Nunca se falou tanto sobre Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Basta alguém esquecer um compromisso, perder o foco em uma reunião ou se distrair durante uma conversa para surgir a pergunta: “Será que eu tenho TDAH?”. Ao mesmo tempo, nunca passamos tantas horas diante de telas. Nossa atenção passou a ser disputada o tempo inteiro. E será que todos os problemas de concentração que estamos vivendo são realmente um transtorno? A resposta é não.

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição do neurodesenvolvimento. Ele não aparece de repente porque alguém começou a usar mais o celular, mas existe outro fenômeno acontecendo e ele merece tanta atenção quanto.

Nem toda dificuldade de atenção nasce no cérebro. Algumas começam na forma como passamos a viver. Nosso cérebro está sendo treinado para permanecer em estado permanente de estímulo. A cada poucos segundos, mudamos de assunto, alternamos entre aplicativos, respondemos mensagens enquanto assistimos a um vídeo e, muitas vezes, fazemos tudo isso com a televisão ligada ao fundo. Parece produtividade, mas, na prática, estamos fragmentando nossa capacidade de manter a atenção em uma única tarefa.

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Quando manter o foco pode parecer um grande esforço

O cérebro se acostuma com recompensas rápidas, novidades constantes e estímulos incessantes. Depois, quando precisamos ler um livro, estudar, participar de uma reunião ou simplesmente conversar olhando nos olhos de alguém, sentimos dificuldade. Não porque necessariamente exista um transtorno, mas porque nossa atenção foi condicionada a funcionar dessa maneira. Quando tudo prende nossa atenção por alguns segundos, manter o foco por minutos passa a parecer um esforço enorme.

Isso é especialmente preocupante, pois muitos enfrentam dificuldade para esperar, baixa tolerância ao tédio, inquietação e pouca capacidade de concentração. Em alguns casos, há realmente um diagnóstico de TDAH. Em muitos outros, o que encontramos é um cérebro excessivamente estimulado e pouco habituado ao silêncio, à espera e às atividades que exigem atenção sustentada. Nem todo comportamento precisa de um diagnóstico. Alguns precisam, antes de tudo, de uma mudança de rotina.

Viver conectado, interromper constantemente o próprio raciocínio e consumir informação sem pausas também têm consequências importantes para a saúde mental. Isso não significa minimizar o sofrimento de quem convive com o TDAH. Existe uma diferença importante entre um cérebro que apresenta um transtorno do neurodesenvolvimento e um cérebro que foi sobrecarregado pelos hábitos da vida moderna. Essa diferença precisa ser compreendida para que o cuidado seja realmente adequado. Afinal, dar nome ao sofrimento é importante. Dar o nome errado pode atrasar o cuidado que realmente faz diferença.

Enfim, talvez a pergunta mais importante seja: como tenho tratado a minha atenção? Em uma sociedade que disputa cada segundo do nosso foco, proteger a atenção deixou de ser apenas um hábito saudável. Tornou-se um ato de cuidado consigo mesmo. A atenção é um dos bens mais valiosos da saúde mental. E, sem perceber, estamos entregando esse patrimônio em pequenas parcelas todos os dias.

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