Um ano após a entrada em vigor da Lei nº 15.100/2025, que restringiu o uso de celulares nas escolas brasileiras, começam a surgir os primeiros dados capazes de alimentar um debate que, até então, era marcado muito mais por opiniões do que por evidências. A pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em parceria com o Instituto Alana e a Unesco no Brasil, oferece um retrato inicial da percepção de gestores escolares sobre os efeitos da medida.
Os números chamam a atenção. Segundo o levantamento, 92% das escolas aderiram à restrição. Para 97% dos gestores, houve aumento da participação dos estudantes nas atividades escolares. Entre os professores, 95% afirmam que a concentração dos alunos melhorou. Além disso, 86% dos diretores acreditam que a redução do uso dos aparelhos contribuiu para diminuir a ansiedade dos estudantes, enquanto 55% perceberam queda nos conflitos e nas agressões físicas dentro da escola.
À primeira vista, os resultados parecem confirmar aquilo que muitos educadores já percebiam na prática: o celular disputa permanentemente a atenção dos estudantes. Cada notificação interrompe uma explicação; cada mensagem fragmenta a concentração; e cada acesso às redes sociais concorre com o processo de aprendizagem. Some-se a isso o uso discreto de fones de ouvido sem fio, muitas vezes ocultos sob os cabelos, o que dificulta ainda mais a atenção durante as atividades escolares. Sob essa perspectiva, limitar o uso dos aparelhos não representa um retrocesso tecnológico, mas uma estratégia para recuperar um ambiente mais favorável ao ensino.
Há também uma dimensão importante relacionada à convivência escolar. O celular ampliou o alcance do bullying e do ciberbullying, facilitou gravações não autorizadas e tornou mais difícil separar os conflitos presenciais daqueles alimentados pelas redes sociais. Não surpreende, portanto, que parte das escolas relate uma melhora no clima escolar após a restrição.
A discussão não termina aqui
O primeiro cuidado é metodológico. A pesquisa apresenta a percepção dos gestores escolares, e isso tem enorme valor, afinal são eles que acompanham diariamente o funcionamento das instituições. Ainda assim, percepção não é sinônimo de comprovação científica. Será necessário acompanhar indicadores de aprendizagem, desempenho acadêmico, saúde mental e convivência escolar ao longo dos próximos anos para verificar até que ponto esses efeitos se consolidam.
Outro aspecto merece reflexão. Retirar o celular da sala de aula não elimina a necessidade de ensinar seu uso responsável. A sociedade está cada vez mais conectada, e os estudantes continuarão convivendo com redes sociais, Inteligência Artificial, algoritmos e desinformação fora dos muros da escola. Ignorar essa realidade seria um erro tão grande quanto permitir o uso irrestrito dos aparelhos.
A educação digital não pode ser confundida com a simples presença da tecnologia. Ela envolve desenvolver pensamento crítico, compreender como funcionam os algoritmos, identificar notícias falsas, proteger dados pessoais e construir hábitos saudáveis de uso das telas. Também é preciso cobrar das plataformas digitais o cumprimento das normas de proteção previstas para crianças e adolescentes no ambiente on-line — discussão que tem sido sintetizada na expressão “ECA Digital”, em referência às propostas de atualização e fortalecimento da proteção prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente diante dos desafios do mundo conectado. Em outras palavras, proibir o celular durante determinados momentos não substitui o trabalho pedagógico de formar cidadãos capazes de utilizá-lo com autonomia, senso crítico e responsabilidade.
Há ainda um desafio relacionado à inovação. Em muitas escolas, especialmente antes da lei, o smartphone já era utilizado para pesquisas, produção de vídeos, registros fotográficos, atividades colaborativas e projetos de aprendizagem. Uma restrição excessivamente rígida pode limitar essas possibilidades se não vier acompanhada de regras claras para usos pedagógicos planejados. A experiência de muitos professores demonstra que, quando integrado a objetivos de aprendizagem bem definidos, o celular pode se tornar um importante recurso didático. Ao longo da minha trajetória docente, por exemplo, desenvolvi diversas atividades com estudantes dos anos iniciais do Ensino Fundamental utilizando os próprios dispositivos móveis como ferramenta de aprendizagem.
Também é preciso considerar as desigualdades. Para muitos estudantes brasileiros, o celular é o principal — e, às vezes, o único — dispositivo de acesso à internet. Se a escola restringe seu uso, mas não oferece computadores, tablets ou conectividade adequada para atividades educacionais, corre-se o risco de reduzir oportunidades de desenvolvimento das competências digitais exigidas pela sociedade contemporânea.
O maior mérito dessa pesquisa é justamente mostrar que a discussão não deve ser reduzida à pergunta: “celular pode ou não pode?”. A questão mais importante é outra: que tipo de relação queremos construir entre educação e tecnologia?
Os dados indicam que a restrição trouxe benefícios percebidos pelas escolas, especialmente na atenção, na participação e na convivência. Esses resultados merecem ser considerados. Mas eles não autorizam uma visão simplista segundo a qual bastaria retirar os celulares para resolver os desafios da educação.
O verdadeiro desafio continua sendo formar estudantes capazes de saber quando usar a tecnologia, para que utilizá-la e, principalmente, quando deixá-la de lado. Afinal, educar para o mundo digital não significa manter uma tela permanentemente acesa, mas ensinar que o pensamento crítico deve permanecer ligado o tempo todo.




