Para muitas famílias, as férias escolares representam descanso, viagens e momentos de lazer ao lado dos filhos. Mas, quando o sinal toca pela última vez na temporada, outra realidade entra em cena nos lares: mais tempo dentro de casa, mudanças profundas na rotina e uma convivência contínua que pode intensificar birras, irritação e conflitos — especialmente entre crianças e adolescentes com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Transtorno Opositor Desafiador (TOD), Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou Altas Habilidades.

A visão da psiquiatria: a importância da previsibilidade para o cérebro infantil

A médica psiquiatra da infância e adolescência e colunista do Portal Vida e Ação, Danielle Admoni, desmistifica a ideia de que o recesso precise ser um período completamente desprovido de limites ou horários.

É comum que pais e responsáveis imaginem que, durante o recesso, quanto menos regras e horários, melhor. No entanto, a mudança brusca de horários e atividades mexe com a previsibilidade que ajuda o cérebro infantil a se organizar. Nem toda criança lida bem com dias completamente sem estrutura. Algumas ficam mais agitadas, outras mais ansiosas, justamente porque perderam as referências do cotidiano”, destaca a Dra. Danielle.

A psiquiatra explica que o objetivo não é transformar o período de descanso em uma agenda rígida de compromissos, mas preservar pilares de saúde recomendados pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), como horários aproximados para dormir, acordar e realizar as refeições principais.

Liberdade e previsibilidade não são conceitos opostos; quando equilibradas, tornam as férias mais tranquilas para toda a família”, afirma a colunista do Portal Vida e Ação.

De acordo com a Dra. Danielle Admoni, os adultos devem ficar atentos a sinais que indicam que a criança não está conseguindo se adaptar à falta de rotina:

  • Explosões de raiva frequentes;

  • Dificuldade persistente para dormir;

  • Isolamento excessivo;

  • Queixas físicas sem causa aparente;

  • Resistência intensa a atividades simples do dia a dia.

A colunista do VIDA E AÇÃO lembra ainda que o tédio ocasional não deve gerar culpa nos adultos. O tédio faz parte desse período e pode, inclusive, favorecer a criatividade e a autonomia. O problema surge quando a ausência completa de estrutura deixa de representar liberdade e passa a ser uma fonte primária de estresse, destaca a Dra. Danielle Admoni.

A quebra da rotina escolar e a resposta comportamental

A escola desempenha um papel fundamental na organização do tempo na infância. Segundo a orientadora parental e psicopedagoga Andreia Rossi, especialista no atendimento a famílias de crianças com TOD, o período de recesso gera uma quebra de estrutura brusca, algo difícil de processar para quem possui maior dificuldade em manter o autocontrole.

A escola organiza o tempo e dá à criança previsibilidade, ela sabe quando é hora de estudar, brincar, almoçar. Nas férias, tudo se mistura. Sem referência clara, alguns podem se sentir perdidos e reagir com agressividade, teimosia ou hiperatividade”, explica Andreia Rossi.

A especialista aponta ainda que fatores como o excesso de tempo livre, a redução do contato social e as mudanças no sono e na alimentação colaboram para um ambiente emocionalmente mais instável.

Comportamento é comunicação e exige acolhimento

Frente a respostas impulsivas, gritos ou negativas constantes, Andreia Rossi reforça que existe uma mensagem oculta por trás da conduta da criança.

“O comportamento desafiador não é ‘contra os pais’. Geralmente, é o que a criança consegue fazer no momento para expressar que algo está difícil demais”, explica a psicopedagoga.

Para apoiar a regulação emocional das crianças sem impor uma rigidez excessiva, as especialistas sugerem adotar estratégias práticas no dia a dia:

  • Manutenção dos pilares básicos: Preservar horários aproximados de sono e alimentação garante estabilidade física e emocional.

  • Previsibilidade das atividades: Combinar e alinhar expectativas com a criança antes das atividades reduz a ansiedade.

  • Estímulo à autonomia: Oferecer escolhas direcionadas (por exemplo: “Você prefere ir ao parque agora ou depois do lanche?”).

  • Pausas de regulação: Oferecer momentos para descarregar energia física alternados com momentos mais tranquilos.

  • Acolhimento empático: “Antes de corrigir, acolha. Dizer ‘eu entendo que você está bravo(a)’ já reduz a tensão e abre espaço para uma conversa”, orienta Rossi.

O esgotamento dos cuidadores e a busca por apoio

A sobrecarga provocada pela mudança na rotina infantil também atinge diretamente os adultos. Conforme alerta o Ministério da Saúde, com a rotina mais intensa dentro de casa, os cuidadores também ficam exaustos, o que aumenta a chance de conflitos.

Quando o adulto está no limite, o ambiente inteiro sofre. Cuidar da regulação emocional é tão importante quanto orientar a criança”, reforça Andreia Rossi. A especialista destaca ainda que buscar apoio profissional é essencial quando os conflitos se tornam constantes e passam a comprometer o bem-estar familiar.

Em vez de ser encarado como um período de desgaste, o recesso pode se consolidar como uma oportunidade valiosa de fortalecimento dos vínculos afetivos. “Não existe comportamento desafiador sem um motivo. Quando o adulto passa a ouvir essa mensagem, as férias deixam de ser um campo de batalha e se transformam em oportunidade de conexão”, conclui Andreia Rossi.

Com Assessorias

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