

Após o acidente, a família procurou o Corpo de Bombeiros, mas só teve acesso ao soro antiescorpiônico em um hospital regional. De lá, a criança foi encaminhada para uma unidade de terapia intensiva (UTI). Valentina foi intubada e permaneceu em coma induzido por 24 dias. Ela faleceu no último domingo (5).
Além de terem o corpo menor — o que faz o veneno agir de forma mais intensa —, muitas vezes não conseguem descrever o que aconteceu, o que atrasa o diagnóstico e o atendimento.
No Brasil há mais de 170 espécies de escorpião e os efeitos das picadas podem ser mais ou menos perigosos, conforme a espécie e quem recebe o veneno. O escorpião-amarelo, com ampla distribuição em todas as macrorregiões do Brasil, é o responsável pelos acidentes mais graves.
Segundo Joelma Gonçalves Martin, especialista da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), as crianças são mais vulneráveis à substância injetada pelo escorpião, por serem menores, com menos massa corporal que um adulto.
É um veneno extremamente agressivo. A criança é picada, recebe a mesma quantidade de veneno que um adulto receberia, mas nela o veneno se distribui por um organismo que tem um peso corporal menor. Então isso vai resultar numa dose de toxina por quilo de peso maior nas crianças, do que no adulto”, explica a pediatra.
De acordo com a dermatologista pediátrica Flavia Prevedello, do Hospital Pequeno Príncipe, o risco de complicações e morte é maior nas faixas etárias mais jovens, especialmente nas menores de 5 anos. “A picada de escorpião costuma causar muita dor, de aparecimento rápido, e pode evoluir com sintomas graves. Por isso, o atendimento médico imediato é fundamental”, orienta a especialista.
Sintomas
De acordo com Joelma, o veneno do escorpião possui toxinas que atuam no sistema nervoso, causando diferentes sintomas que afetam principalmente o coração e o sistema neurológico.
Essas substâncias podem causar ataque cardíaco importante, podem levar à hipertensão, levar à edema agudo de pulmão. E, no caso do coraçãozinho da criança e do sistema nervoso isso é mais intenso, já que as crianças têm menor reserva fisiológica para suportar essas alterações”, diz.
De acordo com a pediatra, o agravamento do quadro logo apresenta outros sinais como taquicardia, sudorese, sinais de pressão alta, de pressão baixa, convulsão, agitação psicomotora, sonolência, falta de resposta neurológica, bradicardia (batimentos lentos), dor abdominal e falta de ar.
A intensidade dos sintomas da picada do escorpião vai depender, claro, da quantidade de veneno que foi inoculada e da idade do paciente, sendo que as crianças têm sintomatologia mais grave”, reforça Joelma Martin.
Atendimento
Os sinais da picada na pele são pouco visíveis, mas a dor intensa é um forte sinal de que a picada existiu e que é necessário rapidez na resposta médica especialmente de crianças, idosos e pessoas imunodeprimidas.
É muito importante que nós tenhamos nos municípios um mapeamento de onde é o serviço mais próximo que tenha o soro antiescorpiônico, para que os pacientes possam ser imediatamente encaminhados para lá, porque efetivamente o tempo de recebimento deste soro é responsável pela melhor resposta”, explica a pediatra.
De acordo com informações divulgadas pelo Centro de Informação e Assistência Toxicológica o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192) ou o Corpo de Bombeiros (193) podem ser acionados para transportar o paciente até os hospitais de referência para soroterapia de acidentes por animais peçonhentos.
Cada Secretaria Estadual de Saúde é responsável por manter atualizada a lista desses hospitais.
Segundo Joelma Martin é importante ter essa informação antes mesmo do acidente acontecer, para evitar perder tempo na busca por outros serviços de saúde que não possuam o soro antiescorpiônico.
Higienizar o local [da picada]. Eventualmente, pode dar um remédio com analgésico via oral, que costuma ser pouco eficaz, mas é para minimizar um pouquinho a dor. Levantar o membro [que recebeu a picada], também pode ser complementos do tratamento importantes, mas que não devem atrasar o encaminhamento ao hospital”, diz a pediatra.
Prevenção
Como as crianças são mais vulneráveis aos casos graves de envenenamento, é necessário redobrar a prevenção entre elas.
Orientar as crianças a chacoalhar os sapatinhos que estão ali debaixo da cama, as roupas que estão paradas há muito tempo, não irem brincar em lugares com muitos buracos na parede, com muitos resíduos, acúmulos de material de construção, trilhos de trem. Essas coisas todas retém ou escondem o escorpião”, destaca Joelma.
O manual do Ministério da Saúde que trata de acidentes por escorpiões, alerta que a limpeza de ambientes é fundamental para evitar a presença de insetos que sirvam de alimento ao escorpião. O uso de soleiras, telas e vedações de ralos, pias em taque fora de uso também são barreiras.
Afastar camas e berços das paredes e evitar que roupas de cama, mosquiteiro e outros tipos de panos encostem no chão, para evitar a subida do escorpião. E quando identificar a sua presença, comunicar a vigilância ambiental.
Os escorpiões se multiplicam por partenogênese, portanto eles têm os filhotinhos sozinhos mesmo. Quando uma pessoa encontra um escorpião, em geral, existe uma família deles por perto”, enfatiza a pediatra.
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Como identificar a picada de escorpião em crianças?
A picada de escorpião gera dor intensa e localizada, e a área pode ficar vermelha e inchada. Segundo a médica, o quadro é bem diferente do apresentado em picadas de insetos comuns, como pernilongos ou formigas, que causam coceira leve e várias lesões pequenas.
Em crianças pequenas, a dor é desproporcional ao tamanho da lesão, o que ajuda a suspeitar do acidente. A picada de escorpião costuma ser única e extremamente dolorosa”, explica Flavia Prevedello.
Sinais que exigem atendimento imediato
Além da dor intensa, podem surgir sintomas sistêmicos, que indicam a disseminação do veneno no corpo. Entre eles:
- agitação e irritabilidade;
- aumento da salivação;
- tremores e espasmos musculares;
- taquicardia (coração acelerado);
- dificuldade para respirar.
“Ao perceber esses sinais, os pais devem levar a criança imediatamente ao pronto-atendimento. Quanto mais rápido, menor o risco de complicações”, reforça a dermatologista.
ATENÇÃO! Em caso de emergência, entre em contato com o SAMU (192) ou com o Corpo de Bombeiros (193). Além disso, o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) dispõe de médicos e enfermeiros que prestam orientações em casos de acidentes com animais peçonhentos e outras intoxicações por meio do telefone 0800 644 6774.
O que não fazer em caso de picada de escorpião em crianças?
É importante evitar medidas caseiras que possam agravar o quadro:
- não automedique a criança;
- não faça torniquete;
- não sugue o local da picada;
- não aplique pomadas, álcool, óleo ou outros produtos.
- Nada deve ser aplicado ou ingerido sem avaliação médica. A única medida que pode ajudar até chegar à unidade é colocar uma compressa fria sobre o local para aliviar a dor”, orienta.
Tratamento: o papel do soro antiveneno
No pronto-atendimento, o diagnóstico é clínico e rápido. O tratamento envolve a aplicação do soro antiescorpiônico e o controle dos sintomas. “Conforme a intensidade, são feitas medidas de suporte para tratar questões cardiovasculares e neurológicas. Às vezes, é preciso usar medicamentos anticonvulsivantes, porque a criança pode apresentar espasmos”, explica a médica.
Como prevenir acidentes com escorpiões?
O escorpião é um animal noturno e se abriga em locais escuros e úmidos, como frestas, entulhos e ralos. Para evitar acidentes, siga as recomendações da especialista:
- mantenha quintais e ambientes limpos e sem entulhos;
- vede frestas, buracos e ralos;
- guarde sapatos e roupas em locais fechados;
- afaste berços e camas das paredes;
- não deixe roupas de cama encostando no chão.
O cuidado principal é com a higiene e organização dos ambientes. Evitar acúmulo de folhas e materiais ajuda a afastar insetos e, consequentemente, os escorpiões que se alimentam deles”, finaliza.
Com Assessorias e Agência Brasil
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