foram sete em 2024, contra apenas duas em 2023 – um aumento de 250%. O acolhimento é uma medida extrema, adotada apenas quando a permanência da criança em casa representa risco à sua vida ou integridade física e não há familiar que possa garantir sua segurança.
Além da maior frequência, os casos também têm se mostrado mais graves. O número de crianças com lesões provocadas por violência subiu de 128 para 205, uma elevação de 60%. Muitas dessas lesões envolvem fraturas.
Também aumentaram os internamentos, que passaram de 103 para 135, um salto de 31%. Esses dados indicam um cenário de violência mais intensa. Um caso emblemático e preocupante foi o de uma bebê de apenas 29 dias entre as vítimas atendidas e que precisou ser internada.
Dados que orientam 20 anos de mobilização
O Hospital Pequeno Príncipe tem uma equipe multiprofissional treinada para identificar, acolher e cuidar de crianças vítimas de violência, com o objetivo de mitigar danos imediatos e apoiar trajetórias de vida mais seguras. O protocolo de atendimento especializado inclui assistência médica, psicológica e social.
Para transformar essas informações em ação concreta, o Hospital Pequeno Príncipe desenvolve desde 2006, a Campanha Pra Toda Vida — A Violência Não Pode Marcar o Futuro das Crianças e Adolescentes. O que começou como uma ação de conscientização para romper o silêncio e incentivar a denúncia evoluiu ao longo de duas décadas.
Com propósito de sensibilizar, informar e mobilizar a sociedade sobre a importância de prevenir e enfrentar a violência infantojuvenil, a campanha integra ações como a capacitação de profissionais de saúde e educação, bem como a disseminação de materiais educativos para crianças e adolescentes.
A iniciativa conta também com o apoio da sociedade, com a mobilização de influenciadores digitais, posts nas redes sociais e divulgação na imprensa. Informações e materiais de apoio podem ser acessados por meio do hotsite da campanha.
A campanha ganha ainda mais relevância diante de um cenário que se repete ano após ano em todo o país: a violência contra crianças é precoce, recorrente, e, na maioria dos casos, acontece dentro de casa. Ao longo de duas décadas, já são mais de dez mil casos atendidos, um volume que não apenas revela a dimensão do problema, mas permite identificar padrões consistentes.
Tornou-se um movimento estruturado, que hoje atua em múltiplas frentes: produção de conteúdo técnico, formação de profissionais, mobilização social, uso de dados e de evidências e fortalecimento da rede de proteção. Nesse período, a iniciativa acompanhou transformações sociais, incorporando temas como prevenção, violência digital e protagonismo infantil.
Em 2026, com o mote “Proteger a infância é um compromisso de todos”, a campanha reforça que o enfrentamento da violência exige uma rede ativa — envolvendo famílias, escolas, profissionais, poder público e toda a sociedade.
Em maio, o Hospital promoveu o encontro “Diálogos sobre Proteção de Crianças e Adolescentes”, reunindo representantes da saúde, assistência social, sistema de justiça e organizações da sociedade civil, em uma iniciativa voltada ao fortalecimento da atuação integrada na proteção da infância.
O Pequeno Príncipe chama atenção para a importância de todos os atores sociais estarem atentos ao enfrentamento da violência contra crianças e adolescentes. Quando a violência atinge crianças tão pequenas, enfrentá-la depende da ação de todos”, afirma a diretora-executiva do Hospital Pequeno Príncipe, Ety Cristina Forte Carneiro
O papel da sociedade na identificação da violência
Uma das frentes da iniciativa é fortalecer a capacidade de adultos reconhecerem sinais de alerta e compreenderem que a denúncia é o primeiro passo para interromper o ciclo de agressão. Para isso, identificar mudanças de comportamento pode ser decisivo.
Sinais de que uma criança está sendo vítima de violência podem ser físicos ou psicológicos, como mudanças bruscas de comportamento, irritabilidade, distúrbios alimentares e de sono, autolesões, queda no rendimento escolar e marcas físicas como hematomas, lesões e fraturas. No ambiente digital, comportamentos como isolamento após o uso de dispositivos ou exclusão repentina de contas podem indicar cyberbullying ou abuso virtual.
Esse conjunto de evidências aponta para um cenário complexo: a violência é, ao mesmo tempo, íntima, silenciosa e difícil de ser identificada, especialmente porque atinge vítimas que ainda não conseguem compreender ou relatar o que vivem. Por isso, o enfrentamento passa necessariamente pelo olhar atento de adultos e pela atuação qualificada da rede de proteção. É a partir dessa necessidade que a campanha estrutura suas ações.
Alguns sinais que podem indicar situações de violência incluem:
- mudanças bruscas de comportamento;
- recusa ou dificuldade para dormir;
- medo de determinadas pessoas ou lugares;
- isolamento ou agressividade;
- volta da evacuação nas roupas (após fase de desfralde — inclusive na adolescência);
- queda no rendimento escolar;
- conhecimento ou comportamento sexual incompatível com a idade.
Cenário nacional: a violência de gênero começa na infância
A OMS e a ONU Mulheres alertam que a construção social que naturaliza a vulnerabilidade feminina desde a infância perpetua ciclos de abuso e violência ao longo da vida. Esse cenário aponta a urgência de políticas públicas que protejam as crianças e promovam mudanças culturais profundas, desconstruindo estereótipos de gênero desde os primeiros anos de vida.
Especialistas apontam que a Primeira Infância (0 a 6 anos) é um período de alta vulnerabilidade. Crianças pequenas são particularmente expostas à violência devido à sua imaturidade cognitiva e emocional, dependência total de adultos para cuidados e proteção, e dificuldade de verbalizar situações de abuso. A combinação desses fatores torna essa fase crítica, em que agressões podem ocorrer de forma silenciosa e devastadora.
Estudos de neurodesenvolvimento indicam que as experiências nos primeiros anos de vida moldam a arquitetura do cérebro. A exposição precoce à violência é considerada um estresse tóxico, que pode afetar o funcionamento neurológico e aumentar o risco de problemas futuros, como transtornos de saúde mental, dificuldades de aprendizagem e doenças crônicas.
Organizações como Unicef, OMS e Center on the Developing Child, da Universidade de Harvard, reforçam que a proteção da Primeira Infância é essencial para promover sociedades mais saudáveis e reduzir desigualdades.
Novos desafios: a violência digital
Os dados do Hospital Pequeno Príncipe refletem uma realidade observada em todo o país. A crescente presença de crianças e adolescentes no ambiente digital trouxe novos riscos à sua integridade. Pesquisa da SaferNet e da TIC Kids Online aponta que um em cada 11 jovens já foi vítima de cyberbullying, e mais de 53 mil denúncias de crimes sexuais on-line envolvendo infantojuvenis foram registradas em 2024. Além disso, 30% das crianças entrevistadas disseram ter interagido com desconhecidos pela internet, ampliando sua exposição a riscos.
Embora o Pequeno Príncipe ainda não tenha registrado atendimentos diretos por violência digital, a instituição reconhece a gravidade do cenário. Em 2025, a campanha Pra Toda Vida incluiu, pela primeira vez, tópicos como cyberbullying, assédio on-line e exposição a conteúdos nocivos. A inclusão desses temas na campanha visa a garantir que a proteção integral de crianças e adolescentes também aborde o ambiente virtual, uma extensão cada vez mais relevante da vida social das novas gerações.
Denunciar é proteger: como a sociedade pode contribuir
A proteção de crianças e adolescentes é uma responsabilidade coletiva. O Pequeno Príncipe acredita que a união de esforços entre indivíduos, organizações e poder público é fundamental para reduzir os casos de violência e transformar a vida daqueles que enfrentam situações de risco. Cada atitude conta para a construção de um ambiente mais seguro e acolhedor.
A denúncia – que pode ser feita, anonimamente, por vizinhos, familiares e conhecidos – é o primeiro passo para interromper a violência e muitas vezes pode ser a única chance de socorro. A denúncia. Ela pode ser feita de forma anônima nos seguintes canais
• Disque 100 (nacional)
• 181 (Paraná)
• 156 (Curitiba)
Com informações do Pequeno Príncipe




