Timotheo – o nosso gato caramelo que antes de ser adotado atendia pela curiosa alcunha de ‘Piroquinha‘ – é a alegria da casa. Ele chegou nas nossas vidas em dezembro de 2020, no auge da pandemia de Covid-19, e um ano depois veio seu irmão, o frajola Theodore (ex-Ragu). Mas desde a noite de domingo (5 de julho), notamos que o Timothinho começou a ficar amoado, quieto, com movimentos lentificados. Não queria interagir com a gente. Nem miar ele miava.
No dia seguinte, rejeitou a ração, a água e já não conseguia fazer xixi ou cocô. Pra quem tem dois devoradores de ração em casa, a falta de apetite é sinal de alerta, mas não usar a caixinha é ainda mais preocupante. Só quem é mãe ou pai de pet sabe: quando eles adoecem, nosso coração aperta. Foi exatamente esse o misto de pavor e angústia que senti após passar a madrugada em claro.
A aflição de ver meu gatão prostrado durante a vigília e o pânico alimentado pelas pesquisas apavorantes no “Dr. Google” e na “Dra IA” me fizeram tomar uma decisão que mudou meu olhar sobre o serviço público na saúde animal – até então, apenas a vacina antirrábica nossos gatos haviam tomado uma vez pelo SUS.
Uma corrida contra o tempo para salvar nosso gatão
Antes de contar nossa saga em busca de atendimento digno, é preciso contextualizar os fatos. Timotheo sofre com crises epísódicas de DTUIF – Doença do Trato Urinário Inferior de Felinos, que é muito comum em grande parte dos gatos, gatinhos e gatões, já que eles têm dificuldades em beber água.
Por conta de obstruções na uretra, ele já havia sido hospitalizado duas vezes (em maio de 2023 e em maio de 2025). Na primeira delas, a ultrassonografia acusou cistite, gastrite, nefropatia e esplenomegalia (baço aumentado).
Em ambas as vezes, procuramos clínicas veterinárias ditas populares na Zona Sul carioca, onde tive que desembolsar quantias razoáveis (veja mais aqui). Desta vez, decidi buscar ajuda do Sistema Único de Saúde, o nosso necessário, mas tão maltratado e criticado SUS.
A grata surpresa começou logo nas primeiras horas do dia. Cheguei por volta das seis da manhã ao Hospital Municipal Veterinário Jorge Vaitsman, na Mangueira, Zona Norte da cidade. As senhas limitadas começam a ser distribuídas às 5h, com limites que variam entre 100 e 200 atendimentos diários.
O movimento constante de tutores com seus cães e gatos circulando pelo local ainda antes de amanhecer totalmente mostrava que eu não estava sozinha nessa jornada. Peguei a senha 48. Pontualmente às 8h fomos chamados para o cadastro inicial.
Uma lição de acolhimento e empatia
O atendimento humanizado começou logo na fila. Uma veterinária realizava a pré-triagem e, ao apalpar a barriguinha do Timotheo, percebeu a dor aguda. Sem hesitar, fomos encaminhados bem rapidamente para a emergência.
Às 9h, ele já dava entrada na “sala vermelha”, recebendo soro na veia, sedação e a necessária lavagem com soro fisiológico para desobstrução da uretra. Seu caso era realmente grave e havia risco de morte.
Mas a agilidade, eficiência e carinho da equipe tornaram esse momento bem mais fácil. Da recepcionista Thais ao médico veterinário responsável, Jhonatha Belini, passando pelos auxiliares de enfermagem Leonardo e Juliana, ficou claro que a dedicação ali supera qualquer expectativa.
E não tiro só por mim: pude testemunhar uma senhora que está há um mês na luta com o gato dela com a mesma condição do nosso, só que ele tem outras complicações e por isso já tiveram que retornar à unidade diversas vezes. Apesar da gravidade do caso, a equipe não desistiu dele. E mantém a esperança de salvá-lo.
Assim como o Timotheo, seu companheiro da emergência Mingau também não tem raça definida – como a grande maioria dos animais adotados no Brasil. E nem por isso sofre qualquer tipo de discriminação. Pontaço para o SUS, fazendo jus ao conceito que une um serviço universal. integral e gratuito.
Prevenção, cuidados e o peso no bolso
É importante lembrar que gatos têm grande predisposição a problemas urinários. O manejo ambiental, estímulo ao consumo de água (que costuma diminuir bastante no inverno) e alimentação adequada são fundamentais para prevenir crises como a do Timotheo. Além disso, eles são animais sensíveis – uma simples mudança de móveis dentro de casa podem deixá-los estressados, como me explicou a Juliana.
Curiosamente, seu mal-estar coincidiu com o vexame da Seleção Brasileira na Copa do Mundo nos EUA. Seria a versão animal da tal “ressaca emocional” da derrota para a Noruega e da agitação que sentimos durante jogos decisivos acabam reverberando no ambiente e afetando nossos pets? Isso é papo para outro post.
O fato é que gatos em geral são seres extremamente sensíveis às mudanças de energia e à rotina da casa. Esse estado de tensão emocional, somado à sua predisposição natural a problemas urinários, pode ter sido o gatilho para ele evoluir tão rápido para um quadro grave de obstrução uretral que me tirou o sono na última madrugada.
Aliás, gatos castrados muito jovens – o que não foi o caso do Timotheo – tendem a desenvolver mais essa condição, que entope o canal da uretra com cristais que chegam a formar uma massa sólida, causando dor e sofrimento aos nossos felinos. Quando as crises de obstrução uretral acontecem, o tempo é o maior inimigo, e o atendimento veterinário rápido é crucial para evitar complicações severas que podem levar nosso pet à morte em poucas horas.
Continuidade do tratamento e segurança financeira
Nesse ponto, o centenário hospital da Mangueira sai na frente. O antigo Instituto de Medicina Veterinária Jorge Vaitsman foi fundado originalmente no ano de 1917 e passou por recente reforma e ampliação. Hoje, impressiona por sua estrutura moderna. Não fica devendo absolutamente nada a clínicas particulares que cobram fortunas ou aos “planos pet“, que muitas vezes vendem falsas promessas e recusam animais com doenças preexistentes.
Outra grande vantagem do serviço municipal está na democratização do acesso à saúde. Quem possui o Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) do governo federal não paga absolutamente nada. Para os demais, como foi o meu caso, é cobrada uma contribuição com base em uma tabela social – o que considero mais do justo e necessário – , porém, com valor muito inferior ao mercado. E com uma facilidade: o hospital emite um boleto bancário das taxas (no meu caso, R$ 42,78) com vencimento para 30 dias!
Ao todo — incluindo o valor da consulta que dá direito aos procedimentos de emergência e medicações no local; o transporte de aplicativo e até o cafezinho com bolo servido por uma simpática ambulante do lado de fora da unidade —, gastei cerca de R$ 80. Bem menos que o custo de qualquer consulta no particular! E detalhe: ainda saímos de lá com a microchipagem obrigatória (uma medida que garante a segurança dos pets no Rio).
E se precisarmos retornar em uma nova crise do Timotheo nos próximos dias? A tranquilidade é garantida: o custo será de apenas R$ 31,64 pelas medicações, uma economia gigantesca em comparação às diárias e taxas proibitivas de um hospitalveterinário particular.
Um diferencial fundamental deste atendimento público é o suporte pós-alta. Já saímos com o encaminhamento para exames complementares de sangue e ultrassonografia, que serão realizados na própria unidade, dando prosseguindo ao atendimento ambulatorial para investigar melhor com um especialista, se necessário, e prevenir novas crises.
SUS para pets: quebrando estigmas
Existem pontos a melhorar? Claro que sim! Um olhar mais atento à assepsia da mesa de aço inoxidável usada para os procedimentos na emergência poderia ajudar a evitar riscos de contaminação cruzada. Também notei que faltava papel higiênico no banheiro feminino para as tutoras dos pacientes. Detalhes que, embora precisem de ajuste, não apagam o brilho da equipe e do serviço.
Numa próxima consulta – desta vez, eletiva -, creio que o Timotheo deverá complementar o cadastro como novo ‘cliente’ do hospital, provavelmente já passando por uma anamnese mais criteriosa, pesagem, identificação por foto, atualização da caderneta de vacinação, entre outras avaliações preventivas. Neste momento, o foco era salvar a vida dele. E assim foi feito.
Agora é focar no acompanhamento terapêutico do nosso bichano – que incluirá novas idas à unidade. Mas assim que o Timotheo se recuperar plenamente, já vou programar a ida do irmão dele, meu “godinho” Theodore, para um check-up preventivo e a microchipagem. Apesar da aparente obesidade e da notória compulsão alimentar, ele nunca nos deu sustos ao longo dos últimos 5 anos e 10 meses de vida.
A Saúde Única salvando vidas animais
Saí de lá aliviada e profundamente surpreendida com o padrão de excelência oferecido na unidade. O Sistema Único de Saúde e as políticas públicas sociais tão criticadas por quem não precisa delas funcionam de verdade e salvam vidas — inclusive a dos nossos animais.
Estou convencida de que o SUS, quando aliado à visão da Saúde Única (One Health), é uma ferramenta poderosa de cidadania. Aqui no Vida e Ação, defendemos ferrenhamente este conceito como um pilar editorial do nosso jornalismo de propósito. A Saúde Única reconhece que a saúde dos seres humanos, dos animais e do meio ambiente é indissociável. E como tal, deve ser tratada.
Quando garantimos um tratamento de ponta para um pet em uma unidade pública, estamos não apenas cuidando daquele indivíduo, mas também promovendo o controle de doenças, a prevenção de zoonoses e o equilíbrio sanitário da nossa cidade. É um ciclo virtuoso: um pet saudável reflete diretamente em uma família mais equilibrada e em uma comunidade mais protegida.
Como diz a frase estampada na parede, “amor combina com cuidado”. Viva o SUS. Vida a saúde pública que acolhe!
📍 Onde buscar atendimento veterinário público no Rio
Além da unidade na Mangueira, a prefeitura ampliou o acesso à saúde animal com a inauguração da nova unidade em Irajá, também na zona norte do Rio. Com uma estrutura robusta e um foco ainda maior em agendamentos, o espaço reforça a rede de cuidado municipal.
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Hospital Municipal de Medicina Veterinária Jorge Vaitsman: Av. Bartolomeu de Gusmão 1120 – Mangueira. Funcionamento diário, das 8h às 20h. Senhas distribuídas por ordem de chegada a partir das 5h da manhã (devido à alta demanda, chegue cedo).
- Hospital Municipal Veterinário São Francisco de Assis: Estrutura moderna, com foco em maior fluxo de agendamentos. Funciona todos os dias, das 8h às 20h. Senhas distribuídas a partir das 6h. Endereço: Rua Hanibal Porto, 450 – Irajá. Informações pela Central 1746 da Prefeitura do Rio.
Ambas as unidades oferecem os seguintes serviços:
- Consultas clínicas e emergenciais
- Cirurgias gerais
- Exames laboratoriais e de imagem (ultrassonografia e ecocardiograma)
- Vacinação contra a raiva e microchipagem
- Atendimento ortopédico e acompanhamento clínico
- Tratamento gratuito de esporotricose, com fornecimento de medicação antifúngica para felinos
Dicas para tutores:
Para quem deseja atendimento de qualidade para seu pet, confira as orientações do órgão oficial da Prefeitura do Rio:
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Regra de ouro: É obrigatório estar com o pet na fila.
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Emergências: Casos graves passam por triagem prioritária pelo veterinário de plantão.
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Gratuidade: Consultas, exames e cirurgias são 100% gratuitos para quem apresentar o comprovante do CadÚnico, a Carteirinha de Proteção Animal ou for associado a ONGs cadastradas.
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Valores sociais: Para quem não se enquadra na gratuidade, os serviços seguem uma tabela social (vacinação antirrábica, microchipagem e castração agendada continuam gratuitas para todos).
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