Apesar de a circulação do mosquito Aedes aegypti ser comumente associada aos dias quentes e chuvosos do verão, o combate à dengue exige atenção contínua durante o ano todo. Em pleno inverno, o estado de São Paulo já contabiliza 58.683 casos confirmados de dengue desde o início de 2026, além de 42 óbitos confirmados e outros 30 em investigação.

A oscilação anual é uma das características marcantes das arboviroses no Brasil. Em 2024, o país viveu uma de suas piores crises epidêmicas, ultrapassando 6,5 milhões de casos prováveis de dengue. Em 2025, observou-se uma redução expressiva, registrando cerca de 1,6 milhão de casos até meados de novembro.

Embora o período oficial de maior transmissão no estado de São Paulo ocorra entre outubro e maio, o fim do inverno marca o momento decisivo para conter a proliferação do vetor antes do pico de calor.

Calor, chuvas e influência do El Niño elevam risco de dengue no Brasil

Especialista explica como as mudanças climáticas favorecem a proliferação do Aedes aegypti, alerta para os sintomas da doença e reforça medidas de prevenção

A influência do El Niño sobre o clima brasileiro mantém em alerta especialistas e autoridades de saúde diante do aumento do risco de dengue, principalmente nas regiões Sul e Sudeste do país. O fenômeno provoca aumento de temperatura e chuva, criando condições favoráveis para a proliferação do Aedes aegypti, mosquito transmissor da doença.

Para conter futuros avanços, a Secretaria da Saúde de São Paulo lançou o Plano Estadual de Preparação e Resposta em Saúde para o Fenômeno El Niño, focando na identificação de regiões prioritárias e apoio técnico aos municípios. Além disso, o programa IGM SUS Paulista repassou mais de R$ 1,5 bilhão às prefeituras desde 2024 para reforçar a Atenção Primária no combate às arboviroses urbanas.

Segundo a infectologista Tassiana Galvão, da Santa Casa de São Roque, unidade gerenciada pelo CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”, em parceria com a Prefeitura de São Roque, o aumento dos casos está diretamente ligado às condições climáticas.

O excesso de chuvas aumenta a quantidade de focos de reprodução e as temperaturas elevadas aceleram o desenvolvimento do mosquito, o que resulta em maior circulação do vírus e mais casos”, afirma.

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Como diferenciar a dengue de outras viroses comuns?

A médica explica que existem quatro sorotipos da dengue (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4) e que os sintomas iniciais tendem a ser semelhantes. “O que muda é a gravidade, principalmente em pessoas que já tiveram a doença por outro sorotipo”, diz. Nesses casos, aumenta a chance de complicações como sangramentos, queda de pressão e dor abdominal persistente.

Na prática, diferenciar dengue de outras viroses comuns, como gripe ou Covid-19, nem sempre é simples. “Ela costuma provocar febre alta, dores intensas no corpo, dor de cabeça e mal-estar intenso, enquanto infecções respiratórias tendem a vir acompanhadas de tosse, coriza e dor de garganta”, explica. A orientação é buscar avaliação médica, já que o diagnóstico precoce influencia diretamente a evolução do quadro.

Alguns sinais exigem atenção imediata, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, sonolência excessiva ou queda de pressão. “Esses sintomas indicam risco de agravamento e demandam avaliação rápida”, afirma. Idosos, gestantes, crianças pequenas e pessoas com doenças crônicas ou imunossuprimidas apresentam maior risco de complicações.

Outro alerta é contra a automedicação. “Anti-inflamatórios e ácido acetilsalicílico devem ser evitados, pois aumentam o risco de sangramentos”. A médica reforça ainda que a hidratação adequada também é fundamental durante o quadro, ajudando na recuperação e na redução de complicações.

Mesmo após a melhora inicial, o acompanhamento segue sendo importante, já que casos aparentemente leves podem evoluir de forma inesperada. Avanços nos testes rápidos têm facilitado o diagnóstico nos primeiros dias da infecção, permitindo intervenções mais precoces.

Cuidados e vacinação: o que muda para o próximo ciclo

O perigo da dengue no inverno: por que a prevenção começa agora

No âmbito da imunização, o cenário nacional conta com avanços. Desde janeiro de 2026, o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a aplicar a Butantan-DV, a primeira vacina de dose única contra a dengue do mundo. Destinada à população de 12 a 59 anos, a vacina apresentou 74,7% de eficácia contra casos sintomáticos e mais de 90% de proteção contra formas graves da doença.

Entretanto, especialistas lembram que a vacina é apenas uma das camadas de proteção.  Além do cuidado individual, a prevenção continua sendo a principal estratégia contra a dengue. “Eliminar água parada em recipientes domésticos, manter caixas-d’água bem vedadas e observar ralos, bandejas e vasos de plantas são medidas simples que reduzem significativamente o risco de transmissão”, conclui.

O erro mais comum é tratar a prevenção como resposta a um surto. O mosquito que vai causar a epidemia de fevereiro está se reproduzindo agora, num prato de planta que ninguém olhou. Prevenção de arbovirose é uma rotina de meses, não uma reação de semanas”, explica Mario Ferretti, líder médico na Alice.

Guia de prevenção: 5 medidas essenciais

Para evitar novos surtos no próximo verão, o Dr. Mario Ferretti elenca recomendações fundamentais:

  1. Eliminar criadouros semanalmente: Checar água parada em pratos de vasos, pneus, calhas e caixas d’água. A verificação deve ser uma rotina constante.

  2. Verificar a elegibilidade para a vacina: Consultar profissionais de saúde para checar os critérios do SUS, lembrando que há contraindicações específicas para gestantes, lactantes e idosos acima de 60 anos.

  3. Reduzir a exposição a picadas: Utilizar repelentes registrados na Anvisa, roupas compridas e telas protetoras, atentos ao hábito prioritariamente diurno do Aedes aegypti.

  4. Reconhecer os sinais de alarme: Ficar atento a sintomas graves como dor abdominal intensa, vômitos contínuos e sangramentos.

  5. Evitar a automedicação: Medicamentos comuns podem agravar o risco de sangramentos no quadro de dengue; a avaliação médica prévia é indispensável.

 

Região Noroeste lidera incidência de casos em SP

O número de casos de dengue em São Paulo demonstra a persistência da circulação do vírus no estado. Do total de confirmações, 57.402 são de dengue clássica, 1.180 de dengue com sinais de alarme e 101 classificadas como dengue grave. O município de Taubaté lidera o índice de mortalidade no estado, somando 11 mortes — sendo sete pacientes entre 10 e 79 anos e quatro com mais de 80 anos.

Segundo dados atualizados do Núcleo de Informações Estratégicas em Saúde (NIES) de São Paulo, há ainda 65.939 casos prováveis e 7.256 em investigação no estado. O panorama epidemiológico revela uma forte concentração regional da doença. As regiões de Araçatuba, Presidente Prudente e São José do Rio Preto, no Noroeste paulista, lideram a lista com o maior coeficiente de incidência por 100 mil habitantes, seguidas por Taubaté, Barretos e Franca.

Em relação aos números absolutos, a Grande São Paulo ocupa o primeiro lugar em volume de infectados, com 12.919 confirmações — embora apresente uma das menores taxas proporcionais por habitante. Já na lista de municípios com os maiores acumulados de infecções estão Taubaté (9.666 casos), São José do Rio Preto (7.535), Campinas (7.018) e Araçatuba (5.628). Taubaté destaca-se também como a cidade com o maior número de óbitos registrados no estado, somando 18 mortes por dengue.

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Com Assessorias e Agência Brasil

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