A perda de um bebê durante a gestação ainda é cercada por um profundo silêncio social e pela escassez de acolhimento. Embora o Brasil tenha conquistado um avanço com a Lei nº 15.139/2025, que instituiu a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental, muitas famílias continuam sem referências para abordar a dor da perda, especialmente com as crianças do convívio familiar.
Para preencher essa lacuna, a jornalista e escritora Jules de Faria lança o livro infantil Ela passou rapidinho para deixar um beijinho (Editora Quelônio). A obra propõe uma reflexão sobre a perda, a preservação da memória e a continuidade da vida a partir do olhar de um menino de cinco anos que tenta compreender o falecimento da irmã antes mesmo de conhecê-la.
Quando eu perdi a Lila, esbarrei num silêncio enorme. Não tinha nenhuma referência próxima de alguém que tivesse passado por uma perda gestacional. Muita mulher é orientada a não contar a gravidez antes dos três meses, e quando a perda acontece, atravessa sozinha. Escrevi o livro que eu queria ter encontrado na época”, relata Jules de Faria.

Transformação pessoal e novo estilo de vida
Além de transformar a dor em acolhimento literário, a perda da filha Lila marcou uma mudança radical na trajetória da autora. Fundadora da ONG Think Olga e com atuação de destaque no ecossistema de impacto social em São Paulo, Jules reorganizou suas prioridades de vida, mudando-se para o litoral paulista para viver em maior sintonia com a família e a natureza.
Esse livro é o registro de uma virada. Eu era workaholic em São Paulo. Depois da Lila, reorganizei a vida a partir de um lugar mais autêntico. Às vezes acho que foi ela que me salvou. Escrever fez parte disso. Foi transformar a dor em alguma coisa que pudesse acolher outra pessoa também”, reflete a escritora.
O olhar da criança para compreender os ‘bebês breves’
A narrativa acompanha as dúvidas e sentimentos do menino Jonas ao descobrir que a irmã morreu ainda na gestação. O diálogo sensível entre pais e filho aborda os “bebês breves” — termo carinhoso utilizado para descrever os bebês que partiram precocemente —, ensinando que preservar suas lembranças e nomeá-los é parte fundamental do processo de cura familiar.
Com ilustrações de Bruna Ximenes, que utilizam variações da cor azul para traduzir transformações emocionais como tempestades e lágrimas, a obra busca acolher tanto as crianças quanto os adultos que convivem com a dor.
Pilares da narrativa e do acolhimento infantil:
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Linguagem direta e sem mentiras: Dialogar de forma curiosa e acessível, sem esconder os fatos nem relativizar os sentimentos;
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Nomeação e memória: Chamar o bebê pelo nome e reconhecer o seu lugar na história e na árvore da família;
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Visibilidade do luto paterno: Reconhecer que parceiros e pais também sofrem o impacto emocional e físico da perda;
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Afeto e continuidade: Compreender que é possível criar memórias bonitas e manter a presença do bebê através do amor, mesmo após a despedida.
O livro conta com o apoio do Instituto do Luto Parental (ILP), entidade que participou da construção da política nacional de humanização e acolheu cerca de 1.300 pessoas em 2025 por meio de grupos de apoio e atendimentos psicológicos.
Sobre a autora

Jules de Faria é jornalista, escritora e consultora criativa. Fundou a ONG Think Olga, onde liderou por sete anos e criou campanhas como Chega de Fiu Fiu e Primeiro Assédio, além de integrar o Grupo Assessor da Sociedade Civil da ONU Mulheres entre 2016 e 2020. Atualmente é cofundadora da agência Aquilo Que Importa (AQI), dedicada ao storytelling e ao branding. Em 2015, foi reconhecida pela Clinton Foundation e pela Cosmopolitan como uma das oito mulheres mais inspiradoras do mundo. É autora de Talvez este não seja o meu ano, Meu corpo não é seu, Independência ou morte! e Meu avô japonês
Ficha técnica
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Título: Ela passou rapidinho para deixar um beijinho
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Autora: Jules de Faria | Ilustrações: Bruna Ximenes
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Editora: Quelônio
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Gênero: Literatura Infantil
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Páginas: 48 | Preço médio: R$ 66,00
‘De mãos vazias’ ensina a acolher o luto perinatal e quebrar o silêncio
Para ampliar essa rede de cuidado, as psicólogas Rafaela Schiavo, Natália Aguilar e Elenice Bertanha organizaram o livro De mãos vazias – compreendendo e acolhendo a perda e o luto perinatal. A obra reúne profissionais da saúde, pesquisadores e especialistas para debater temas fundamentais, como infertilidade, óbito fetal, o luto masculino, a lactação após a perda e o impacto emocional nos irmãos.
O luto perinatal não é só da mãe. Parece que apenas ela fica de luto, mas há também o pai, os irmãos, os avós e toda uma família atravessada por essa perda. Quando falamos de uma das maiores dores emocionais que um ser humano pode sentir, não dá para acolher sem preparo”, afirma Rafaela Schiavo, psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline.
Uma dor que vai além da perda física
A obra mostra que o sofrimento emocional pode surgir em diferentes momentos da experiência reprodutiva. Além da perda gestacional e neonatal, o livro aborda o luto pela infertilidade, a dor de uma amamentação que não se concretizou ou o impacto de um parto diferente do planejado.
Segundo Rafaela, comentários bem-intencionados como “logo você engravida de novo” ou “pelo menos foi no começo” acabam por invalidar o sofrimento. A psicóloga explica que acolher exige abandonar a pressa por respostas e aprender a escutar sem julgamentos.
Como agir diante do luto perinatal:
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O que evitar: Frases de consolo rápido que minimizem a dor ou tentem dar explicações lógicas para a perda.
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O que dizer: Expressões simples de presença e escuta, como “sinto muito”, “estou aqui para você” ou “quer me contar sobre o seu bebê?”.
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Respeito ao tempo: Aceitar que cada pessoa vivencia a dor à sua maneira, seja guardando lembranças e realizando rituais, seja precisando de silêncio e espaço.
Avanço no atendimento e saúde pública
O debate sobre a humanização desse cuidado ganhou respaldo legal no Brasil por meio da Lei nº 15.139, que estabeleceu diretrizes para o atendimento humanizado a famílias que enfrentam o luto materno e parental em maternidades. A legislação prevê suporte psicológico, ambientes adequados e o direito ao registro do nome do bebê natimorto.
As autoras destacam que a comunicação de más notícias exige preparo técnico e sensibilidade humanizada por parte das equipes médicas, garantindo privacidade e respeito à memória da família desde os primeiros momentos da notícia.
O impacto em toda a família e quando buscar ajuda
O sofrimento resultante de uma perda perinatal atinge diferentes membros do núcleo familiar. O luto dos pais homens frequentemente se torna invisível devido à cobrança social por uma postura de fortaleza, enquanto crianças pequenas da casa sentem as mudanças no ambiente, mesmo que não consigam expressá-las em palavras.
Embora o luto não tenha um prazo fixo, a intervenção profissional passa a ser necessária diante de sinais de paralisação e sofrimento crônico.
Sinais de alerta para a busca de apoio especializado:
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Isolamento social prolongado e sentimento persistente de culpa;
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Dificuldade severa para realizar atividades cotidianas e cuidados básicos;
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Crises frequentes de ansiedade, sintomas depressivos ou perda do sentido de viver.
Ficha técnica

De mãos vazias – compreendendo e acolhendo a perda e o luto perinatal
Organizadoras: Rafaela Schiavo, Natália Aguilar e Elenice Bertanha.
Editora: MaterOnline, 2ª edição
Número de páginas: 382
Preço: R$ 280,00
Onde encontrar: Instituto MaterOnline
Com Assessorias
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