Na primeira live do ‘Exército do Lula‘ após a reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de 81 anos, falou da solidão que experimenta no exercício do cargo. Lula revelou achar “chato” não poder ir ao shopping, ao restaurante ou a um show com a mulher, Janja da Silva, para não atrapalhar os clientes ou frequentadores desses locais públicos por conta do esquema de segurança que cerca a agenda presidencial.
A última vez que entrei numa loja pra comprar uma camisa tem 20 anos”, disse Lula. Comer sozinho em casa aos finais de semana também virou rotina ao longo dos anos. “Não posso convidar um ministro para almoçar comigo senão eu teria que convidar todos”, contou. Lula se diz conformado com a rotina de reclusão: “Não posso reclamar, eu escolhi isso”.
A força do eleitorado 60+
A presença maciça dos eleitores 60+ nas urnas também ganhou destaque na live e fez o ‘general’ Janones e o “marechal” Lula chorarem. Um emocionante vídeo mostrou casos de eleitores idosos, inclusive pessoas com câncer ou com problemas de mobilidade, que foram votar. Como a Vó Maria, de 98 anos, e tantos outros vovôs e vovós que fizeram questão de exercer seu direito de votar. “Lula, eu te amo de coração”, revelou uma senhora.
Vi cenas de pessoas sendo carregadas por seus netos, pessoas impossibilitadas de se locomover, elas foram votar porque conseguimos convencer que era importante para a democracia”, disse o presidente, sobre o verdadeiro “exército do Lula”.
Para Lula, os idosos deram exemplo em um país que sempre foi marcado por altos índices de abstenção. “Muitas pessoas diziam que não iriam votar, e essas pessoas foram. Poucas vezes vi um gesto de grandeza como esse. Os jovens têm energia para gastar, mas idosos com a saúde debilitada indo votar… isso não é comum. Historicamente, poucos países do mundo tiveram a felicidade de viver uma situação dessas”.

Lula não conseguiu esconder a emoção. “Eu não tenho vergonha de chorar, acho bonito e muito decente uma pessoa que tem coragem de chorar, está extravasando um sentimento que tem dentro de você. Nós homens fomos criados aprendendo que homem não chora. Agradeço a Deus por me fazer chorar, colocando para fora, em forma de lágrimas, o sentimento de gratidão que tenho por essa gente”.
O presidente também prometeu ampliar as políticas de proteção à pessoa idosa: “Quando uma pessoa de 91 anos vota em você, você tem que morrer de trabalhar para não decepcionar essa pessoa”, afirmou.
Vou levar muito a sério as políticas para os mais idosos. Eu passei fome quando era pequeno, mas sobrevivi. Muitos idosos não têm o que comer decentemente. A gente tem que ter uma política para eles. É um pagamento pelo que fizeram por nós. Nós não estaríamos aqui se não fosse por eles.”
Ao rever cenas da campanha, com os atos gigantes em diversas cidades do país, Lula voltou a agradecer: “Eu tenho orgulho do povo brasileiro, da coragem dessa juventude que foi para as ruas, da dignidade das pessoas idosas e da força das mulheres brasileiras. Um país que tem gente como vocês não merece ser pequeno. Como Deus foi generoso comigo! Sou eternamente grato.”
O exemplo da vida simples

Lula lembrou a infância pobre e as inúmeras vezes em que sua família foi vítima de enchentes. “Eu sei o que é acordar com fezes boiando, com ratos dentro de casa. Sei o que é ter que tirar a mãe da cama no meio da madrugada com a água subindo. Eu sei o que é sofrer”, disse. Segundo ele, as políticas públicas sociais de seu governo são pautadas em sua experiência de vida ao lado dos mais vulneráveis.
O presidente destacou também as viagens que o fizeram conhecer o interior do país. “Meu grande aprendizado foram as Caravanas da Cidadania e as portas de fábrica como sindicalista. Percorri 91 mil quilômetros de trem, de ônibus, de barco e de carro. Nesses anos todos, o que eu mais fiz foi ouvir o povo. Eu tenho a orelha caída de tanto ouvir”, brincou.
Lula voltou a abordar o combate às apostas virtuais (bets). Segundo ele, a dependência em jogos online tem impactado milhares de famílias brasileiras, gerando um superendividamento que vem sendo enfrentado a partir da proibição dessas plataformas no Brasil.
Inspiração e mobilização no mundo inteiro

Questionado sobre o cenário internacional, incluindo a derrota de Donald Trump nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos — que consolidaram a vitória do Partido Democrata — e a renúncia do presidente paraguaio Santiago Peña nesta quinta-feira (5), Lula afirmou que o Brasil virou exemplo global de progressismo. “O vento está levando o ódio”, disse ao comentar o crescimento da militância em estados como Santa Catarina. “Eu jamais abandonarei Santa Catarina.”
“O ‘L’ virou símbolo de luta. Quando vocês levantam o dedo, isso dá orgulho ao povo brasileiro. Vocês estão fazendo história no mundo”, destacou o presidente. Janones brincou: “O Ministério da Saúde disse que aumentou a LER (Lesão por Esforço Repetitivo) no Brasil de tanto as pessoas ‘fazerem o L’. Tem gente que está quase com o dedo paralisado!”
Lula assistiu ainda a memes e vídeos produzidos com ajuda de inteligência artificial que o mostravam jogando futebol, atuando como técnico da Seleção Brasileira, jogando vôlei, dançando e até como bebê no colo de uma eleitora. “Eu não sei nem dançar”, confessou, risonho.
O presidente relembrou com emoção o ato na Avenida Paulista na véspera da eleição, quando uma multidão cantou o Hino da Independência. “Foi uma das coisas mais marcantes da minha trajetória política. A minha garganta embargou porque era muita emoção. Mesmo quando o povo não sabia a letra, mexia a boca e levantava a mão — algo que jamais vi na Paulista.”
Outro momento marcante lembrado foi em Natal (RN), quando ele quase caiu do carro ao hastear a bandeira do Brasil. “Enquanto eu fazia isso, meu adversário beijava a bandeira americana”, disse, em referência a Flávio Bolsonaro. Lula mandou um recado ao adversário: “Você vai ter que responder pelos processos que tem.” E renovou o desafio de abrir seus sigilos: “Estou disposto a dar a minha vida para provar quem é honesto neste país.”
Planos para quando deixar a presidência

Lula revelou planos para quando concluir o mandato aos 85 anos, em 2030: “Vou voltar a estudar.” O presidente recordou que, quando era sindicalista, estudava à noite. “Eu poderia fazer o Enem com 81 anos, já pensou? Mas hoje eu sou presidente da República”, comentou, citando as limitações de agenda.
Ao falar sobre educação, mencionou os números do Enem 2026, que acontece neste domingo (8) e no seguinte (15), reunindo mais de 5 milhões de inscritos — sendo 14 mil deles idosos. “O Enem é a porta do futuro se abrindo para você ser o que quiser.”
Janones contou que, em 2002, sem condições de cursar a faculdade de Economia para a qual fora aprovado, ouviu Lula afirmar que nenhum estudante ficaria sem estudar. O deputado lembrou que não foi beneficiado diretamente pelas políticas públicas no primeiro momento, mas se sentiu impactado indiretamente:
Foi essa fala naquele debate o incentivo que eu precisava para estudar. O senhor plantou essa semente de esperança na minha vida”, disse o parlamentar, que é formado em Direito.




