O debate sobre a saúde mental e o neurodesenvolvimento ganhou um novo capítulo com as recentes revelações de figuras públicas sobre suas jornadas pessoais. No Dia Mundial de Conscientização sobre o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), celebrado neste 13 de julho, o foco se volta para o impacto das redes sociais e das declarações de famosos na busca por diagnóstico.
Recentemente, a cantora Ana Castela revelou ter recebido o diagnóstico de TDAH. O anúncio reflete um movimento cada vez mais frequente de celebridades — como as apresentadoras Sabrina Sato e Tatá Werneck, a atleta olímpica Simone Biles e a influenciadora Virgínia Fonseca — que decidiram compartilhar suas experiências publicamente, ajudando a quebrar preconceitos históricos.
Para Sabrina Sato, a descoberta funcionou como um divisor de águas. “Receber o diagnóstico de TDAH me trouxe respostas para muitas questões que fizeram parte da minha vida. Entender melhor o transtorno foi um passo importante na minha jornada de autoconhecimento”, afirma a apresentadora, que agora integra ações de conscientização para incentivar o acolhimento e o acesso à informação de qualidade.
Mas, para além dos holofotes e das telas, essa é uma realidade que pulsa na rotina de famílias comuns. Pessoas anônimas, como eu e a minha filha, Maria Clara, de 20 anos, também recebemos o diagnóstico de TDAH e convivemos diariamente com as dificuldades de lidar com um transtorno que, infelizmente, ainda é visto com muito estigma e incompreensão pela sociedade.

Aumento de queixas nos consultórios e dados globais
Esse maior espaço na mídia e em plataformas como o Instagram e o TikTok gerou um efeito imediato: o aumento expressivo de suspeitas e buscas por avaliação especializada. De acordo com a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), estima-se que entre 5% e 8% da população mundial vivam com a condição.
Um estudo internacional de grande porte, publicado em 2026 na revista científica Molecular Psychiatry, apontou que existem cerca de 46,9 milhões de crianças e adolescentes com menos de 20 anos diagnosticados com TDAH no mundo. O levantamento utilizou dados globais abrangentes e identificou uma prevalência de 1,78% nessa faixa etária específica, mostrando que os índices da condição se mantêm estáveis ao longo das últimas décadas, apesar do crescimento populacional.
“O TDAH apresenta uma prevalência muito semelhante no mundo todo e que permanece estável ao longo do tempo. Esse comportamento é diferente do que observamos no Transtorno do Espectro Autista (TEA), que tem registrado aumento nos diagnósticos”, explica a pediatraAnna Dominguez Bohn, presidente do Núcleo de Estudo da Criança com Deficiência da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP) e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
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Como identificar se é sintoma real ou estresse?
O crescimento do interesse pelo tema acende um alerta entre os médicos sobre a necessidade de critérios rigorosos, evitando o autodiagnóstico baseado apenas em vídeos de internet. O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento com bases genéticas e biológicas claras, afetando o funcionamento e a maturação cerebral.
Hoje, há uma maior visibilidade para o transtorno, mas, quando consideramos que muitos dos sintomas podem ser causados por outros motivos, como ansiedade, insônia e estresse, esse destaque pode trazer mais preocupações do que respostas”, esclarece o psiquiatra Rogério Onofre, médico consultor da Libbs.
O especialista lembra que a desatenção ou a agitação ocasionais fazem parte da rotina de qualquer pessoa sob estresse. No TDAH, as manifestações se dividem em três tipos principais:
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Predominantemente desatento: Caracterizado por falta de atenção a detalhes, cometer erros por descuido e extrema dificuldade para concluir tarefas longas.
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Predominantemente hiperativo-impulsivo: Manifestado por agitação constante de mãos e pés, incapacidade de ficar parado ou de esperar a própria vez.
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Combinado: Quando o indivíduo apresenta sintomas simultâneos e equilibrados de desatenção e hiperatividade.
Para que o diagnóstico seja fechado com precisão, a equipe médica avalia se esses comportamentos são intensos, persistentes a longo prazo e se estão presentes em múltiplos ambientes (como em casa, na escola ou no ambiente de trabalho), gerando prejuízos reais no dia a dia.
O desafio das comorbidades
Outro aspecto complexo destacado pelos especialistas é a coexistência do TDAH com outras condições de saúde mental, chamadas na medicina de comorbidades. Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 70% das crianças com o transtorno apresentam algum quadro associado — como ansiedade ou dificuldades específicas de aprendizagem — e pelo menos 10% convivem com três ou mais comorbidades simultâneas.
A identificação correta na infância e o suporte na vida adulta não visam rotular ou corrigir comportamentos de forma rígida, mas estruturar ambientes mais acolhedores. “Mues vezes, os sintomas são vistos com preconceito, como se fossem falta de limite ou simplesmente uma criança teimosa. O tratamento apropriado garante que eles possam desenvolver todo o seu potencial”, finaliza a Dra. Anna Dominguez Bohn.
Para acompanhar as próximas reportagens da nossa série especial sobre o TDAH, acesse aqui.
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