Por muito tempo, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) foi associado quase exclusivamente à imagem de uma criança inquieta e com dificuldade de permanecer sentada na sala de aula. Essa visão limitada fez com que milhares de pessoas chegassem à vida adulta sem entender por que sempre enfrentaram obstáculos com organização, foco, rotina e regulação emocional.

Hoje, em meio ao aumento de informações e às novas demandas do mercado, cada vez mais adultos — e especialmente jovens da Geração Z — têm recebido o diagnóstico apenas depois dos 30 anos, frequentemente após décadas de sofrimento silencioso. A data de 13 de julho, quando é celebrado o Dia Mundial de Conscientização do TDAH, reforça a importância desse debate.

Segundo o médico psiquiatra Guido Boabaid May, o transtorno nem sempre se manifesta de forma estereotipada na maturidade. “Em adultos, especialmente em mulheres, ele pode surgir mais como desorganização, dificuldade de iniciar e concluir tarefas, esquecimento, exaustão mental, instabilidade emocional e uma sensação constante de estar ‘correndo atrás do prejuízo’”, explica.

Sinais ignorados e estratégias de compensação

Na prática, muitos sintomas costumam ser interpretados como falhas de caráter e não como manifestações de um transtorno neurobiológico. Procrastinação crônica, atrasos frequentes, perda de objetos, facilidade para começar projetos sem terminá-los e a oscilação entre a distração total e o hiperfoco são alguns exemplos.

“Muitas vezes a pessoa ouve desde cedo que é ‘desorganizada’, ‘preguiçosa’, ‘avoada’ ou ‘intensa’, quando na verdade pode haver uma dificuldade de autorregulação e de funções executivas”, ressalta o psiquiatra.

Muitos adultos conseguiram atravessar a infância e a adolescência compensando os sintomas com apoio familiar, rotinas muito rígidas ou alto desempenho intelectual. No entanto, quando as exigências da vida adulta se acumulam — prazos, contas, filhos e responsabilidades corporativas —, a estrutura externa diminui e a conta chega. “O problema aparece não porque o TDAH ‘surgiu’ aos 30, mas porque as estratégias compensatórias deixam de dar conta”, afirma May.

Essa descoberta tardia costuma vir acompanhada de um histórico pesado de frustrações. Anos acreditando que faltava apenas força de vontade geram marcas profundas na saúde mental, provocando culpa, vergonha, baixa autoestima, ansiedade e depressão secundária.

O impacto no mercado de trabalho e a Geração Z

Com a entrada da Geração Z no mercado de trabalho, a pauta da neurodiversidade e da saúde mental no ambiente corporativo ganhou força extra. O cenário também dialoga com as atualizações da norma regulamentadora NR-1, que ampliou a atenção aos riscos psicossociais no trabalho.

No ambiente corporativo, os sintomas podem afetar diretamente a gestão do tempo, o cumprimento de prazos e a priorização de demandas, gerando sobrecarga física e emocional. A diferença é que a Geração Z já cresceu em um contexto com mais acesso à informação e menor estigma, o que acelera a busca por auxílio especializado ao perceber que o esforço para alcançar resultados simples está desproporcional.

Diagnóstico criterioso e caminhos de tratamento

O psiquiatra faz um alerta importante: o diagnóstico precisa ser minucioso. Sintomas como falta de concentração, esquecimento e oscilações de foco são comuns a quadros de ansiedade, depressão, burnout e privação de sono. Como não existe um exame de sangue ou de imagem único para confirmar a condição, a avaliação depende de uma análise clínica detalhada e do histórico de vida do paciente.

O diagnóstico bem feito não serve para criar um rótulo, mas para explicar um padrão de funcionamento e abrir caminho para o tratamento, estratégias práticas e reconstrução da autoimagem”, destaca o médico.

O tratamento do TDAH é multidisciplinar e costuma incluir psicoeducação, psicoterapia focada no desenvolvimento de habilidades executivas, organização do ambiente e, quando indicado, uso de medicação.

Nesse contexto, ferramentas como a farmacogenética — estudo de como o perfil genético do paciente influencia a resposta a determinados medicamentos — têm surgido como aliadas para personalizar a conduta e reduzir o tempo de adaptação aos remédios. Mais do que buscar produtividade a qualquer custo, o foco principal é devolver a autonomia e garantir qualidade de vida ao paciente.

Fonte: GnTech

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