A cada Copa do Mundo, milhões de brasileiros repetem um ritual que atravessa gerações: reunir a família para assistir aos jogos, torcer, comemorar vitórias e enfrentar derrotas. Mais do que um evento esportivo, o futebol se transforma em um cenário para a construção de memórias afetivas que ajudam a fortalecer os laços entre pais e filhos. Essas experiências compartilhadas possuem um valor que vai muito além do placar.

Nesta segunda-feira (29/6), a Seleção Brasileira entra em campo contra o Japão em uma partida eliminatória decisiva pela Copa do Mundo. Além das quatro linhas, o evento mobiliza o país e mexe profundamente com as emoções dos torcedores, inclusive dos mais novos.

Quando um pai assiste a um jogo ao lado do filho, ele não está apenas transmitindo o gosto pelo futebol. Está compartilhando emoções, valores, histórias e sentimentos que ajudam a construir a identidade daquela criança. Muitas vezes, o que permanece na memória não é o resultado da partida, mas a experiência vivida em família”, afirma o médico obstetra e escritor Albino Bonomi.

Para uma criança, ver o país inteiro parado e, eventualmente, lidar com a frustração de uma eliminação ou de uma derrota pode ser uma experiência avassaladora. Como os pais podem acolher esses sentimentos sem minimizar a dor dos filhos? Como explicar a cultura dos ‘bodes expiatórios’ e das cobranças nas redes sociais?

Colunista do VIDA E AÇÃO, a psiquiatra Danielle Admoni, especialista em Infância e Adolescência, aponta o esporte coletivo como uma das metáforas mais ricas para preparar os filhos para os altos e baixos da vida real. “Se a bola chegou no goleiro, teve um time inteiro que deixou isso acontecer. A culpa não pode ser só dele, porque foi uma falha de um time inteiro, dos outros dez jogadores” afirma.

Diante da enorme expectativa gerada pela mídia e pelas festas, porém, é comum que as crianças foquem apenas no troféu. No entanto, a médica reforça que o verdadeiro valor está na jornada. “O importante é o meio, a duração, o durante. O quanto se esforçou, como chegou ali e o que foi feito para conseguir estar na Copa do Mundo, o que já é uma conquista gigante”.

Oportunidade para aprendizado emocional

O escritor observa ainda que o esporte oferece oportunidades valiosas para o aprendizado emocional. Ao acompanhar vitórias e derrotas, crianças e adolescentes também desenvolvem habilidades relacionadas à resiliência, à empatia e à convivência.

A vida é feita de conquistas e frustrações. O esporte nos ensina isso de maneira muito clara. Quando pais e filhos compartilham essas experiências, surgem oportunidades importantes para conversas, ensinamentos e fortalecimento dos laços afetivos”, ressalta.

Em um período em que a rotina acelerada frequentemente reduz os momentos de convivência familiar, a Copa do Mundo pode representar uma oportunidade de aproximação. Para Albino Bonomi, o legado mais importante deixado por esses encontros não está nos gols ou nos troféus, mas nas lembranças que permanecem.

Os filhos crescem, a competição termina e os resultados são esquecidos. O que permanece são as emoções vividas juntos. São essas experiências que, muitas vezes, ajudam a formar adultos mais seguros emocionalmente e conscientes da importância dos vínculos familiares.”

Uma prévia dos desafios que viram pela frente

A psiquiatra Danielle Admoni pondera que o esforço nem sempre será diretamente proporcional ao resultado final, mas o empenho é o que realmente conta: “Se a gente não se esforça, o resultado vai ser ruim. Se a gente se esforça, o resultado pode não ser ruim. O treino e o ‘durante’ às vezes valem muito mais do que o resultado”.

A vivência de acompanhar um esporte coletivo também pode funcionar como uma prévia dos desafios que os pequenos enfrentarão em trabalhos escolares e, futuramente, no mercado de trabalho. “A gente vai trabalhar o tempo inteiro com pessoas diferentes, com objetivos e empenhos diferentes do nosso, e precisa aprender a se virar com isso”, conclui a médica.

Ela lembra que no esporte, assim como na vida, não escolhemos com quem vamos treinar, trabalhar ou jogar, tornando o apoio mútuo uma engrenagem indispensável. Além disso, em tempos de redes sociais imediatistas e cancelamentos, as crianças frequentemente testemunham a busca por culpados após uma derrota.

A psiquiatra enxerga o futebol como uma excelente oportunidade para humanizar os ídolos e ensinar que falhas acontecem com todos.

É uma ótima oportunidade para mostrar que todos nós erramos, mesmo se esforçando, mesmo treinando, mesmo sendo alguém muito bom ou famoso na sua área. Erros acontecem e fazem parte do que não conseguimos controlar”, diz a psiquiatra, que atua como professora da Afya Educação Médica São Paulo.

Segundo ela, essa perspectiva ajuda a criança a entender que um erro pontual em campo não define o valor ou o caráter do atleta. No futebol, assim como na dinâmica social e escolar, o individual não deve se sobrepor e ao coletivo. A Dra. Danielle brinca que a posição de goleiro, por exemplo, costuma ser a mais ingrata, pois a culpa das derrotas frequentemente recai sobre ele. Contudo, ela ressalta a importância de desconstruir essa visão com as crianças.

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Ler Faz Bem: ‘Como criei filhos fortes e felizes’

A reflexão dialoga diretamente com temas abordados nos livros O Ciclo Gestatório de um Homem, no qual o médico obstetra e escritor Albino Bonomi. revisita lembranças da infância e discute como as experiências vividas ao longo dos primeiros anos influenciam a formação emocional e psicológica na vida adulta, e também no Como criei filhos fortes e felizes”, onde o autor aborda a formação emocional das crianças, a presença dos pais e a construção de valores dentro da família.

Ao associar esporte, memória e desenvolvimento humano, o autor reforça uma das principais mensagens presentes em O Ciclo Gestatório de um Homem: a de que a formação emocional acontece ao longo de toda a vida e é profundamente influenciada pelas relações que cultivamos desde a infância. Segundo Bonomi, as grandes competições esportivas funcionam como marcos afetivos capazes de unir diferentes gerações em torno de um mesmo sentimento.

Existem pessoas que se recordam com clareza de uma Copa assistida ao lado do pai, do avô ou dos irmãos, mesmo décadas depois. Essas lembranças permanecem porque carregam afeto. São momentos simples, mas que ajudam a criar um senso de pertencimento e fortalecem os vínculos familiares”, destaca.

Álbum de figurinhas da Copa: tradição que une a família

Outra maneira de promover a integração entre as famílias é a velha tradição de colecionar figurinhas da Copa do Mundo. O hábito é alimentado por memórias afetivas e familiares, como o ato de trocar figurinhas com pais, avós e amigos. “É uma prática que fortalece vínculos e cria registros históricos pessoais dentro de um contexto coletivo”, explica a Dra. Danielle.

Moradores de São Paulo, um casal, cinco filhos e seis netos mantém o  hábito de preencher os álbuns oficiais da Fifa há décadas. Essa é a família do casal Luís Cesar e Sônia Santana, que nem durante uma viagem de turismo por Belém, deixou de lado a missão de tentar completar o álbum deste ano.

O meu pai já comprava, mas a gente nunca conseguia encher o álbum. Aí, quando tivemos os meninos, começamos novamente. Mas, quem trabalha mais nessa família somos nós duas”, diz Sônia, apontando para a filha Rebecca, que se define como a responsável por mapear os pontos de troca de figurinhas, onde quer que estejam. “Mamãe é a colecionadora principal, mas eu fico atenta aos eventos e, inclusive, ando com as figurinhas”, explica. “Já eu, sou o caixa e diretor financeiro”, brinca Luís Cesar.

Eles se juntaram a outras famílias em mais um encontro para troca de figurinhas promovido pelo Centro Cultural Banco da Amazônia, na capital paraense. Os encontros para trocas de figurinhas estão acontecendo em todos os sábados do mês de junho, sempre das 10h às 14h.

Concentrados, eles negociaram com adultos e crianças para conseguir reduzir o volume de repetidas – missão concluída com sucesso, no último sábado (20). “Chegamos com quase umas 50 e estamos saindo com 20 apenas. Valeu muito a experiência e ainda ganhamos três pacotinhos novos. Realmente, Belém entrega tudo!”, destacou Rebecca.

Com Assessorias

 

 

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