A derrota para a Noruega que selou a eliminação da Seleção Brasileira da Copa do Mundo da Fifa 2026 neste domingo (5 de julho) encerra mais do que uma participação dentro de campo. Para milhões de brasileiros, o apito final também representa o fim de uma expectativa construída durante anos, despertando sentimentos de frustração, tristeza e até um vazio difícil de explicar.
Embora racionalmente todos saibam que se trata de um jogo, do ponto de vista psicológico o futebol ocupa um espaço muito maior. A Copa do Mundo é muito mais do que um torneio esportivo: ela funciona como um poderoso catalisador social capaz de alterar o humor, a rotina e a saúde mental de nações inteiras.
Durante a Copa, pessoas reorganizam a rotina, reúnem amigos e familiares, vestem as cores do país e compartilham uma expectativa comum. Quando o resultado não vem, é natural que exista um impacto emocional.
A Seleção funciona como um símbolo de identidade coletiva, pertencimento e esperança Mas como a psicologia explica essa capacidade única de contagiar até mesmo aqueles que não acompanham futebol no dia a dia?
Para entender a mente do torcedor e o impacto desse fenômeno em nosso bem-estar emocional, ouvimos dois especialistas em saúde mental de crianças e adolescentes. Confira!
Por que torcedores vivem frustração, tristeza e até uma sensação de luto
Segundo Ticiana Paiva, doutora em Psicologia e head de Psicologia da Starbem, o cérebro interpreta essas experiências de maneira muito semelhante a outras perdas simbólicas.
Representar um país envolve carregar expectativas de milhões de pessoas. Mesmo atletas experientes não ficam imunes a essa pressão, porque ela não desaparece com o tempo, apenas muda de forma.”
Embora a fala se refira aos jogadores, ela também ajuda a compreender o vínculo criado pelos torcedores. Quanto maior o investimento emocional em uma conquista, maior tende a ser a frustração quando ela não acontece.
Outro fator que intensifica esse sentimento é o envolvimento coletivo. Durante a Copa, o futebol deixa de ser apenas entretenimento e se transforma em um evento social. Conversas, memes, encontros, comemorações e expectativas passam a fazer parte do cotidiano, fazendo com que a derrota seja sentida quase como uma quebra abrupta de uma experiência compartilhada.
Ao mesmo tempo, a psicóloga lembra que existe uma diferença importante entre viver a tristeza de forma saudável e deixar que ela comprometa o bem-estar emocional.
Ser forte não significa não sentir medo, frustração ou dor. Força psicológica tem mais relação com reconhecer as próprias emoções, processá-las e seguir em frente com clareza.”
O outro lado da moeda: o ‘luto coletivo’ e a dor da perda
Se a vitória gera entusiasmo e união, a eliminação ou a derrota da seleção pode provocar o efeito oposto, mergulhando ruas e redes sociais em um verdadeiro luto coletivo. De acordo com a professora Ana Paula Barbosa, coordenadora do curso de Psicologia da Universidade de Franca (Unifran), essa reação negativa é um fenômeno psicológico muito real e que precisa ser compreendido. A frustração da derrota está diretamente ligada a sentimentos de rejeição e perda de status.
A rejeição e a perda de status decorrentes de uma derrota esportiva são sentimentos profundos, que a ciência mostra que podem, inclusive, ativar áreas cerebrais ligadas à dor física. Há também uma quebra abrupta de expectativa. No Brasil, país que ama o futebol, mesmo quem não acompanha o esporte rotineiramente se conecta nesse momento, gerando uma grande projeção de futuro”, pontua a coordenadora da Unifran.
Muitas vezes, a tristeza pós-jogo não se deve apenas ao resultado do placar em si, mas sim à perda do “futuro projetado” que o torcedor construiu em sua mente.
Às vezes, o luto não é só pelo jogo em si, mas pela perda do futuro projetado: a festa que não vai mais acontecer, a alegria que foi bruscamente interrompida e os planos de celebração que foram desfeitos”, complementa a psicóloga.
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O sentimento de pertencimento até de quem não gosta de futebol
A professora Ana Paula Barbosa analisa os fatores emocionais e sociais que ocorrem no comportamento coletivo durante a competição. Segundo a especialista, o primeiro fator-chave para a “euforia coletiva” é o chamado contágio emocional, um conceito amplamente estudado pela psicologia do comportamento.
Quando uma pessoa que não acompanha futebol entra em um ambiente onde todos estão vibrando, tensos ou comemorando, ela começa a se contagiar de forma quase inconsciente. Ela passa a sentir a dopamina e a adrenalina do grupo, o que automaticamente gera um profundo senso de pertencimento”, explica a docente.
Esse fenômeno vai além da sensação de simpatia. A psicóloga aponta que pesquisas na interface entre a psicologia e a biologia comprovam que assistir a eventos com forte carga emocional em grupo altera o nosso funcionamento de forma real.
Estudos de neurociência hoje mostram que as pessoas que assistem juntas a um evento forte, com carga emocional, entram em uma sincronia neural. Isso é algo extremamente positivo, pois fortalece os laços sociais e o bem-estar coletivo”, destaca.
Além disso, por ocorrer apenas a cada quatro anos, a Copa do Mundo ativa memórias afetivas e históricas na vida das pessoas, promovendo um período de “afeto coletivo” onde as conexões humanas são priorizadas e as rotinas diárias são pausadas em prol da união.
Como gerenciar as expectativas e proteger a saúde mental
Para que a experiência da Copa do Mundo seja saudável e enriquecedora, independentemente dos resultados em campo, a Dra. Ana Paula sugere que os torcedores busquem ressignificar o papel do torneio em suas vidas, focando no que ele traz de melhor: as relações humanas.
Para finalizar, o mais importante é que esse período seja um momento incrível de conexão, de reunião e de aproveitarmos a presença uns dos outros e essa energia boa. Se o resultado esperado não vier, que nós possamos ter a maturidade de guardar a camisa, recolher as bandeiras e compreender que o valor real desse momento não está apenas na vitória ou na derrota, mas sim na nossa capacidade de conexão e união coletiva”, conclui.
Pedir ajuda não diminui a força de ninguém
Para a especialista, esse também é um momento para refletir sobre a pressão direcionada aos atletas. Após eliminações, críticas e ataques costumam ganhar força nas redes sociais, fazendo com que jogadores sejam vistos apenas pelo resultado obtido em campo.
Performance sem cuidado cobra um preço alto. Todo mundo entende que um músculo lesionado precisa de tratamento. Precisamos normalizar a ideia de que a mente também se sobrecarrega e precisa de cuidado.”
Nos últimos anos, atletas ajudaram a romper o tabu em torno da saúde mental ao falar publicamente sobre a importância do acompanhamento psicológico. Esse movimento contribuiu para mostrar que emoções como medo, ansiedade, frustração e tristeza fazem parte da experiência humana, inclusive para quem compete no mais alto nível.
Segundo Ticiana, cuidar da saúde emocional é tão importante quanto qualquer preparação física.
A psicologia não ensina ninguém a vencer, mas reduz interferências emocionais e cognitivas que comprometem o desempenho. Em esportes de alto rendimento, muitas vezes o diferencial está justamente na capacidade de manter confiança, clareza e estabilidade emocional sob pressão.”
Ela conclui lembrando que a derrota não diminui a trajetória construída pelos atletas e que é preciso olhar para eles para além do resultado de um jogo.
Pedir ajuda não diminui a força de ninguém, pelo contrário, ajuda a sustentar uma carreira mais longa. E é importante lembrar que, antes de serem ídolos, os jogadores são seres humanos. Nenhuma vitória vale a perda de si mesmo.”
Com Assessorias
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