Cair e levantar faz parte da vida. Mas ser cuidado também.  Em mais de 90% dos casos, acidentes envolvendo crianças e adolescentes são evitáveis. E são as maiores causas de internações hospitalares e de mortes por causas externas. De acordo com o “Relatório Criança Segura 2026 – Hospitalizações e óbitos de crianças no Brasil”, do Projeto Criança Segura da Aldeias Infantis SOS, em 2024 foram registradas 3.341 mortes e, em 2025, 128.466 hospitalizações (357 por dia, 15 a cada hora) de crianças e adolescentes até 14 anos de idade.

Em 2025, só no Rio Grande do Sul, foram 5.624 hospitalizações, o maior número dos últimos 10 anos, 8% acima de 2024. As quedas e as queimaduras lideram disparadamente as causas de hospitalização entre crianças e adolescentes de até 14 anos. Somadas, as duas ocorrências responderam por mais de 80 mil internações em 2025, de acordo com o levantamento, realizado com base em dados oficiais do DataSUS.

Ao todo, ocorreram mais de 55 mil internações motivadas por quedas (43,4% dos casos no público infantil e juvenil) e cerca de 25 mil decorrentes de queimaduras (19,6%). O panorama aponta que mais de 90% desses acidentes poderiam ser evitados com medidas simples de prevenção e maior vigilância. O uso constante de celulares por parte dos pais e cuidadores é apontado no relatório como um fator decisivo para a distração e a recente alta nos índices.

Muitas crianças e adolescentes que têm suas vidas suspensas ou precocemente interrompidas por causas evitáveis. Familiares impactados, muitas vezes enfrentando sequelas e lutos muito doídos”, diz José Carlos Sturza de Moraes, cientista social e pesquisador do Projeto Criança Segura da Aldeias Infantis SOS.

Panorama nacional e desigualdades regionais

No ano de 2025, o Brasil registrou 1,6 milhão de hospitalizações decorrentes de acidentes considerando todas as idades. A faixa etária de 0 a 14 anos representou 162 mil dessas internações (9,7% do total), com 128,5 mil hospitalizações mapeadas em detalhe pelo levantamento. Em média, 10,7 mil crianças e adolescentes foram internados todos os meses por acidentes no país.

Em números absolutos, o estado de São Paulo concentrou o maior volume de registros, com 19.837 casos (15,4%), seguido por Minas Gerais, com 12.183 (9,5%), e Paraná, com 10.708 (8,3%). Já as menores ocorrências absolutas foram observadas em Sergipe (297), Amapá (468) e Roraima (543).

Quando os números são analisados proporcionalmente ao tamanho da população (taxa por 100 mil habitantes), o cenário muda:

  • Pará: lidera a taxa nacional, com 120 hospitalizações por 100 mil habitantes.

  • Tocantins: ocupa a segunda posição, com 113 por 100 mil.

  • Maranhão: registra a terceira maior taxa, com 102 por 100 mil.

  • Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Sergipe: registraram os menores índices proporcionais, com 43, 39 e 13 hospitalizações por 100 mil habitantes, respectivamente.

Trânsito, intoxicações e outros riscos

Além de quedas e queimaduras, o relatório mapeou outras causas recorrentes de acidentes na infância e adolescência:

  • Sinistros de trânsito: somaram 12,6 mil ocorrências (9,9% do total de acidentes), concentrando-se principalmente nos jovens de 10 a 14 anos (50,4%) e de 5 a 9 anos (32,3%).

  • Intoxicações: responderam por 4,2 mil casos (3,3%), atingindo de forma expressiva as crianças pequenas de 1 a 4 anos (37,7%) e de 5 a 9 anos (31,2%).

  • Sufocação: registrou 644 ocorrências (0,5%), afetando predominantemente a faixa de 1 a 4 anos (49,1%).

  • Afogamentos: contabilizaram 261 casos (0,2%), dos quais 71,6% ocorreram com crianças pequenas de 1 a 4 anos.

  • Armas de fogo: corresponderam a 70 internações (0,1%).

Alta no triênio e exceção positiva

A comparação do triênio de 2023 a 2025 mostra uma tendência contínua de crescimento nas internações de menores de 14 anos por acidentes. O aumento foi de 2,2% entre 2023 e 2024, e acelerou para 5,4% na passagem de 2024 para 2025. No acumulado de três anos, foram 9.221 hospitalizações a mais, representando uma alta consolidada de 7,7%.

Os maiores aumentos do último período ocorreram nas intoxicações (+19,7%), nas sufocações (+10,8%) e nas queimaduras (+7,4%). A única categoria que registrou queda no período foi a de acidentes por armas de fogo (-13,6%), mantendo a trajetória de redução.

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Para além do ECA: as leis que protegem as crianças

O levantamento reforça que a educação preventiva e a criação de ambientes seguros dentro e fora de casa são indispensáveis para frear o avanço dos números e evitar internações, sequelas graves ou mortes de crianças.

Reduzir distrações cotidianas, como o tempo excessivo diante de telas e celulares na presença dos filhos, e investir em campanhas permanentes de conscientização são os caminhos apontados pelo Projeto Criança Segura para garantir o desenvolvimento saudável das futuras gerações.

Muitas leis, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), trazem esse direito. Existem as normas da ABNT e inúmeras leis específicas de prevenção e cuidado. Boa parte delas é resultado de um trauma evitável.

Como a Lei Lucas (Lei 13.722/2018), que determina que escolas ofereçam treinamento em primeiros socorros aos trabalhadores em educação. Para evitar que o que aconteceu com Lucas Begalli Zamora, 10 anos, que morreu por engasgo num passeio escolar, aconteça com outra criança.

Temos também a Lei das Goleiras, Lei Estadual 16.438/2025, do Rio Grande do Sul, que tornou obrigatória a fixação no solo das bases de traves de futebol e outras goleiras esportivas em todos os espaços públicos e privados.

Resultado da mobilização para que outras crianças não tivessem o mesmo fim da menina Marina Fallavena, 11 anos, que faleceu em 2022, em Porto Alegre, após uma goleira cair sobre ela. Como aconteceu recentemente numa escola de Caxias do Sul, em que outra criança, também de 11 anos, partiu precocemente, o menino Fabian Alexander Zerpa Bermudez.

A dor das famílias e a memória destas e de tantas outras vítimas merecem respeito. Assim como suas tragédias precisam, no mínimo, nos ensinar a cuidar melhor. E a apoiar as famílias nesse cuidado, que é obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público”, diz José Carlos Sturza.

Com informações da Aldeias Infantis SOS

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