Conversamos com máquinas todos os dias e já começamos a tratá-las como interlocutoras. Contamos problemas, pedimos conselhos, solicitamos ajuda para tomar decisões e agradecemos quando uma resposta parece resolver alguma coisa. Também ficamos irritados quando a inteligência artificial não entende o que queremos. Em poucos anos, uma tecnologia apresentada inicialmente pela capacidade de produzir textos e imagens passou a participar de situações marcadas por expectativa, confiança, frustração e afeto.
É difícil não pensar em emoção diante dessa nova relação. Uma pessoa conta ao ChatGPT que perdeu o emprego e recebe palavras de acolhimento. Outra compartilha uma conquista e encontra uma resposta entusiasmada. Alguém descreve uma crise amorosa e recebe sugestões formuladas em tom cuidadoso. Nada disso significa que a máquina esteja triste, feliz ou preocupada. Os sistemas atuais produzem linguagem a partir de padrões, sem que tenhamos evidências de uma experiência subjetiva semelhante à nossa.
A questão fica mais interessante quando deixamos de procurar sentimentos dentro da máquina e observamos a relação que estabelecemos com ela. Uma resposta pode confortar mesmo que quem a produziu não experimente conforto. Uma frase pode provocar raiva sem que seu autor algorítmico tenha pretendido nos irritar. A emoção existe na experiência daquele que lê e reage. A inteligência artificial passa, assim, a participar de relações que produzem efeitos emocionais bastante concretos.
Essa discussão encontra uma referência curiosamente atual no pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Em O Anti-Édipo, publicado em 1972, os filósofos franceses apresentaram o conceito de “máquinas desejantes”. Evidentemente, não estavam falando de computadores apaixonados ou robôs dotados de sentimentos. Questionavam uma concepção do desejo restrita à interioridade do indivíduo e propunham observá-lo como produção, circulação e conexão entre diferentes elementos da vida social.
Para Deleuze e Guattari, estamos permanentemente envolvidos em conexões entre pessoas, objetos, instituições, tecnologias, discursos e formas de organização social. A máquina não aparece simplesmente como algo externo ao humano. Ela integra circuitos nos quais desejos são produzidos e relações são estabelecidas. Meio século depois, essa perspectiva oferece uma chave interessante para observar sistemas capazes de conversar conosco usando uma linguagem que reconhecemos como próxima, gentil, agressiva, divertida ou acolhedora.
Outro conceito ajuda a avançar nessa reflexão: o afeto. Deleuze recupera em Spinoza uma compreensão que não reduz o afeto a sentimentos nomeados, como alegria, tristeza, medo ou paixão. Interessa também a capacidade que os encontros possuem de produzir mudanças, ampliar ou reduzir nossa potência de agir. Somos afetados por pessoas, acontecimentos, imagens, palavras e objetos. Sob essa perspectiva, uma tecnologia também pode participar de um encontro capaz de modificar quem interage com ela.
A inteligência artificial torna essa discussão especialmente concreta porque opera por meio da linguagem. Durante décadas, usamos computadores principalmente para executar comandos, preencher formulários, fazer cálculos e localizar informações. Não costumávamos imaginar que uma calculadora compreendia nossas dificuldades ou que um mecanismo de busca se preocupava conosco. A conversa modifica essa percepção porque transporta a tecnologia para um espaço no qual estamos acostumados a reconhecer a presença de outra pessoa.
É pela linguagem que consolamos, seduzimos, discutimos, ensinamos, mentimos, pedimos desculpas e demonstramos carinho. Quando uma máquina passa a operar com desenvoltura nesse território, tendemos a atribuir intenção ao que recebemos. Sabemos racionalmente que existe um sistema computacional produzindo aquelas palavras, mas reagimos ao significado delas. A experiência pode parecer contraditória somente enquanto insistimos em imaginar que toda relação afetiva depende da existência de duas consciências equivalentes.
Há ainda uma camada importante nessa história. A capacidade da inteligência artificial de produzir uma resposta considerada sensível foi construída a partir de uma quantidade imensa de linguagem humana. Livros, notícias, páginas da internet, fóruns e inúmeras outras formas de expressão contribuíram para que esses sistemas aprendessem regularidades da nossa comunicação. A máquina reconhece estatisticamente formas pelas quais seres humanos costumam falar sobre perda, felicidade, medo, amor ou esperança.
Existe, portanto, uma espécie de retorno. Durante séculos registramos sentimentos em palavras e deixamos rastros deles em cartas, livros, jornais, conversas e, mais recentemente, plataformas digitais. Agora parte desse patrimônio linguístico reaparece reorganizado por sistemas capazes de produzir novas combinações em segundos. Diante da tela, podemos reconhecer como empatia algo que resulta de processamento computacional, porque as formas linguísticas utilizadas para expressá-la foram produzidas historicamente por seres humanos.
O fenômeno merece atenção porque a presença dessas máquinas em nossa vida cotidiana tende a crescer. Elas já participam da educação, do trabalho e das relações pessoais, além de serem utilizadas para conversas sobre solidão, ansiedade, conflitos e decisões importantes. Isso exige olhar para a inteligência artificial também como um fenômeno comunicacional e cultural. A discussão técnica sobre o funcionamento dos modelos explica apenas uma parte do que está acontecendo quando começamos a conversar com eles.
Não precisamos atribuir consciência à inteligência artificial para reconhecer a dimensão afetiva dessas interações. Uma máquina pode não experimentar tristeza e ainda participar de uma conversa que alivia a tristeza de alguém. Pode não sentir entusiasmo e contribuir para que uma pessoa se sinta reconhecida. O ponto central está nos efeitos produzidos pela relação. Deleuze e Guattari ajudam justamente a deslocar o olhar do interior de cada elemento para as conexões estabelecidas entre eles.
Por isso, saber se as máquinas algum dia serão capazes de sentir continua sendo uma questão relevante, mas não precisa organizar toda a discussão sobre emoção e inteligência artificial. Há um fenômeno anterior e já observável: sistemas que não sabemos considerar conscientes estão entrando na circulação cotidiana dos nossos afetos. Entender essa transformação exige observar menos o suposto sentimento da máquina e prestar mais atenção ao tipo de relação que estamos aprendendo a construir com ela.



