Quando tomei a iniciativa de criar uma newsletter e publicar artigos no LinkedIn, passei por aquela tempestade de ideias que acompanha a busca por um nome. Queria algo que dissesse o que eu pretendia fazer, mas que também provocasse alguma curiosidade. Entre algumas opções surgidas nesse processo bastante solitário, escolhi CuradorIA. As duas últimas letras, em maiúsculas, não estavam ali por acaso. Faziam referência à Inteligência Artificial, tema que atravessa duas áreas muito caras à minha trajetória profissional: a educação e o jornalismo.
O nome também carregava outra intenção. Em tempos de excesso de informação, algoritmos, conteúdos sintéticos e respostas instantâneas, curar informação é uma das atividades mais humanas e necessárias. Selecionar, contextualizar, desconfiar, relacionar fontes e decidir o que merece nossa atenção são ações que não perderam importância com a IA. Ao contrário.
Escrevo a 26ª edição em 21 de agosto de 2026. Neste momento, 1.116 pessoas decidiram clicar no botão e acompanhar a CuradorIA no LinkedIn. Em parceria com o portal Vida & Ação, os textos também passaram a chegar a novos leitores. Por isso, antes de qualquer reflexão, preciso registrar um agradecimento. A cada pessoa que assina, lê, compartilha, comenta, discorda, manda uma mensagem ou simplesmente reserva alguns minutos da semana para acompanhar esses textos: obrigado. Mais do que um número, 1.116 assinantes representam 1.116 possibilidades de conversa.
A IA deixou de ser um assunto sobre o futuro
Ao longo dessa trajetória, a CuradorIA acompanha diferentes faces da transformação digital. Escrevo sobre inteligência artificial na educação, formação de professores, autoria, direitos autorais, desinformação, pensamento crítico, educação midiática, cultura digital e os impactos dos algoritmos sobre aquilo que vemos, consumimos e acreditamos.
Também procuro olhar para o jornalismo. A IA já interfere na produção de conteúdo, na apuração, na circulação da informação, na monetização, na acessibilidade e na relação entre veículos e públicos. Ao mesmo tempo, reforça questões que sempre estiveram no coração da profissão: quem produziu esta informação? Com quais interesses? A partir de quais fontes? É possível verificá-la? O que ficou de fora?
Em outros momentos, o olhar se volta para situações aparentemente cotidianas: inteligência artificial participando de processos de recrutamento, interferindo em padrões estéticos, entrando nas escolas, ajudando pessoas a escolher profissões ou produzindo conteúdos de entretenimento que reproduzem preconceitos e violências já presentes na sociedade.
Assuntos diferentes que acabam desembocando em uma mesma questão: o que estamos fazendo com essas tecnologias — e o que elas estão fazendo conosco?
Essa pergunta ficou ainda mais presente para mim nesta semana. Voltei às aulas e percebi como a inteligência artificial já não precisa ser apresentada como tema. Ela simplesmente aparece. Entra na conversa sobre jornalismo. Surge quando falamos de educação. Aparece em uma discussão sobre mercado de trabalho. Está no celular, nas redes sociais e nas experiências pessoais dos estudantes.
Ouvi relatos de alunos que usam IA para montar o look do dia. Rimos ao comentar sobre pessoas que transformaram ferramentas de inteligência artificial em uma espécie de terapeuta disponível 24 horas por dia. Pode parecer engraçado. E muitas vezes é. Mas existe algo mais profundo acontecendo.
Quando começamos a conversar com máquinas
Durante muito tempo, nossa relação com computadores foi essencialmente instrumental. Digitávamos comandos e esperávamos resultados. A inteligência artificial generativa mudou essa experiência porque trouxe algo poderoso: a linguagem natural. Perguntamos. Contamos histórias. Pedimos conselhos. Revelamos dúvidas. Solicitamos avaliações. Argumentamos. Discordamos. Às vezes, desabafamos. E a máquina responde.
Não significa que exista alguém do outro lado. Mas a forma da interação se aproxima de algo que, durante praticamente toda a história humana, reservamos às relações entre pessoas: a conversa.
É nesse ponto da cultura digital que eu gostaria de chegar. Não se trata apenas de saber se a IA escreve bem, produz imagens convincentes, resume um texto ou ajuda um estudante a resolver uma atividade. Precisamos compreender o que acontece quando começamos a delegar às máquinas também pequenas decisões, inseguranças, dúvidas e necessidades de escuta.
Qual roupa devo vestir?
Estou tomando a decisão certa?
O que você acha de mim?
Como devo responder a essa pessoa?
Estou triste. O que faço?
A tecnologia vai ocupando espaços que antes pertenciam a amigos, professores, colegas, familiares e profissionais. Não necessariamente substituindo essas pessoas, mas mediando relações que antes dependiam quase exclusivamente delas.
Obrigado aos atuais 1.116 assinantes da CuradorIA que continuam participando dessa conversa. Seguimos fazendo curadoria sobre inteligência artificial. Mas, sobretudo, tentando compreender o que significa continuar sendo humano em um mundo cada vez mais mediado por ela.




