Por Thaís Barbisan*
Quando se pensa em saúde infantil, o foco imediato costuma recair sobre doenças físicas e transtornos do desenvolvimento, e isso é fundamental. No entanto, há outra dimensão da saúde infantojuvenil que merece a mesma atenção clínica: a avaliação precoce das altas habilidades/superdotação e suas repercussões no bem-estar emocional, comportamental e relacional. Tratar a superdotação apenas como uma questão escolar é subestimar seu impacto sobre a saúde mental e ignorar o papel central da avaliação neuropsicológica na promoção de trajetórias mais saudáveis.
É importante esclarecer um ponto essencial: a superdotação não é um diagnóstico, tampouco uma doença ou transtorno. Trata-se de uma condição neurobiológica, um modo específico de funcionamento cerebral, marcado por um desempenho cognitivo acima da média em uma ou mais áreas.
Não existe um código diagnóstico para a superdotação, e o foco clínico não deve estar em “diagnosticá-la”, mas em realizar uma avaliação cuidadosa que identifique como esse cérebro funciona, quais são suas potencialidades e, sobretudo, quais sintomas associados podem estar presentes.
Altas habilidades também não se resumem à imagem da “criança que vai bem nas provas”. Muitas dessas crianças apresentam processamento acelerado, pensamento complexo, curiosidade intensa e sensibilidade emocional ampliada.
Quando esse perfil não é compreendido a partir de um olhar em saúde, podem surgir sinais importantes de sofrimento: tédio persistente, ansiedade, isolamento social, baixa tolerância à frustração, perfeccionismo paralisante e sintomas internalizantes.
Estudos em neuropsicologia indicam que crianças com indicadores de altas habilidades podem apresentar dificuldades relevantes de regulação emocional quando suas necessidades cognitivas e afetivas não são reconhecidas, reforçando a importância de uma avaliação que vá além do desempenho acadêmico.
O tempo dessa avaliação faz diferença. Evidências recentes mostram que a detecção precoce, realizada por meio de processos que integrem avaliação neuropsicológica, escuta clínica da família e observação do contexto escolar, permite intervenções que reduzem riscos emocionais e favorecem o desenvolvimento saudável.
Esse cuidado é ainda mais decisivo nos casos de dupla excepcionalidade, quando altas habilidades coexistem com condições como TDAH, transtornos de aprendizagem ou transtorno do espectro autista.
Nessas situações, o que se avalia clinicamente não é a superdotação em si, mas os sintomas adjacentes associados a esse funcionamento cerebral. Sem protocolos sensíveis e multidimensionais, o talento pode ser ofuscado pelas dificuldades, e o sofrimento psíquico tende a se intensificar.
Do ponto de vista da saúde, a avaliação precoce não tem como objetivo rotular a criança, mas orientar o cuidado. Uma avaliação neuropsicológica bem conduzida identifica forças, vulnerabilidades e necessidades específicas, permitindo a construção de planos de acompanhamento voltados à regulação emocional, ao manejo da ansiedade, ao desenvolvimento de estratégias adaptativas e, quando necessário, à articulação com psicoterapia, acompanhamento psicopedagógico e avaliação médica.
Pesquisas sobre detecção precoce em contextos clínicos e educacionais indicam que intervenções preventivas reduzem a probabilidade de agravamento de quadros emocionais na adolescência e na vida adulta. Ainda assim, há barreiras importantes para que esse olhar em saúde se consolide. Instrumentos de triagem baseados exclusivamente em testes padronizados tendem a privilegiar crianças com maior acesso a estímulos e recursos culturais.
Além disso, muitos profissionais da saúde e da educação ainda não recebem formação adequada para reconhecer os sinais de altas habilidades e seus possíveis sintomas associados. Soma-se a isso a ausência de fluxos bem definidos entre escolas, serviços de saúde mental e centros especializados em desenvolvimento infantil, o que dificulta o cuidado integral. Estudos recentes apontam que modelos multidisciplinares reduzem a subidentificação, especialmente em grupos socialmente sub-representados, e qualificam o encaminhamento clínico.
Cuidar da saúde de crianças com altas habilidades é, acima de tudo, cuidar do futuro. Quando a avaliação precoce considera tanto as demandas cognitivas quanto as emocionais, cria-se um ambiente favorável para que o potencial se desenvolva sem prejuízo do bem-estar. Isso exige sensibilidade clínica, articulação entre áreas e uma mudança de perspectiva: compreender que a superdotação também é um tema da saúde.
As evidências científicas e a prática clínica convergem nesse ponto, e avaliar precocemente, acolher e acompanhar é um caminho necessário para promover equilíbrio, saúde mental e desenvolvimento pleno.
*Thaís Barbisan é psicóloga e neuropsicóloga, com atuação em avaliação do desenvolvimento infantil e intervenção psicossocial.




