As plataformas de apostas esportivas se popularizaram no Brasil e passaram a fazer parte da rotina diária de milhões de pessoas. Presentes massivamente nas redes sociais, nos patrocínios de grandes clubes de futebol e acessíveis a poucos toques na tela, elas transformaram uma prática antes restrita em uma experiência digital disponível a qualquer hora e lugar.

Para a psicóloga Lívia Barreto, da Mental One, o fenômeno vai muito além da facilidade de acesso. O formato das bets reúne elementos capazes de estimular intensamente o sistema de recompensa do cérebro, favorecendo um ciclo de repetição difícil de interromper.

O universo das apostas sempre existiu. A diferença é que hoje ele chega ao celular com uma aparência muito mais leve e acessível. A pessoa não precisa sair de casa nem se expor. Com poucos cliques, consegue apostar a qualquer hora, o que reduz barreiras e torna esse comportamento muito mais frequente”, explica a especialista.

O mecanismo do reforço intermitente e a dopamina

De acordo com a psicóloga, um dos principais fatores envolvidos nesse processo é o reforço intermitente — um padrão psicológico em que as recompensas ocorrem de forma totalmente imprevisível.

  1. A incerteza do ganho: O usuário ganha uma vez, perde várias e depois volta a ganhar.

  2. Expectativa contínua: Como não existe uma lógica previsível, o cérebro permanece em estado de alerta, esperando que a próxima tentativa seja a vencedora.

  3. Picos de dopamina: O processo ativa a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer, motivação e antecipação da recompensa.

A cada aposta, cria-se uma grande expectativa de vitória. Mesmo quando o resultado é negativo, o cérebro continua alimentando a esperança da próxima tentativa. Essa busca constante por alívio ou prazer imediato reflete, segundo Lívia, uma marca da sociedade atual:

“Vivemos em uma cultura que estimula respostas instantâneas. As bets oferecem uma possibilidade de recompensa imediata, sem grandes esforços. Quanto mais nos acostumamos com esse tipo de estímulo, mais difícil se torna encontrar satisfação em experiências que exigem tempo, construção e presença.”

A especialista ressalta que o uso das plataformas não significa que todos desenvolverão dependência. Contudo, quando as apostas geram prejuízos financeiros, afetam relacionamentos ou servem como fuga para ansiedade e estresse, a ajuda profissional torna-se indispensável.

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💬 PALAVRA DE ESPECIALISTA

O que torna a promessa das bets tão sedutora para a sociedade?

Além do apelo financeiro, o avanço do jogo compulsivo expõe uma busca por sentido e o esvaziamento de rituais em uma cultura imediatista

Por Paloma Luara*

O vício em Bets não pode ser tratado como se fosse resultado de pessoas adultas fazendo escolhas ruins. Essa é uma explicação bobinha demais, rasa e mal feita.

Há mais de 40 mil anos, nós ganhamos uma tecnologia que tornou as nossas capacidades cognitivas muito mais sofisticadas: a imaginação.

Ou seja, estou falando da forma como o ser humano cria sentido para a realidade. A racionalização não dá conta de explicar por que um coletivo inteiro passa a se comportar de determinada maneira, o imaginário coletivo, sim.

Com o racionalismo moderno dos séculos XVII e XVIII, a imaginação virou a tia louca da ciência: todo mundo sabia que ela estava ali, que participava da casa, mas ninguém queria deixá-la sentar à mesa das grandes decisões. Deixa o imaginário pra lá! Além disso, agora estamos todos muito animados com as IAs, quem precisa da imaginação. 

E veja: eu não sou negacionista da IA muito menos da ciência. Mas precisamos lembrar que, desde que o ser humano percebeu que o tempo passa, que tudo se transforma e que a morte é inevitável, nossa imaginação passou a criar rituais, mitos, religiões e símbolos para amenizar a “angústia primordial” diante da finitude e, ao mesmo tempo, dar sentido à vida.

E toda vez que há um esvaziamento mitológico e simbólico na sociedade, há um aumento da angústia primordial coletiva. É o que estamos vivendo agora. E essa angústia precisa ser preenchida ou amenizada de alguma forma. Isso não opera apenas pela razão; opera também pelo simbólico, pelo emocional e pelo inconsciente coletivo.

O que as bets vendem é muito maior do que a apostaElas vendem um falso ritual de passagem e transcendência para uma vida igual àquela que a pessoa vê no Instagram.

Se a sociedade já não acredita mais nos rituais nem nos caminhos lentos de construção de sentido, mas ainda precisa encontrar alguma saída para vencer uma vida vazia de significado, então, driblar as dificuldades junto com Neymar para fazer um gol de placa (sem cair e chorar), começa a parecer uma boa ideia. Afinal, no imaginário brasileiro, o futebol ainda ocupa o lugar simbólico do herói nacional. 

Dentro dessa narrativa coletiva, os papéis arquetípicos ficam muito claros:

A população aparece como a vítima em queda. Não porque seja incapaz de raciocinar, mas porque está vulnerável dentro de um sistema que explora nossas angústias mais primitivas. Os influenciadores aparecem como os falsos guias, porque se apresentam como quem conhece o caminho, como quem venceu e agora vai mostrar aos outros como vencer também. Só que, muitas vezes, esse guia não conduz para uma travessia; conduz para um labirinto que endivida, enlouquece e mata.

O Estado aparece como o guardião ausente, porque deveria criar limites, regular, impedir abusos e chegar antes do dano coletivo. Mas chega tarde, chega fraco, chega confuso ou chega atravessado por interesses econômicos. E as empresasde bets aparecem como o monstro devorador disfarçado de oportunidade. O monstro contemporâneo não tem cara de monstro. Ele é divertido e ainda oferece dinheiro e oportunidade. 

Então, quando eu pergunto que tipo de mundo torna as Bets tão sedutoras, a resposta não está na racionalização individual quando o dano é coletivo. A resposta está no tipo de sociedade que perdeu confiança nos seus caminhos de futuro. 

Uma sociedade em que trabalhar parece insuficiente, estudar parece lento, empreender parece exaustivo, a política parece distante, a religião já não inspira confiança, a comunidade está dividida, a família muitas vezes está sobrecarregada, e as redes sociais mostram o tempo inteiro que todo mundo parece estar vencendo, menos você.

*Mentora de especialistas e professores que vendem produtos e serviços na internet. Seu trabalho integra fonoaudiologia, educação digital, análise da fala, narrativa e arquétipo para ajudar criadores de conteúdo a se posicionarem de forma coerente com sua identidade, produto e público.

Com Assessorias

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