No Brasil, uma novela na TV é uma grande produção e produto de exportação: escrita por roteiristas, dirigida por profissionais renomados e distribuída em horário nobre. Atualmente, basta usar um aplicativo, escolher uma voz sintética e ter personagens improváveis para que milhões de pessoas acompanhem uma trama. As protagonistas podem ser uma maçã, uma banana ou um morango. Pouco importa. O que realmente chama atenção é o roteiro.

Essas “novelinhas de frutas” se espalharam pelas redes sociais como entretenimento rápido. Cada episódio dura poucos segundos, termina com um gancho e convida o público para o próximo capítulo. O formato é eficiente porque foi moldado para prender a atenção. É recheada de gatilhos mentais, como dizem especialistas de marketing de conteúdo. O problema não está na criatividade de transformar frutas em personagens. Está, na verdade, na naturalidade com que determinadas histórias recorrem à misoginia, à humilhação feminina, aos insultos e a outras formas de violência simbólica para manter o interesse da audiência.

Quando esses elementos aparecem em um drama televisivo, costumam gerar debates, críticas e reportagens. Quando aparecem em um meme produzido por Inteligência Artificial, muitas vezes são tratados apenas como brincadeira.

É justamente aí que vale interromper o consumo automático e fazer uma pergunta simples: do que estamos rindo?

O humor sempre fez uso de exageros e caricaturas. A questão muda quando a repetição de determinados comportamentos ajuda a transformar preconceitos em algo banal. Não porque uma história isolada tenha esse poder, mas porque milhares de histórias semelhantes passam a ocupar o cotidiano das pessoas, reforçando os mesmos papéis, os mesmos estereótipos e as mesmas relações de poder.

A IAl não criou a misoginia. Ela aprendeu com um universo de conteúdos produzidos por seres humanos. Os modelos generativos identificam padrões, estilos narrativos e formas de linguagem presentes em seus dados de treinamento. Quando um determinado tipo de narrativa gera engajamento, os algoritmos das plataformas fazem o restante do trabalho: ampliam seu alcance.

O ciclo é perverso. O preconceito gera interação. A interação aumenta a distribuição. A distribuição produz novos conteúdos inspirados no que funcionou antes. O resultado é uma sensação de normalidade. Naturalizam a viralização sem criticar o conteúdo. Depois de assistir a dezenas de histórias semelhantes, a violência deixa de parecer violência e passa a fazer parte da estética do entretenimento.

Esse fenômeno revela uma mudança importante na educação midiática. Nas minhas formações continuadas com educadores, não ensino, apenas, que é necessário identificar notícias falsas, verificar fontes e desconfiar de imagens manipuladas. Essas competências continuam indispensáveis, mas já não são suficientes. O desafio atual também envolve compreender quais valores circulam em conteúdos que ninguém pretende consumir como informação.

Nem todo conteúdo influencia por convencer. Muitos influenciam simplesmente por repetir.

As “novelinhas de frutas” não disputam espaço com o jornalismo nem pretendem explicar a realidade. Mesmo assim, participam da construção de imaginários sociais. Crianças, adolescentes e adultos aprendem referências culturais assistindo a vídeos de poucos segundos. Aprendem quem merece aplausos, quem vira motivo de piada, quem ocupa posições de poder e quem é constantemente ridicularizado.

É por isso que o letramento midiático precisa ir além da checagem de fatos. Também deve desenvolver a capacidade de interpretar narrativas, reconhecer estereótipos e perceber quando um algoritmo transforma preconceitos antigos em formatos novos, mais leves e mais compartilháveis.

A pergunta que fica para o leitor deste artigo não é se essas histórias deveriam existir. A liberdade de criação também inclui narrativas absurdas, exageradas e irreverentes. A questão é outra: estamos formando espectadores capazes de reconhecer o preconceito quando ele aparece fantasiado de humor?

Na era da IA, essa pode ser uma das competências mais importantes. Afinal, o maior risco nem sempre está na tecnologia que produz uma história. Está na nossa disposição de consumi-la sem fazer nenhuma pergunta.

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