A chegada do inverno traz desafios complexos para a saúde pública, especialmente no que diz respeito ao controle da asma em crianças e adolescentes. Ao contrário do que muitos pensam, o grande vilão desta época do ano não é o frio em si, mas as condições ambientais e de comportamento que a estação impõe.
O hábito de manter janelas fechadas para se proteger das baixas temperaturas, a maior aglomeração de pessoas e o contato com agasalhos e cobertores que ficaram guardados por meses criam o cenário perfeito para a proliferação de ácaros e a circulação de vírus.
Para quem convive com a doença crônica, as infecções virais funcionam como um estopim. Segundo Emilio Pizzichini, coordenador da Comissão Científica de Asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), quando o paciente não realiza o tratamento preventivo contínuo, o impacto do vírus é devastador.
“Se a asma não está bem tratada, bem controlada, o resfriado ou a virose adicionam mais uma inflamação na via aérea da pessoa, nos brônquios, e ela pode ter uma crise”, explica Pizzichini. O especialista reforça que o cuidado com a medicação deve ser mantido durante o ano inteiro, já que a raiz da doença é uma inflamação crônica.
O raio-x das internações no SUS: os menores são as maiores vítimas
O impacto do descontrole da doença no período mais frio do ano é refletido de forma alarmante nos dados oficiais. Um levantamento feito pela organização sem fins lucrativos Umane, com base em dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), revela que crianças e adolescentes de 0 a 14 anos responderam por 70,5% das internações por asma em julho. Naquele mês, o país registrou 4.034 hospitalizações nessa faixa etária — praticamente o dobro das 2.108 contabilizadas em janeiro, no auge do verão.
O cenário anual consolida essa vulnerabilidade: ao longo de um ano completo, o Brasil registrou 52.087 internações por asma, e os menores de 14 anos foram responsáveis por 73,7% desse total.
Para especialistas, grande parte dessas hospitalizações decorre de duas falhas estruturais: a falta de diagnósticos precisos na atenção primária — onde muitas crianças manifestam o chiado no peito sem a devida investigação — e a ausência de orientações preventivas logo no primeiro sinal de crise.
Marcela Marques, pneumologista do Atendimento Multiassistencial de Saúde da Umane, lamenta que o sistema de saúde muitas vezes perca a oportunidade de cessar o ciclo de crises logo no início.
Falta orientação dos serviços de saúde para que as famílias iniciem logo o tratamento contra a asma, na primeira internação, de modo a evitar que outras crises aconteçam. Quando o paciente começa o tratamento com a medicação preventiva, novas internações se tornam raras”, afirma a médica.
A especialista defende que os serviços médicos forneçam um “plano de crise” por escrito para que os pais saibam exatamente o que fazer em casa aos primeiros sintomas, recorrendo ao pronto-socorro apenas se o plano inicial não obtiver sucesso.
O papel das vacinas e do distanciamento na prevenção
Além do uso rigoroso dos corticoides inalatórios, a imunização desempenha um papel crucial para blindar o organismo contra os gatilhos sazonais. Pedro Giavina-Bianchi, membro do Departamento Científico de Asma da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), destaca que o isolamento relativo de pessoas sabidamente gripadas e a atualização vacinal reduzem drasticamente as chances de hospitalização.
O médico recomenda que os pacientes não deixem de tomar as vacinas anuais contra a Influenza (gripe) e a Covid-19, além de buscar proteção contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e a vacina pneumocócica, que previne formas graves de pneumonia bacteriana secundária.
Ele lembra, ainda, que ferramentas simples herdadas do período pandêmico continuam válidas. “A máscara previne a Covid e, também, a transmissão dos outros vírus respiratórios, como rinovírus e influenza”, pontua Giavina-Bianchi.
Guia prático: como blindar a casa contra os gatilhos do inverno
Para ajudar as famílias a reduzirem a exposição aos alérgenos domésticos, a Dra. Marcela Marques lista os principais cuidados de higiene ambiental para o dia a dia:
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Substitua as vassouras: Na hora da limpeza, evite varrer a casa para não levantar o pó. Utilize sempre um pano úmido (apenas com água) ou aspirador de pó com filtro adequado.
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Abaixe a poeira do quarto: Mantenha as cortinas rigorosamente limpas e evite o acúmulo de brinquedos ou bichos de pelúcia no quarto onde a criança dorme, pois são grandes reservatórios de ácaros.
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Troque o cobertor pelo edredom: Os cobertores tradicionais de lã acumulam muito mais poeira e microrganismos. Dê preferência aos edredons, que são mais fáceis de lavar e secam mais rápido.
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Deixe o sol entrar: Mesmo nos dias mais frios, mantenha a casa arejada durante os períodos do dia em que o sol está batendo, combatendo focos de mofo e umidade nas paredes.
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Cuidado com o fumo passivo: Mantenha fumantes longe do ambiente doméstico. A fumaça de cigarros comuns, cigarros eletrônicos (vapes) ou narguilés é um dos piores irritantes químicos para os brônquios inflamados de um asmático.




